Um clima de comunhão durante rara execução de uma música que vai além de 20 minutos no encerramento de um show de quase três horas de duração. O universo composto por Dream Theater e seus fãs sempre se ancorou no binômio desafio e recompensa. E não foi diferente na noite de sábado (9), em São Paulo, na Vibra.
Quando, em dezembro de 2024, a banda trouxe ao Brasil sua turnê de celebração de 40 anos de carreira — que marcou o retorno do fundador Mike Portnoy à bateria —, arriscou criar para si um problema para o futuro. Afinal, como superar um show de 3 horas com praticamente todos os seus clássicos?
Nesta volta ao país após pouco mais de um ano, a banda apostou na mudança quase inteira do repertório nas cidades que então a receberam. Além da inédita reprodução no país da longa “A Change of Seasons”, o show teve a íntegra de “Parasomnia”, álbum lançado em fevereiro de 2025.
O setlist diferente, o disco novo e a aparição inédita de uma raridade, no entanto, não foram atrativos suficientes para repetir a casa cheia na Vibra, na zona sul paulistana. Mesmo diante da liberação do acesso ao setor gold — pista mais longe do palco — para quem havia comprado entradas para a cadeira superior, o espaço térreo não ficou abarrotado, ainda que longe da sensação de vazio.
Apesar do apelo aos seguidores mais fiéis, a reação do público, na maior parte do tempo, não repetiu o calor da celebração do retorno de Mike Portnoy. O apuro técnico, por sua vez, teve a eficiência costumeira e esperada em um show que se destacou pelo cuidado na produção do palco.
O peso da novidade para plateia contemplativa
A autoconfiança dos americanos vive nessa via de mão dupla com o fanatismo de seus seguidores. Um ano e meio atrás, eles estrearam “Night Terror” do então vindouro álbum. Neste sábado, ela foi a única repetida, algo inevitável pela execução na íntegra de “Parasomnia”, lançado três meses depois.
Para acompanhá-la, o Dream Theater caprichou na produção de palco. Uma cama foi colocada à frente do enorme kit bateria de Mike Portnoy, apesar de ninguém ter se deitado nela. O telão, ao fundo do cenário, trazia um vídeo próprio dedicado a cada faixa, como se fossem curtas-metragens que incluíam o título das canções.
A iluminação era adequada à atmosfera da música, com predominância de tons escuros ou fortes, a combinar com o conceito focado em manifestações do inconsciente durante o sono. Momentos mais intensos normalmente eram finalizados com jatos de fumaça vindos do chão, recurso usado à exaustão a noite toda.
Com vários efeitos pré-gravados reproduzidos nas transições das músicas, a comunicação com o público nessa primeira parte do show beirou o inexistente, restrita a gestos do vocalista James LaBrie e de Portnoy. Dessa forma, foi natural a reação cada vez mais contemplativa diante dos tantos elementos imersivos adicionados à já característica complexidade sonora, como nas longas seções instrumentais de “A Broken Man” e “Dead Asleep”.
Depois de um entusiasmado, porém contido, coro em “Night Terror”, o público só se agitou novamente na balada “Bend the Clock”. Foi o único momento em que o cantor pediu a participação da plateia e, embora tenha sido atendido por um mar de lanternas de celulares, o refrão não empolgou tanto. A pista só despertou aos urros após os três minutos do solo emotivo de John Petrucci. Posicionado em uma pequena plataforma sob iluminação de lasers, o guitarrista entregou uma performance à la David Gilmour que mudou a energia do show.
A vibracão se manteve em alta com o primeiro épico da noite ao longo dos quase vinte minutos de “The Shadow Man Incident”. A faixa de encerramento começou com um riff equilibrando o peso de Tony Iommi com a dramaticidade da Broadway. No palco, a encenação incluiu até um boneco inflável sombrio ao lado do guitarrista, personificando o “homem sombra” da letra.
O destaque, porém, ficou para John Myung. Os arranjos do baixista conduziram os cinco minutos de seção instrumental, sintetizando a evolução da banda em uma jornada que partiu de melodias inspiradas em Iron Maiden para solos cada vez mais complexos, evocando o virtuosismo do Liquid Tension Experiment — projeto paralelo do guitarrista e baterista que serviu como introdução do tecladista Jordan Rudess antes de ingressar no Dream Theater.
Quando o tema melódico principal do álbum foi retomado, o público explodiu antes mesmo do desfecho teatral e pretensamente catártico que encerrou o primeiro ato após quase uma hora e meia de show.
O resgate da nostalgia e a solidez de LaBrie
Não foram só as cortinas pretas nas laterais do palco que mudaram nos 20 minutos de intervalo. Substituídas por backdrops que remeteram às ilustrações da discografia, de acordo com o vídeo de espera na tela, a atmosfera geral do público também já era outra. Quando os PAs executaram o tema “False Awakening Suite” — adequado para a retomada de um show que até então falava de distúrbios do sono —, as reações variavam conforme o fundo do palco exibia cada capa.
A segunda parte do show começou com o resgate de canções de dois álbuns não representados na turnê anterior. A primeira foi “The Enemy Inside”, do disco homônimo de 2013 e única da fase em que Portnoy esteve ausente, fato claramente percebido diante da participação mais mecânica do baterista em sua reprodução.
Os coros do público, todavia, já eram maiores do que para todo o álbum novo executado, e aumentariam na arabesca “A Rite of Passage”, de “Black Clouds & Silver Linings” (2009), com direito a solo de iPad de Rudess.
O primeiro momento catártico da noite aconteceu quando o tecladista deixou seu apetrecho de lado e voltou ao instrumento tradicional para iniciar “Through My Words”. A curta faixa do clássico “Scenes from a Memory” (1999) foi acompanhada em uníssono por LaBrie e público, assim como os primeiros versos de “Fatal Tragedy”, emendada como em estúdio.
Muitas vezes criticado, o vocalista de 63 anos até então tinha atuação bem satisfatória em canções que pouco saíram da zona de conforto para seu timbre em tempos recentes. Na primeira vez que a música exigiu mais fôlego e tons altos, ele manteve o bom nível.
Como tradicional em shows do Dream Theater, porém, o público vibrou mesmo durante a longa sucessão final de solos, cada vez mais rápidos e técnicos. Myung, mais uma vez, roubou a cena ao fazer uma rara incursão ao centro do palco e agitar empolgado como um menino, mesmo com os cabelos longos rareando de quem beira os 60 anos. Foi reconhecido ao ter seu nome entoado ao término em meio a mais jatos de fumaça.
Apesar das ilustrações nas laterais do palco e de uma troca de pedestal de microfone de LaBrie — de adornos com faces de monstrinhos para o tradicional logo “Majesty”, fazendo menção ao nome de batismo do grupo —, a segunda parte do show não teve o mesmo cuidado visual. A iluminação seguiu funcional, mas algumas faixas foram acompanhadas por vídeos que pareciam telas de descanso do computador, além do fumaceiro que já não causava maiores reações.
Para a longa e pesada “The Dark Eternal Night”, a banda resgatou a animação utilizada na turnê de promoção de “Systematic Chaos” (2007), mas sem se preocupar em melhorar sua definição, ficando meio borrada no telão. Não chegou nem perto de ser um problema ao público, que pulou à cadência do ritmo influenciado por nu-metal, além de tentar acompanhar os versos meio hip hop cantados por LaBrie, em partes num jogral com Portnoy.
Antes de “Peruvian Skies”, representante única de “Falling into Infinity” (1997), os músicos se divertiram nas citações a Metallica e Pink Floyd, passando por “Nothing Else Matters”, “Wish You Were Here” e “Wherever I May Roam”. Rudess variou sua contribuição entre o tradicional teclado de 360°, além de reproduzir efeitos de slides com seu fingerboard, para encerrar com o músico quase setentão percorrendo o palco portando uma keytar.
A atmosfera de festa terminou com os tradicionais coros do público para “Take the Time”, clássico de “Images and Words” (1992). Se LaBrie segurou o tom alto após Mike Portnoy cantar os versos iniciais, foram cortadas as estrofes que exigem mais fôlego e agressividade nos tons altos, emendando seu primeiro refrão à parte lenta anterior à seção intermediária instrumental. Com Petrucci brilhando ao estender seu solo final, a banda saiu ovacionada do palco.
Um “Carpe Diem” histórico em final solene
Como bônus por ter colocado à prova no palco todo seu álbum mais recente, finalmente chegou a hora de cumprir a promessa da execução, na íntegra, de seu primeiro épico, “A Change of Seasons”. Composta originalmente durante as sessões de “Images and Words”, a faixa marcou o primeiro embate do Dream Theater com sua gravadora, que vetou uma composição de 23 minutos no álbum de 1992.
A vingança veio com o seu lançamento como um EP autônomo três anos depois, acompanhado por covers gravados em apresentação ao vivo na Inglaterra. Contudo, ela foi tocada de forma fracionada nas turnês seguintes, como na estreia no Brasil em 1997. A reprodução de todas as suas partes na sequência teve raras incursões nos setlists das três décadas seguintes — nunca antes na história deste país.
Após o telão exibir um trecho do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” — inspiração para o mote “Carpe Diem”, usado por Mike Portnoy em sua primeira incursão como letrista ao desenvolver o tema em torno do trauma da precoce morte de sua mãe —, John Petrucci iniciou os acordes limpos iniciais da música sozinho no palco.
O clima de festa com que a segunda parte havia terminado se transformou em um momento solene. Apesar de urros e até pulos em seções mais enérgicas, os momentos mais densos eram entoados de forma quase religiosa, como nas partes “Carpe Diem” e “Another World”, muitas vezes se sobrepondo à voz de LaBrie.
A reprodução do instrumental se manteve fiel aos timbres registrados em estúdio, apesar do bem desconexo piano em clima de saloon do velho oeste do final de “When the Water Breaks”, do Liquid Tension Experiment, já tradicionalmente incorporado ao final de “The Darkest of Winters”. John Petrucci se permitiu improvisar em cima de alguns dos solos, para desespero dos puristas, mas LaBrie não demonstrou problemas ao cantar a música em seu tom original.
A resposta emotiva do público ao catártico encerramento da longa faixa com “The Crimson Sunrise”, porém, não apagou a reação mais contemplativa ao longo das três horas de apresentação, para menos gente em relação a 2024, no mesmo local em São Paulo.
Não que isso deva acender um sinal amarelo para o grupo quanto ao seu demandante modus operandi. Assim como os ciclos da vida se repetem na letra de “A Change of Seasons”, foi apenas mais uma turnê na carreira do Dream Theater. Apesar da queda na quantidade de ingressos vendidos, não há motivos para duvidar do retorno ao país, com um “desafio” diferente. E, na perene expectativa por uma nova recompensa, seus fãs estarão lá.
Dream Theater — ao vivo em São Paulo
- Local: Vibra São Paulo
- Data: 10 de maio de 2026
- Turnê: 40th Anniversary Tour — Parasomnia 2026 feat. A Change of Seasons
- Produção: Liberation MC
Repertório:
Parte 1: “Parasomnia”
1. In the Arms of Morpheus
2. Night Terror
3. A Broken Man
4. Dead Asleep
5. Midnight Messiah
6. Are We Dreaming?
7. Bend the Clock
8. The Shadow Man Incident
Parte 2:
Intro: False Awakening Suite
9. The Enemy Inside
10. A Rite of Passage
11. Through My Words
12. Fatal Tragedy
13. The Dark Eternal Night
14. Peruvian Skies
15. Take the Time
Bis:
16. A Change of Seasons
I. The Crimson Sunrise
II. Innocence
III. Carpe Diem
IV. The Darkest of Winters
V. Another World
VI. The Inevitable Summer
VII. The Crimson Sunset
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