Como o Cinderella abraçou as influências setentistas em “Long Cold Winter”

Maturidade artística recém-adquirida ditou o ritmo das gravações; pesos-pesados da bateria imprimiram sua marca no álbum

Formado na Filadélfia em 1982, o Cinderella estourou na cena hard rock americana dos anos 1980 com discos multiplatinados, singles de enorme sucesso e videoclipes com destaque na programação da MTV.

Entre 1985 e 1994, Tom Keifer (vocais e guitarra), Jeff LaBar (guitarra), Eric Brittingham (baixo) e Fred Coury (bateria) lançaram ao todo quatro álbuns de estúdio que, dotados de algumas das canções mais memoráveis de sua época, venderam, somados, mais de 15 milhões de unidades em todo o mundo.

- Advertisement -

O primeiro deles, “Night Songs” (1986), entrou para a história como o disco que mais rápido ultrapassou as 500 mil cópias vendidas sem ter um single entre as 10 mais tocadas do país.

Tendo obtido números tão expressivos, e estando na mesma gravadora que Bon Jovi, Def Leppard, Kiss e Scorpions — o que lhes asseguraria shows e turnês —, bastaria ao Cinderella repetir a fórmula em seu álbum seguinte, “Long Cold Winter”.

Não foi o que aconteceu.

“Só fizemos o que já queríamos fazer”

Embora Tom Keifer, principal compositor da banda, tenha crescido ouvindo Led Zeppelin, Kiss e Aerosmith, somente no segundo álbum do Cinderella é que tais influências seriam incorporadas ao som. A estética glam vista e ouvida em “Night Songs” daria lugar à aura setentista pela qual o grupo ficaria mais amplamente conhecido.

Para Keifer, do ponto de vista musical, “Long Cold Winter” se tratou de uma progressão natural, conforme afirmou em entrevista à Classic Rock:

“Nós nos tornamos melhores músicos e aprendemos a expandir a paisagem musical. O estilo de composição não mudou nada porque [o som que ouvíamos] era tudo baseado no blues, no country e na seguinte temática: os altos e baixos da vida, apaixonar-se e desapaixonar-se.”

Além da música, o visual também sofreu alterações, citou Jeff LaBar ao Hard Rock Haven:

“No segundo disco paramos de usar maquiagem. Ninguém se lembra disso, mas no segundo disco paramos de armar o cabelo e de usar maquiagem.”

A adoção de um look menos chamativo certamente diferenciou o Cinderella de seus pares, ainda reféns da trinca gloss-laquê-delineador, mas, na mesma ocasião, LaBar revelou que a intenção não foi necessariamente essa:

“Não acho que houve um esforço consciente para nos diferenciarmos, acho que [em ‘Long Cold Winter’] fomos mais nós mesmos. Apenas fizemos o que já queríamos fazer.”

O esforço de mudança foi coletivo, mas a composição, a exemplo de “Night Songs”, continuou restrita às mãos de Keifer, exceto por “If You Don’t Like It”, coescrita por Eric Brittingham. O baixista não só não via nenhum problema nesse modus operandi como também não sentia ciúmes ou se ressentia do colega que, por compor mais, ganhava mais dinheiro. Ao jornalista Gary James, ele disse:

“Não há problema quanto à composição se qualquer um de nós criar uma música que realmente se encaixe naquilo que fazemos. No que diz respeito ao dinheiro, ganhei muito. Não posso me queixar. Nem ninguém [da banda]. Todos ganharam muito dinheiro também. Daqui a dez anos, se ainda estivermos fazendo álbuns, estaremos ganhando muito dinheiro. Isso é o que importa.”

“Dobros, violões, pianos, teclados e um monte de coisas”

Dois estúdios foram utilizados na gravação de “Long Cold Winter”: o Bearsville, em Nova York — onde Meat Loaf fizera o clássico “Bat Out of Hell” (1977) e o R.E.M. faria dois de seus álbuns mais bem sucedidos, “Out of Time” (1991) e “Automatic for the People” (1992) — e o Kajem, um velho moinho de madeira convertido escondido na floresta de Gladwyne, Pensilvânia.

Andy Johns, que produzira “Night Songs”, fora trazido de volta, mas desta vez teria Tom Keifer e Eric Brittingham como coprodutores.

À Glide Magazine, Keifer justificou o arranjo:

“No primeiro álbum, éramos muito inexperientes e não sabíamos como obter os resultados que queríamos. Andy fez um ótimo trabalho, fazendo [de ‘Night Songs’] um bom disco de rock, mantendo tudo o mais básico possível. Como estávamos mais maduros em estúdio, o ‘Long Cold Winter’ acabou tendo muito mais instrumentos; dobros, violões, pianos, teclados e um monte de coisas que não estavam no primeiro álbum.”

Ao assumirem a coprodução de “Long Cold Winter”, Tom e Eric buscavam também uma sonoridade mais orgânica, mas infelizmente não conseguiram. O vocalista e guitarrista avaliou da seguinte forma em conversa com o Songfacts:

“De fato, [‘Long Cold Winter’] soa muito mais pasteurizado do que eu gostaria. Mas esse era o padrão da época, e qualquer engenheiro de som com quem você entrasse em estúdio visava à obtenção daquele som de caixa [de bateria] explosivo, muito sofisticado e processado, então apenas nos deixamos levar. Reduzimos um pouco a pasteurização [em comparação a ‘Night Songs’], mas ainda assim esse disco soa bastante pasteurizado.”

“Adivinha quem apareceu no estúdio”

Assim como não gravou “Night Songs”, Fred Coury ficou de fora de “Long Cold Winter”, cujas baterias couberam a dois gigantes do instrumento: Cozy Powell e Denny Carmassi. O responsável por isso, segundo Jeff LaBar, foi o produtor Andy Johns. Ao SleazeRoxx, ele contou:

“A brutalidade de Andy com os bateristas era notória, e ele não achava o estilo de Fred adequado às músicas. Tentamos mais um pouco, mas simplesmente não deu. À certa altura, Andy olhou para mim e disse: ‘Me dê uma lista de bateristas com quem você gostaria de tocar’. O primeiro nome que veio à mente foi Cozy Powell. Passados alguns dias, adivinha só quem apareceu no estúdio!”

Na entrevista a Gary James, Eric Brittingham acrescentou que o próprio Coury deu sinal-verde para os colegas arranjarem outra pessoa:

“Fred era ótimo nos shows, mas não tinha muita experiência em estúdio. Ficava nervoso e errava muito. Foram semanas tentando gravar as baterias, sem sucesso. Àquela altura, já havíamos gastado 70 mil dólares em tempo de estúdio. Daí o próprio Fred disse para chamarmos alguém, desde que o fizéssemos na surdina. Mas é lógico que a informação vazou. Ele ficou p#taço e creio que até hoje não suporte ler ou ouvir falar a respeito disso.”

Em papo com a Classic Rock Revisited, Tom Keifer atestou que por mais difícil que tenha sido para Coury, o baterista “tomou a dispensa temporária como motivação”:

“Ele deu duro e melhorou muito [em estúdio]. Tanto que tocou no disco seguinte, ‘Heartbreak Station’ (1991), todo e fez um ótimo trabalho.”

Também deu seu parecer em relação à escolha de Powell:

“Cozy foi bárbaro, principalmente nas viradas. Tinha o diferencial de ser cria do blues do jazz. Dá para ouvir isso nas faixas ‘Long Cold Winter’ e ‘Coming Home’. Ele tinha tanta sutileza e suingue que realmente ajudou a tornar esse álbum o que é. A bateria se destaca pra valer.”

Hoje sabe-se que Powell, cujo currículo incluía álbuns com Whitesnake, Rainbow e Jeff Beck, tocou em nove das dez músicas de “Long Cold Winter”. A exceção ficou por conta de “Second Wind”, registrada por Carmassi. LaBar revelou ao SleazeRoxx que só soube da participação do então baterista do Heart muito tempo depois:

“Minha esposa e eu tínhamos uma viagem de férias planejada; fomos para o Havaí por uma ou duas semanas. Quando voltei, eles haviam gravado com Denny Carmassi. Ou seja, nem o conheci pessoalmente! [Risos.] Tenho certeza de que não cheguei a topar com ele.”

Sabe-se, também, que era para John Paul Jones, do Led Zeppelin, ter conduzido as orquestrações da balada “Don’t Know What You Got (Till It’s Gone)”. Para Keifer, que sempre admirou o trabalho de Jones em músicas como “Rain Song”, teria sido um sonho realizado, mas devido a restrições de tempo e orçamento, ele teria de esperar até o álbum seguinte do Cinderella para poder incluir mais essa realização em sua folha-corrida: o baixista do Led participaria de “Winds of Change”, faixa de encerramento de “Heartbreak Station”.

Leia também:  O melhor álbum para começar a ouvir Beatles, segundo Serj Tankian

Orgulho de “algumas músicas”

Lançado em julho de 1988, “Long Cold Winter” foi um sucesso instantâneo, entrando no top 10 da parada de álbuns da Billboard nos Estados Unidos, com vendas que ultrapassaram a marca das 3 milhões de cópias. Dos quatro singles lançados, três — “Coming Home”, “The Last Mile” e “Don’t Know What You Got (Till It’s Gone)” — chegaram às 40 mais.

Para promover o álbum, o Cinderella caiu na estrada abrindo para os colegas de gravadora Scorpions na Europa. Em março de 1989, embarcaria em sua primeira turnê norte-americana como headliner.

Nos dias 12 e 13 de agosto daquele ano, o grupo subiu ao palco do histórico Moscow Music Peace Festival, na antiga União Soviética, com Bon Jovi, Gorky Park, Mötley Crüe, Ozzy Osbourne, Scorpions e Skid Row.

Leia também:  Quando Michael Angelo Batio estragou o próprio teste para o Kiss

A temporada de shows chegaria ao fim em outubro, após impressionantes 254 datas. Paralelo a esse término, o Cinderella foi laureado com a chave da cidade da Filadélfia e venceu o prêmio anual da Philly Music Foundation.

A despeito das conquistas do período, Tom Keifer diz que custou a reconhecer o valor de “Long Cold Winter”, segundo resposta ao Songfacts:

“Não sou lá muito bom em dar tapinhas nas minhas costas […] E isso pode parecer loucura, mas acho que só com o passar dos anos, e os três primeiros discos do Cinderela meio que detentores de certo status, que pude realmente olhar em retrospecto para essas músicas, ouvi-las com algum distanciamento, e há algumas das quais posso dizer que tenho orgulho e que são muito bem escritas.”

Para Eric Brittingham, o grande mérito do disco foi remover o Cinderella do balaio de bandas como Poison e Danger Danger. Sua fala ao Deseret News foi a seguinte:

“As pessoas achavam que éramos uma banda glam dos anos 1980. Foi revigorante ouvi-las reconhecer que tínhamos uma pegada mais blueseira e um visual menos espalhafatoso que os demais.”

O longo e tenebroso inverno por vir

Em meados da década de 1990, o Cinderella, como muitos de seus contemporâneos, sucumbiu aos maus bocados que passou com as mudanças na indústria fonográfica. Apesar da aclamação crítica, “Heartbreak Station” vendeu cerca de um terço do seu antecessor, e o derradeiro “Still Climbing” (1994) ainda menos.

Reuniões para shows esporádicos tornaram-se rotina. De 1998 a 2014, foram oito turnês. O último show foi a bordo do navio MSC Divina, na terceira edição do Monsters of Rock Cruise.

Como artista solo, Tom Keifer lançou os discos “The Way Life Goes” (2017) e “Rise” (2019). Eric Brittingham tentou a sorte com os “supergrupos” Let It Rawk e Devil City Angels, antes de virar baixista da banda solo de Bret Michaels, do Poison. Fred Coury ganha a vida — e chegou a ganhar um Emmy — fazendo trilhas sonoras para a TV. Com a morte de Jeff LaBar em 14 de julho de 2021, aos 58 anos, todas as possibilidades de uma reunião do Cinderella foram por água abaixo.

Cinderella — “Long Cold Winter”

  • Lançado em 5 de julho de 1988 pela Mercury (EUA) e Vertigo (Reino Unido)
  • Produzido por Andy Johns, Tom Keifer e Eric Brittingham

Faixas:

  1. Bad Seamstress Blues / Fallin’ Apart at the Seams
  2. Gypsy Road
  3. Don’t Know What You Got (Till It’s Gone)
  4. The Last Mile
  5. Second Wind
  6. Long Cold Winter
  7. If You Don’t Like It
  8. Coming Home
  9. Fire and Ice
  10. Take Me Back

Músicos:

  • Tom Keifer (vocal, guitarra, violão, steel guitar, gaita)
  • Jeff LaBar (guitarra, com solos nas faixas 1 e 8)
  • Eric Brittingham (baixo, backing vocals)
  • Fred Coury (bateria – creditado, mas não toca no álbum)

Músicos adicionais:

  • Jay Levin (steel guitar)
  • Cosy Powell (bateria em todas as faixas exceto 5)
  • Denny Carmassi (bateria na faixa 5)
  • Rick Criniti (piano, órgão, sintetizador)
  • Kurt Shore (teclados)
  • John Webster (teclados)
  • Paulinho Da Costa (percussão)

Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Twitter | Facebook | YouTube.

ESCOLHAS DO EDITOR
InícioCuriosidadesComo o Cinderella abraçou as influências setentistas em “Long Cold Winter”
Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

1 COMENTÁRIO

  1. parabéns pela excelente matéria, extremamente informativa, exata e assertiva quanto ao conteúdo. um dos discos da minha vida, lançado no dia de meu aniversário de 14 anos da, talvez, banda mais criminosamente subestimada da história do rock, juntamente com o músico talvez mais criminosamente subestimado da história do rock, seu líder Tom Keifer. quantas saudades e lembranças maravilhosas me traz com a musica maravilhosa contida nos sulcos daquele meu velho vinil, importado de Portugal, enviado por meio amado e saudoso avô que me mandava todas as novidades da época, simultaneamente ao lançamento e, geralmente, no mínimo 6 meses antes dos lançamentos no Brasil. Obrigado saudoso Jeff, Eric, Fred e Tom, muito obrigado meu amado avô…

DEIXE UMA RESPOSTA (comentários ofensivos não serão aprovados)

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Últimas notícias

Curiosidades