Quem estava de olho nos setlists da nova turnê latino-americana do Dream Theater talvez tenha notado um padrão de escolhas. Cidades repetidas de 2024, como Porto Alegre e Curitiba, teriam um repertório específico; e locais que não puderam acompanhar o grupo há um ano e meio ficaram com algumas partes magistralmente reaquecidas e herdadas de outrora somada a alterações — caso de Brasília. Parece confuso, mas não é.
Devido ao fato de os fãs da capital federal não terem tido a chance de conferir a “40th Anniversary Tour”, o giro de divulgação de “Parasomnia” (2025) trouxe aspectos de 2024 com inovações. O disco, normalmente usado para abrir o set, foi deixado para um pouco mais adiante. De cara, notava-se a primeira diferença ao se observar o mesmo bandeirão a preservar os segredos do palco, como na volta de Mike Portnoy ao conjunto.
Mais semelhanças? Eram 20h22 quando foram disparadas as duas intros: “Rooster”, do Alice in Chains; e “Prelude”, composição assinada por Bernard Hermman como parte da trilha sonora de “Psycho” (1960) – exatamente como há um ano e meio. Tudo isso para que “Metropolis Pt. 1: The Miracle and the Sleeper” não se iniciasse atrasada e sim pontualmente em relação ao horário prometido de 20h30, inaugurando o primeiro dos três atos.
Completando o bloco inicial em comparação às duas datas no país, “Overture 1928” e “Strange Déjà Vu” assumiram os lugares de “Through My Words” e “Fatal Tragedy” – para ficarmos primeiramente nas faixas do ótimo “Metropolis, Pt. 2: Scenes From a Memory” (1999). Também saíram “A Rite of Passage”, “The Dark Eternal Night” e “Take the Time”, substituídas por “The Mirror” (com direito a um pedacinho de “Lie”, como “outro”), “Panic Attack” e “As I Am”. Dando um salto no tempo, o bis teve “The Spirit Carries On” e “Pull Me Under” como saideira.
Mantidas até então, apenas “The Enemy Inside” e “Peruvian Skies” — e mesmo assim esta teve um snippet adicional, não apenas com menções a “Wish You Were Here” (Pink Floyd) e “Wherever I May Roam” (Metallica), mas também a “Burn” (Deep Purple). Mesmo o segundo ato, voltado ao citado “Parasomnia”, foi diferente, com a supressão de “Dead Asleep”. E a oportunidade de conferir um show com um álbum tocado, desta vez, quase que por inteiro, fez com que este repórter pudesse observar novos detalhes a respeito das execuções de algumas de suas músicas, tais como:
- “In the Arms of Morpheus” / “Night Terror”: na prática, o espetáculo visual de luzes projetadas do palco já começa na primeira, mas se intensifica com belíssimos feixes horizontais na segunda;
- “Are We Dreaming?”: lindamente puxada por Jordan Rudess em sons que lembravam órgãos de igreja e preparando terreno para sua sucessora vir emendada;
- “Bend the Clock”: o pedido de Portnoy e James LaBrie por colaboração na balada foi coletivamente aceito fazendo com que as lanternas dos celulares acesas transformassem a aura da casa;
- “The Shadow Man Incident”: é impressão ou seus riffs ganchudos do começo, praticamente funcionando como um “trecho de invocação”, não lembram, de algum modo “Overture 1928”? A título de curiosidade, a referência encontra-se a partir das batidas nos bumbos em 1min51seg de estúdio. Compare!
Evidentemente, as sete partes de “A Change of Seasons” causaram comoção similar à descrita da apresentação em Porto Alegre, mas especificamente no caso de Brasília, cabe destacar o referido bis. Afinal de contas, o que ainda necessita ser dito quanto a “The Spirit Carries On”? Certamente está entre as favoritas de qualquer fã do grupo — se não for a predileta. Seria desumano você não se emocionar com ela ao vivo ao se lembrar de entes queridos que já partiram. O debulhar em lágrimas é inevitável.
Com veiculação em rádios rock da época, fosse no original em estúdio ou na versão “Live at the Marquee” (1993) e também na MTV, ainda que em versão editada, “Pull Me Under” foi a verdadeira porta de entrada para o universo do Dream Theater para quem hoje tem idade em torno dos cinquenta anos. Como novidade, seu encerramento trouxe uma desaceleração gradativa que este escriba não tem lembranças de já ter testemunhado ao vivo…
O combo inteiro, das mencionadas intros às “outros” “Singin’ in the Rain” e “Dance of the Dream Man”, respectivamente trilhas do filme homônimo de 1952 e da série “Twin Peaks” (1990-91), fez com a duração do espetáculo beirasse três horas e vinte minutos — porém, incluindo o intervalo de vinte e dois minutos entre os dois primeiros atos.
Mantida a coerência verificada até aqui, para São Paulo (Vibra São Paulo, dia 9), Rio de Janeiro (Vivo Rio, dia 10) e Belo Horizonte (BeFly Hall, dia 12), espera-se a manutenção do repertório mostrado nas duas primeiras datas. Isso torna ainda mais especial o que ocorreu no Espaço Dois Ipês. Em todo caso, com o Dream Theater nada é garantido. Vale a pena checar in loco o que eles vão aprontar. Vai que dá uma “zica positiva” e eles inventam alguma coisa.
Dream Theater — ao vivo em Brasília
- Local: Espaço Dois Ipês
- Data: 7 de maio de 2026
- Turnê: 40th Anniversary Tour — Parasomnia 2026 feat. A Change of Seasons=
- Produção: Liberation MC
Repertório:
Intro 1: Rooster [Alice In Chains]
Intro 2: Prelude [Bernard Hermman]
Ato I
01) Metropolis – Part I: The Miracle And The Sleeper
02) Act I: Scene Two: I. Overture 1928
03) Act I: Scene Two: II. Strange Déjà Vu
04) The Mirror [trecho de “Lie” como “outro”]
05) Panic Attack
06) The Enemy Inside
07) Peruvian Skies [trechos de “Wish You Were Here” (Pink Floyd), “Wherever I May Roam” (Metallica)] e “Burn” (Deep Purple)]
08) As I Am
Ato II – Parasomnia
09) In the Arms of Morpheus
10) Night Terror
11) A Broken Man
12) Midnight Messiah
13) Are We Dreaming?
14) Bend the Clock
15) The Shadow Man Incident
Ato III – A Change of Seasons
Vídeo: Dead Poets Society
16) A Change of Seasons: I The Crimson Sunrise
17) A Change of Seasons: II Innocence
18) A Change of Seasons: III Carpe Diem
19) A Change of Seasons: IV The Darkest of Winters
20) A Change of Seasons: V Another World
21) A Change of Seasons: VI The Inevitable Summer
22) A Change of Seasons: VII The Crimson Sunset [trecho de “A Fortune In Lies”]
Bis
23) Act II: Scene Eight: The Spirit Carries On
24) Pull Me Under
Outro 1: Singin’ in the Rain [Gene Kelly]
Outro 2: Dance of the Dream Man [Angelo Badalamenti]
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