O conturbado fim da era Dio do Rainbow com “Long Live Rock ‘N’ Roll”

Terceiro álbum de estúdio marcou a despedida do melhor vocalista que a banda liderada pelo guitarrista Ritchie Blackmore já teve

Quando “Rising” foi lançado, em maio de 1976, as resenhas foram uniformemente surpreendentes. Os jornalistas se referiam ao segundo álbum de estúdio do Rainbow como uma segunda vinda do heavy metal. O disco tornou-se um hit nas paradas do Reino Unido, da Europa e do Japão. Só não se saiu tão bem nos Estados Unidos, onde mal chegou ao top 40.

A ideia era que o sucessor de “Rising” fosse aquele que colocaria o Rainbow em alta na América. Contudo, a genialidade geniosa do guitarrista e mandachuva Ritchie Blackmore não apenas implodiu a que muitos consideram a melhor formação da história da banda como a fez perder o que foi, indiscutivelmente, seu melhor vocalista.

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Demissões no Rainbow, outra vez

De volta para casa, após o fim da turnê mundial de 1976, Ritchie Blackmore expulsou o tecladista Tony Carey do Rainbow. Segundo Blackmore, em entrevista concedida à revista Trouser Press em julho de 1978, Carey fora chamado de volta, mas decidira sair por conta própria:

“Tony era meio doidão. Ele não aguentou a pressão. Estávamos fazendo muitas sessões espíritas. É um hobby meu, entrar em contato com seres do outro mundo. Ele não deu conta, porque estávamos gravando no castelo na França. O clima ficou muito pesado, espiritualmente falando, e ele pirou. Pensou que eu estava tentando matá-lo. Não sei de onde ele tirou isso.”

As infames sessões espíritas conduzidas por Blackmore, apesar de para Ronnie James Dio não passassem de o “tipo de coisa feito o tempo todo por músicos de rock longe de casa e sem muito mais o que fazer depois que o sexo e as drogas acabavam”, com frequência produziam resultados assustadores, conforme o vocalista relata na autobiografia “Rainbow in the Dark” (Estética Torta, 2021):

“Ritchie adorava fazer sessões espíritas com um copo e seu tabuleiro Ouija, porém coisas estranhas começaram a acontecer com todos nós. Uma noite, conjuramos Thor, o deus do trovão — não estou zoando —, e pedimos um sinal. Relâmpagos e trovoadas imediatamente rasgaram o céu, quando começou a cair a chuva numa enorme tempestade. Conjuramos muitas coisas estranhas. Então, quando íamos ao estúdio no dia seguinte para gravar, as fitas estavam em branco. A mesa de som realmente ligava e desligava sozinha.”

Depois, Blackmore demitiu o baixista Jimmy Bain, o qual acusou de estar “tomando drogas e, consequentemente, caindo de sono no palco”. A demissão de Bain foi um baque em Dio, que dá detalhes acerca da amizade dos dois e analisa a postura profissional do colega:

“Jimmy e eu nos tornamos amigos. Ficávamos grudados no estúdio e na estrada. Era inegável que ele gostava de festas, mas era conhecido por sua capacidade de levar ao limite o estilo de vida rock ‘n’ roll dos anos 1970, porém fazia valer cada centavo ganho no minuto em que subia ao palco. Eu não estava no time do Jimmy, quando se tratava de curtição o tempo todo, mas me perguntava se era esse vínculo que se desenvolveu entre nós que começou a incomodar o Ritchie. Estávamos sempre rindo e fazendo piadas. Talvez o Ritchie pensasse que, às vezes, estávamos rindo dele. Quem sabe? Talvez estivéssemos. Seja qual for a razão, fiquei triste ao ver o Jimmy partir.”

Em vez de embarcar em outra grande turnê para tentar extrair ainda mais de “Rising”, os primeiros meses de 1977 foram gastos com testes para substitutos. Mas além de encontrar um novo baixista e um novo tecladista, Blackmore, Dio e o baterista Cozy Powell também precisavam colher material para o novo álbum; colheita essa que se tornou muito mais trabalhosa do que se poderia imaginar.

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Vários tecladistas de alto nível foram testados, como Mark Stein (Vanilla Fudge), Matthew Fisher (Procol Harum) e Eddie Jobson (Roxy Music), mas foi o canadense David Stone, do pouco conhecido Symphonic Slam, quem ficou com a vaga.

Para o baixo, Dio sugeriu trazer Craig Gruber, que havia tocado na estreia “Ritchie Blackmore’s Rainbow” (1975), de volta, mas a nova estada não durou mais do que um mês. Vieram, na sequência, Mark Clarke (Colosseum) e, por fim, o experiente Bob Daisley, do aclamado Chicken Shack e futuro baixista da banda solo de Ozzy Osbourne, do Black Sabbath. Ainda assim, foi Blackmore que gravou a maior parte do baixo do que se tornaria o álbum “Long Live Rock ‘N’ Roll”.

Músicas fantásticas sob clima de incerteza

Como o Musicland, estúdio preferido de Blackmore, na Alemanha, estava ocupado, a produção de “Long Live Rock ‘N’ Roll” se deu no Château d’Hérouville, na França. O Honky Château, como ficou conhecido após Elton John gravar seu álbum de mesmo nome por lá, foi construído no século 18, e uma série de grandes artistas, como Pink Floyd e Jethro Tull, já haviam se beneficiado do clima pitoresco de seus arredores.

Apesar da incerteza que pairava, o Rainbow fez algumas músicas fantásticas, conforme o avesso a entrevistas Blackmore reconheceu em poucas palavras a Steve Rosen, na edição de setembro de 1978 da revista Guitar Player:

“Sou meu crítico mas severo, mas sinto que este é um dos melhores álbuns de que já fiz parte.”

Em sua autobiografia, Dio desenvolve um pouco mais:

“A faixa-título era um hino glorioso. Um dos riffs mais cativantes do Ritchie, o resto da música pareceu escrever a si mesma para mim. Foi o mesmo sentimento com ‘L.A. Connection’, construída em torno de uma das marcas registradas do Ritchie: compor riffs do c#ralho. Em seguida, fizemos ‘Kill the King’, já uma canção certeira comprovada em turnê; era basicamente um caso de capturar aquela centelha divina no estúdio. A faixa principal, no entanto, era ‘Gates of Babylon’, outra peça absolutamente épica que Ritchie e eu criamos, apresentando estruturas de acordes incomuns com peso orquestral adicionado.”

Também havia uma música profundamente pessoal para o vocalista: “Rainbow Eyes”, escrita pura e simplesmente para a mulher de sua vida.

“Dei esse título porque Wendy tem os olhos mais incrivelmente lindos, que parecem mudar de cor, dependendo de seu humor ou da luz ambiente. Às vezes são verdes, às vezes são azuis e às vezes são cor de avelã. Ritchie tinha esse tenro arranjo de violão, ao qual adicionamos violinos, violoncelo, viola e flauta. Tornou-se a faixa de encerramento do álbum e era surpreendentemente delicada. Ambos os nossos álbuns anteriores terminavam em frenéticas guitarras de rock épico. Isso era muito diferente.”

Ronnie e Wendy se casaram no mesmo dia em que “Long Live Rock ‘N’ Roll” foi lançado. Depois que voltaram da lua de mel, ele saiu em turnê novamente; a mais estressante de todas em razão da atmosfera ruim que estava se formando nos bastidores.

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No palco, uma confusão só

No livro “Rainbow in the Dark”, Dio define a turnê de “Long Live Rock ‘N’ Roll” como “uma mácula”. Pudera: vinte e cinco datas pela Europa, seguidas de dezessete pelo Reino Unido e mais sessenta nos Estados Unidos. Foram, ao todo, nove meses na estrada.

O álbum, apesar dos esforços e de ter, mais uma vez, conquistado posições altíssimas nas paradas europeias — vendendo até mais do que “Rising” em alguns países —, mal chegou ao Hot 100 nos Estados Unidos. Isso rebaixou o Rainbow ao status de banda de abertura, primeiro para o REO Speedwagon, depois para Alice Cooper e Cheap Trick.

À Trouser Press, Blackmore ironizou tal fato:

“[Ser banda de abertura] significa poder ir ao bar depois [do show]. Se você é a atração principal, quando volta para o hotel já está tudo fechado.”

No palco, porém, a realidade se mostrou outra, com o guitarrista expressando seu descontentamento enfiando o pé na jaca como se ninguém o visse. Ronnie conta:

“A turnê inteira parecia atormentada por sentimentos ruins. Em um show em Pittsburgh, tocamos por apenas 45 minutos antes de o Ritchie resolver ir embora. O público se revoltou quando não voltamos. Algumas noites, o Ritchie dava as costas à banda e a mim. Às vezes ele simplesmente ia embora. Uma vez, ele fugiu pela janela do camarim e vazou. Sem explicação. Sem desculpas.”

Dio também se recorda de um show em Atlanta, quando alguém jogou uma garrafa no palco e o atingiu bem na cabeça:

“Sangue para todo o lado. Fui levado aos bastidores, onde um médico deu uns pontos na minha cabeça. Eu deveria ter ido para o hospital, mas odiava a ideia de estragar o show para os fãs genuínos. Eu mal conseguia cantar, porque me disseram que as suturas abririam. Fizemos cerca de três minutos a mais e então encerramos a noite, momento em que o Ritchie se envolveu em uma briga no palco com o tour manager do REO Speedwagon.”

Na última noite da turnê, em Nova York, com o AC/DC abrindo, o Rainbow tocou apenas três músicas antes de o P.A. da casa começar a apresentar problemas. Depois de 90 minutos, a equipe técnica ainda não havia conseguido fazer o reparo, forçando a banda a pedir desculpas ao público e prometer compensá-lo na próxima vez.

Só que nunca houve uma próxima vez: meses depois dos fiascos em série, e após Blackmore deixar claro que queria tornar o Rainbow mais comercial — o que acabaria fazendo no álbum seguinte, “Down to Earth” (1979) —, Dio sairia em definitivo do grupo.

Rainbow – “Long Live Rock ‘N’ Roll”

  • Lançado em 14 de abril de 1978 pela Polydor
  • Produzido por Martin Birch

Faixas:

  1. Long Live Rock ‘n’ Roll
  2. Lady of the Lake
  3. L.A. Connection
  4. Gates of Babylon
  5. Kill the King
  6. The Shed (Subtle)
  7. Sensitive to Light
  8. Rainbow Eyes

Músicos:

  • Ronnie James Dio (vocais)
  • Ritchie Blackmore (guitarra; baixo nas faixas 1, 2, 3 e 6)
  • Cozy Powell (bateria, percussão)
  • Bob Daisley (baixo nas faixas 4, 5 e 7)
  • David Stone (teclados nas faixas 4, 5 e 7; piano na faixa 3)
  • Tony Carey (teclados nas faixas 1, 2, 8)

Músicos adicionais:

  • Bavarian String Ensemble conduzida por Rainer Pietsch na faixa 4
  • Ferenc Kiss, Nico Nicolic (violinos na faixa 8)
  • Ottmar Machan (viola na faixa 8)
  • Karl Heinz Feit (violoncelo na faixa 8)
  • Rudi Risavy (flauta na faixa 8)

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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