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São Paulo se confirma como o santuário para o culto do Nevermore

Inclusão de baladas históricas amplia a carga emocional de show paralelo ao Bangers Open Air, validando nova formação e persistente devoção dos fãs brasileiros

“Wow.” Foi como o próprio Nevermore, em suas redes sociais, começou a descrever o show realizado em São Paulo dois dias depois do curto set no Bangers Open Air 2026, numa terça-feira (28) à noite que começou chuvosa, lembrando a sua Seattle natal.

Comparado à reação das duas únicas apresentações da nova formação até aqui, ficou claro que a entrega não foi mera “média” com o país. O público que encheu o Carioca Club estabeleceu uma atmosfera de culto latente durante os noventa minutos de set.

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A abertura resume o show pesado e emotivo

No palco, a austeridade imperou. Nada além do logotipo da banda ao fundo, sem distrações visuais além da música, como já havia ocorrido no festival realizado no fim de semana anterior.

De base pré-gravada, apenas a introdução “Ophidian”, que abre “Dreaming Neon Black” (1999), também utilizada quando as cortinas pretas foram abertas. Dali em diante, só se ouviu o que os músicos executavam com seus instrumentos diante do público. Além, claro, dos coros e urros em massa na pista.

“Beyond Within” veio colada à faixa introdutória, da mesma forma como no álbum conceitual que descreve a descida de um homem à loucura após o desaparecimento da parceira em uma seita religiosa — um enredo baseado em traumas reais do falecido vocalista Warrel Dane. Esse tom confessional e denso talvez explique por que, nesta nova fase, a faixa seja a única representante do disco de 1999 no repertório.

Serviu como um resumo de tudo que o Carioca Club vivenciaria intensamente na noite. Riff na base da pancadaria, refrãos cantados à exaustão pelo público, arranjos intrincados para ritmos alternados, solos em profusão aliando técnica a melodia e momentos de introspecção à beira da catarse.

O verso “bem-vindo ao futuro”, apesar do repertório sem nenhum material inédito, soou como uma profecia para o público que ali descobria a força da nova encarnação da banda.

Álbum clássico de 2000 como pilar do show

O setlist percorreu quase toda a discografia. Passou em branco apenas o trabalho de estreia homônimo, lançado em 1995. Warrel Dane, o baixista Jim Sheppard e o então guitarrista de turnê Jeff Loomis havia anos antes deixado o Sanctuary ao discordar dos rumos musicais que os outros integrantes pretendiam dar após ter feito algum barulho no subterrâneo metálico com dois álbuns.

Com uma sonoridade que não fugia muito da transição do estilo do grupo anterior ao groovado metal noventista, de poucos elementos que se tornaram únicos para o Nevermore, o registro não é tão representativo como “Dead Heart in a Dead World” (2000). Apesar de aclamado desde o lançamento, sua repercussão comercial frustrou gravadora e banda, ofuscada por um ascendente Opeth em turnê conjunta pelos Estados Unidos. Mesmo assim, segue como seu trabalho mais celebrado e foi repetido como base do show em solo paulistano.

Suas quatro músicas executadas no Memorial da América Latina permaneceram. “Engines of Hate” veio na fase inicial da noite precedida por um aquecimento na voz do público feita pelo novo vocalista Berzan Önen, que, outra vez com sua camiseta emulando a do time olímpico brasileiro, se assustou com a resposta. Já “Inside Four Walls” fez do chão do Carioca Club um pula-pula. A avassaladora “Narcosynthesis” e a toda intrincada — e grudenta — “The River Dragon Has Come” foram guardadas para o bis e encerraram o show.

Baladas adicionaram apelo emotivo


A carga emocional atingiu o ápice com as duas baladas adicionadas ao repertório. “The Heart Collector” foi dedicada ao falecido vocalista e carregou toda a emoção para um público na cidade onde ele morava — e veio a falecer enquanto gravava em um disco solo. Refrão e melodias icônicas cantadas pelo público se sobrepuseram ao som emanado do palco também em “Believe in Nothing”. A faixa da banda mais ouvida nas plataformas de streaming havia sido poucas vezes executada ao vivo antes do término em 2011 com a saída de Loomis e do baterista Van Williams por divergências com Dane e Sheppard.

Entre as músicas mais lentas ausentes no domingo anterior, “Sentient 6” foi anunciada pelo turco Berzan Önen como sua favorita. Não à toa, conforme Loomis revelou em entrevista para o site, a faixa que selou a escolha do vocalista após audição pública com centenas de aspirantes ao cargo.

Foi a chance de o público sentir os arrepios nos pelos do braço como descrito pelo guitarrista fundador ao ouvir o cantor dar sua interpretação para a letra de um robô que, em momento melancólico da música, pede para aprender a sonhar. No final, arrastado e agressivo, a máquina decide erradicar a raça humana, em mais uma das letras de Warrel Dane que seguem atuais, apesar de escrita para o álbum “This Godless Endeavor” (2005).

Disco de 2005 trouxe peso extra

Além da balada, outras quatro músicas do disco lançado em 2005 deram peso e agressividade adicional ao repertório. Com uma sonoridade que agregou elementos então modernos mais extremos, não se perdeu a identidade já consolidada no material anterior. Dessa forma, a cena da época parecia despertar para o Nevermore, antes considerado melódico demais para o mercado norte-americano, ou denso e labiríntico demais para uma parcela dos fãs europeus.

“My Acid Words”, que só apareceu na reta final do show do Bangers Open Air, foi a segunda da noite e abriu as primeiras rodas mais volumosas na pista do Carioca Club. Suas pequenas paradas sincronizadas foram mais uma prova de que os novatos Semir Özerkan, no baixo, e Jack Cattoi, na outra guitarra, estão cada vez mais entrosados com Loomis e Williams.

Afora “Sentient 6”, outras duas músicas da obra de 2005 foram adicionadas ao repertório. “Final Product”, dona de seu primeiro vídeo promocional, empolgou com seu andamento aparentemente mais simples, além do refrão mais melódico, sem deixar os ânimos baixarem depois da avassaladora “Born”. Última no domingo, começou a encaminhar o show de terça para sua conclusão. Dessa vez, porém, o pedido de “wall of death” de Önen convenceu um percentual maior entre todos na casa que não paravam de vibrar com o show.

Resgate da discografia como primeiro passo da reconstrução

A épica “This Godless Endeavor” encerrou a primeira parte do set após “Believe in Nothing” ter extraído lágrimas no público, mesmo com Önen repetindo um grito agudo, bem fora de contexto, dado em “The Heart Collector”, também em seu refrão final.

“Este era o público que estava esperando”, vociferou o vocalista antes de Jeff Loomis iniciar os acordes limpos do início da faixa-título de 2005. Ao longo de quase dez minutos, os músicos foram precisos na reprodução de todas as variações que acompanham a letra melancólica sobre a busca por um sentido na vida na relação entre homens e divindades.

O show já havia promovido a estreia de “Next in Line” pela atual formação. Principal faixa do raivoso, beirando o industrial, segundo álbum “The Politics of Ecstasy” (1996), uma das músicas que começaram a desenhar melhor a identidade do grupo recebeu coros ensurdecedores para seu refrão.

Situação que já havia ocorrido antes, de forma mais intensa, para o repeteco de “Enemies of Reality”, a faixa-título do disco que sucedeu “Dead Heart in a Dead World” em 2003. Gravado com orçamento limitado em meio a uma troca de farpas entre a gravadora e banda, ela foi tocada na reta inicial do show com toda a intensidade do trabalho que precisou ser remixado para fazer justiça à composição.

O único momento de respiro foi “Moonrise (Through Mirrors of Death)”, do derradeiro “The Obsidian Conspiracy” (2010), que recebeu uma reação morna no meio do set — talvez pelo minimalismo do disco ou pelo trauma da interrupção da turnê original após a saída de Loomis e Williams.

Ao fim de “The River Dragon Has Come”, o sentimento era de que os quase vinte anos de espera pela terceira vinda da banda ao Brasil foram finalmente recompensados. O Nevermore deu o primeiro passo firme em sua reconstrução e aumentou a expectativa por um próximo álbum após os vindouros shows na temporada de festivais europeus de verão. O retorno ao país não deve demorar.

Nevermore — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 28 de abril de 2026
  • Produção: Honorsounds

Repertório:

  1. Intro: Ophidian + Beyond Within
  2. My Acid Words
  3. Enemies of Reality
  4. Engines of Hate
  5. Sentient 6
  6. Next in Line
  7. Moonrise (Through Mirrors of Death)
  8. Inside Four Walls
  9. The Heart Collector
  10. Born
  11. Final Product
  12. Believe in Nothing
  13. This Godless Endeavor
    Bis:
  14. Narcosynthesis
  15. The River Dragon Has Come

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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