5 discos para conhecer o prolífico The Brian Jonestown Massacre

Ícone da neopsicodelia nos anos 1990, banda de São Francisco soma 20 álbuns de estúdio, transitando também pelo shoegaze, garage rock, folk e eletrônico

Em um mundo justo e realmente interessado em música desafiadora, seria recorrente ver o The Brian Jonestown Massacre citado entre as principais bandas da década de 1990. Não que Anton Newcombe e sua trupe precisem de legitimação a essa altura do campeonato, mas, talvez, um pouco mais de reconhecimento, algo que ainda lhes é devido, pudesse ao menos ter antecipado a tão aguardada estreia em solo brasileiro.

Após 30 anos de carreira, no fim de abril o BJM enfim desembarca no Brasil para os primeiros shows por aqui. Serão apenas duas apresentações, concorridíssimas: no Cine Joia, em São Paulo (dia 20), e no Picnik Festival, em Brasília (dia 21).

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Formado em 1990 na cidade americana de São Francisco, o The Brian Jonestown Massacre bebeu doses cavalares de psicodelia na inesgotável fonte de sua terra natal, tendo se tornado um dos grandes nomes do rock lisérgico. Ao longo dos anos, porém, a banda também flertou com shoegaze, garage rock, folk, eletrônico e outros.

A curiosa alcunha vem da aglutinação de dois nomes próprios: Brian Jones, guitarrista dos Rolling Stones, morto em 1969, e Massacre de Jonestown, como ficou conhecido o suicídio coletivo orquestrado pelo líder religioso Jim Jones em 1978, na Guiana.

Prolífica, a banda já lançou 20 álbuns de estúdio. Aqui selecionamos cinco, que não apenas estão entre os melhores, mas funcionam como porta de entrada para o mergulho em diferentes ondas do mar alucinógeno que é a discografia do BJM.

5 discos para conhecer The Brian Jonestown Massacre

“Methodrone” (1995)

O subestimado “Methodrone” foi o primeiro álbum de fato, após uma série de demos e compilações com gravações pouco relevantes, as quais o próprio Antom Newcombe chamou de “studio trash”. Nessa época, o The Brian Jonestown Massacre era, basicamente, uma banda shoegaze, na linha do My Bloody Valentine, com composições suaves e etéreas, beirando o dream pop.

Apesar disso, há traços de psicodelia aqui e ali, e a capa denuncia referência explícita a “Meddle” (1971), do Pink Floyd, também conhecido como “o disco da orelha”. Os quatro integrantes na água turva da arte são Brian Glaze (baterista), Matt Hollywood (guitarrista/baixista), Newcombe (guitarrista/vocalista) e Dean Taylor (guitarrista).

“Evergreen” e “Everyone Says” são belíssimas e estão entre as melhores do disco. Curiosamente, ambas trazem Newcombe dividindo os vocais com as convidadas Elise Dye e Paola Simmonds. Mesmo dando muito certo, o expediente não se repetiria em trabalhos futuros.

“Methodrone” saiu pelo selo Bomp! e foi praticamente ignorado na época. Em 2018, entrou como 33º na lista dos “50 Melhores Álbuns de Shoegaze de Todos os Tempos” feita pela rigorosa Pitchfork.

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“Take It from the Man” (1996)

No ano seguinte, o The Brian Jonestown Massacre voltou com três álbuns lançados pela Bomp! quase que de forma simultânea, no que ficou conhecida como “a trilogia de 1996”. Foi o auge criativo e, muito provavelmente, também qualitativo da banda. Três discos especiais e inspirados, ainda que distintos entre si.

O primeiro foi “Take It from the Man”, cuja capa, assim como a da estreia, revelava muito das intenções. Desta vez, o BJM se afastava completamente do shoegaze e mergulhava de cabeça na sonoridade da British Invasion: The Kinks, Small Faces, The Who, Beatles, The Animals e, principalmente, Rolling Stones. A ponto de Newcombe dizer no encarte que o espírito de Brian Jones esteve presente no estúdio durante as gravações, orientado-o na confecção do álbum.

Na prática, as músicas ficaram mais enxutas, assertivas, vibrantes. O resultado foi um caminhão de canções marcantes, com cara de hits: “Vacumm Boots”, “Who”, “Oh Lord”, “Mary, Please”… impossível ouvir e ficar indiferente.

Alguns anos depois, “Straight Up and Down” até virou tema da abertura da série “Boardwalk Empire”, da HBO. A experimentação psicodélica saía de cena, ao menos por ora, e dava espaço a um garage rock irresistível, que influenciaria (e muito) o White Stripes.

“Their Satanic Majesties’ Second Request” (1996)

Quem sentiu falta da psicodelia pôde matar saudade logo no mês seguinte, no segundo dos três discos lançados pelo BJM em 1996. “Their Satanic Majesties’ Second Request” saiu menos de 30 dias depois de “Take It from the Man” e era lisergia pura. Desde o nome, uma homenagem a “Their Satanic Majesties Request” (1967) — “o disco psicodélico” dos Stones —, até as canções, encharcadas de instrumentos indianos e viagem sonora, como manda a cartilha sessentista.

A gangue de Anton Newcombe se armou com cítaras, flautas, mellotron, órgão farfisa, tablas, congas e uma vasta lista de novos apetrechos em estúdio. O percussionista Joel Gion passou de mero figurante no disco anterior a peça relevante no contexto da banda, que acertou em cheio em músicas como “All Around You”, “Cold to the Touch” e “Anenome”, possivelmente seu maior sucesso, elogiado publicamente inclusive pelo renomado chef Anthony Bourdain, falecido em 2018.

Mais viajandão do que nunca, o The Brian Jonestown Massacre se aproximava da psicodelia de nomes como Love, 13th Floor Elevators e Country Joe and the Fish. Já no terceiro álbum da “trilogia de 1996”, o levemente inferior “Thank God for Mental Illness”, a abordagem mudaria novamente. Sem a presença de um baterista fixo na formação, as composições penderiam mais para o folk rock.

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“Bravery, Repetition and Noise” (2001)

Bravura, repetição e ruído. Quem se atém ao nome pode ser induzido ao erro: “pronto, agora o BJM migrou para o krautrock”. Calma, não é bem isso. O oitavo álbum da banda, que traz o cineasta Jim Jarmusch (!) na capa, mantém o viés folk e é, na verdade, bastante acessível. Passa longe do que o título pode sugerir.

No fim da década de 1990, Antom Newcombe mudou de São Francisco para Los Angeles. Os últimos anos haviam sido complicados para ele, afundado na heroína, com a saúde mental em frangalhos e cada vez mais agressivo. O grupo chegou a despertar o interesse de gravadoras como Sire e Capitol, mas episódios de violência no palco, entre os próprios integrantes ou contra o público, minaram qualquer chance de contrato. Em um show em LA, Newcombe simplesmente chutou a cabeça de um fã. Essa e outras presepadas estão documentadas no filme “Dig!” (2004), que também mostra a relação de amor e ódio do BJM com a banda rival The Dandy Warhols.

Novos ares, portanto, fizeram bem ao imprevisível líder do The Brian Jonestown Massacre, que parece ter acalmado ao se conectar com velhos sons da cena de Laurel Canyon – The Byrds, Crosby, Stills & Nash, Buffalo Springfield, Neil Young. Gente que havia criado justamente o protótipo do “San Francisco Sound”. Com pitadas de indie, o BJM chegou a algumas das melhores canções do folk “moderno”: “Open Heart Surgery”, “Telegram”, “Nevertheless”, “Just for Today”.

“Revelation” (2014)

Em 2010, uma nova mudança inaugurou, digamos, a fase atual do The Brian Jonestown Massacre. Antom Newcombe partiu dos Estados Unidos rumo a Alemanha, deixando para trás seus fantasmas e as drogas pesadas. Sóbrio e respirando o ar mais “industrial” de Berlim, foi inevitável para ele incorporar influências eletrônicas e uma paisagem computacional à música, outrora orgânica até a medula.

Ouça “Vad Hände Med Dem?”, faixa que abre Revelation, e note essa diferença nos timbres, da guitarra à bateria. “What You Isn’t” vem em seguida e eleva o nível à estratosfera, sem dúvida a melhor do 13º álbum do grupo. “Food for Clouds” e “Fist Full of Bees” são outros pontos altos desse grande trabalho, que viaja numa psicodelica digital um tanto quanto “kraftwerkiana”.

Contrariando os tempos modernos, de lançamentos esparsos, o BJM não dá qualquer sinal de arrefecimento. Desde 2014, a banda lançou mais sete discos. Os mais recentes foram os bons “Fire Doesn’t Grow On Trees” (2022) e “Your Future is Your Past”, que devem dominar o setlist dos shows no Brasil. No entanto, o melhor dessa “fase Berlim” de Newcombe e cia continua sendo “Revelation”.

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Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É repórter do Globo Esporte e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room e Rock Brigade. Atualmente revisa livros da editora Estética Torta e é editor do Morbus Zine, dedicado ao death metal e grindcore.

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