A despretensão intrincada do Led Zeppelin em “Houses of the Holy”

Quinto álbum de estúdio do grupo é marcado pela extroversão; hard rock, world music e rock psicodélico compõem seu exótico panorama sonoro

O sucesso estrondoso de “Led Zeppelin IV” (1971) fez o Led Zeppelin voar alto e ofuscar nomes como Rolling Stones e The Who nas paradas. A banda atingiu outro patamar no mundo da música e passou a ir de cidade a cidade em seu próprio jatinho de luxo, o Starship. Os bastidores libertinos de seus shows viraram lenda.

Apesar de todos estarem clamando por outro “Led Zeppelin IV”, a banda não arriscou tentar se repetir e deixou a extroversão tomar a dianteira em seu quinto álbum de estúdio.

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Despretensioso e ao mesmo tempo intrincado, “Houses of the Holy” apresenta um Led expandindo horizontes de estilo. No exótico panorama sonoro que inclui hard rock, world music e rock psicodélico, nota-se a ausência do blues, elemento-chave da sonoridade da primeira fase do grupo, mas isso, ao que tudo indica, pode ter sido mero acaso.

Uma época de grande inspiração

Depois do lançamento de “Led Zeppelin IV”, o Led Zeppelin embarcou na que o New Musical Express (NME) denominou “a turnê mais longa de todos os tempos”. Na sequência de suas primeiras apresentações na Austrália e na Nova Zelândia em fevereiro de 1972, vieram dezessete shows nos Estados Unidos e Canadá, seis no Japão e um giro de vinte e quatro datas pelo Reino Unido, encerrado somente em janeiro de 1973.

Paralelo a tudo isso, alguns acontecimentos importantes: o nascimento do filho do vocalista Robert Plant, Karac, da filha do baterista John Bonham, Zöe, e o início dos trabalhos no quinto álbum; primeiro no Olympic Studios, em Londres, e depois em Stargroves, a casa de campo de Mick Jagger, dos Rolling Stones.

Não há informações disponíveis sobre quais músicas do que se tornaria “Houses of the Holy” foram compostas durante a supracitada turnê. Mas segundo Plant afirmou ao High Times, em 1991, o material foi fruto de uma época de grande inspiração:

“‘Houses of the Holy’ vai direto ao ponto, é muito focado e forte. Havia muita imaginação naquele disco. Gosto muito mais dele que do quarto álbum. É bem mais variado, tem uma irreverência que voltou a aparecer em ‘In Through the Out Door’ (1979) e em músicas como ‘Hot Dog’ e ‘Candy Store Rock’, de ‘Presence’ (1976) — que eram eu tentando ser Elvis ou coisa parecida.”

Diversão, mas também dedicação e comprometimento

Embora o Led Zeppelin fosse conhecido por sua abordagem séria e respeitável à música, a banda também tinha um lado descontraído e brincalhão. Duas canções de “Houses of the Holy” podem ser vistas como exemplo disso.

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A primeira delas, “The Crunge”, foi influenciada pelo funk e pela música afro-americana corrente; artistas como James Brown e Sly and the Family Stone, entre outros. A Brad Tolinski, da Guitar World, o guitarrista Jimmy Page conta que a canção surgiu a partir de uma brincadeira entre os membros da banda:

“Bonzo [John Bonham] começou a tocar o groove, então Jonesy [o baixista John Paul Jones] entrou com aquela linha de baixo descendente, e eu simplesmente me juntei na base. Dá para perceber o quanto estamos nos divertindo, mas também a dedicação e o comprometimento.”

Em “The Crunge”, o guitarrista trocou a Gibson Les Paul pela Fender Stratocaster. Ele explica o motivo:

“Eu queria aquela pegada meio James Brown. É preciso escutar com bastante atenção, mas dá para me ouvir usar a alavanca no fim de cada frase.”

Segundo exemplo da personalidade zombeteira do quarteto foi o reggae com influências do ska “D’yer Mak’er”. O significado preciso do título tem sido objeto de debate entre os fãs do Led Zeppelin. Algumas teorias sugerem se tratar de uma pronúncia engraçada da frase “Did you make her” (“Você transou com ela”, em português). Outras, da palavra “Jamaica”, em inglês, com o sotaque característico dos músicos jamaicanos.

Aos que não se lembram ou nunca souberam disso, “D’yer Mak’er” foi regravada pelo grupo de axé brasileiro Babado Novo, da cantora Claudia Leitte, em seu homônimo álbum de estreia de 2002. Confira abaixo.

A fatia galhofa, ainda que ruidosa, é menor em relação à séria; que o digam, por exemplo, a sombria “No Quarter” e sua letra que inclui imagens de cidades em ruínas, caminhos sem luz e florestas densas. Um mundo pós-apocalíptico que pode ser visto como uma metáfora para a condição humana.

Outras imagens enigmáticas e poéticas dão o tom em “The Ocean”. Na letra, a jornada de uma pessoa através do oceano “onde as ondas são profundas e claras como cristais” e “onde o caminho é escuro e o céu é cinzento” estabelece um paralelo com a jornada da vida também ilustrada na capa.

O surrealismo futurista da capa

A capa de “Houses of the Holy” é considerada uma das mais icônicas e memoráveis da história da música. Ela foi criada pela Hipgnosis, uma equipe de designers conhecida por suas criações artísticas inovadoras e originais, responsável por criar algumas das capas de álbuns mais emblemáticas e influentes de todos os tempos, como “Electric Ladyland” (Jimi Hendrix, 1968), “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” (David Bowie, 1972) e “The Dark Side of the Moon” (Pink Floyd, 1973).

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A inspiração do designer Aubrey “Po” Powell foi uma passagem do livro “O Fim da Infância”, de Arthur C. Clarke, em que várias crianças se reúnem para serem enviadas ao espaço. A imagem surrealista e futurista resultante foi criada a partir de uma série de fotografias tiradas ao longo de dez dias chuvosos na Calçada dos Gigantes, na Irlanda do Norte, combinadas e editadas em estúdio.

Para a produção dos retratos, foram usados apenas os irmãos Stefan e Samantha Gates. Ele acabou se tornando um apresentador de TV. Ela vive uma vida mais reservada na África do Sul.

Além de fazer referência a ideias e temas frequentemente presentes nas letras das canções do Led — espiritualidade, mitologia e aventura —, a imagem é considerada uma representação da jornada em busca de conhecimento e sabedoria. Mas por Stefan e Samantha terem sido fotografados nus, em 2019 postar a capa do álbum colocou alguns usuários do Facebook em maus lençóis.

Marcos históricos e um longo hiato

“Houses of the Holy” chegou às lojas em 28 de março de 1973; incríveis dezessete meses depois de “Led Zeppelin IV”. Ao lançamento seguiu-se a nona turnê norte-americana do grupo. No curso de 87 dias, arrecadou-se o valor recorde de 4 milhões de dólares, superando a marca estabelecida pelos Rolling Stones no ano anterior.

Não foi só isso: no Shea Stadium, em Tampa, Flórida, o Led tocou para 56 mil pessoas — mil a mais que os Beatles no histórico show de 1966 —, e nas derradeiras três noites no Madison Square Garden, em Nova York, foram feitas as filmagens que resultariam no filme e LP duplo “The Song Remains the Same” (1976); cujo nome é o mesmo da faixa de abertura de “Houses of the Holy”.

Mas o exaustivo giro cobrou seu preço: de volta para a Inglaterra, Page estava anêmico e sofrendo de insônia, Jones comunicou ao empresário Peter Grant sua intenção de dar o fora e Plant, que precisou operar as cordas vocais, ficou três semanas sem poder falar. Quem poderia imaginar que a banda que mais passava tempo na estrada ficaria um ano e meio longe dos palcos?

Led Zeppelin — “Houses of the Holy”

  • Lançado em 28 de março de 1973 pela Atlantic
  • Produzido por Jimmy Page

Faixas:

  1. The Song Remains the Same
  2. The Rain Song
  3. Over the Hills and Far Away
  4. The Crunge
  5. Dancing Days
  6. D’yer Mak’er
  7. No Quarter
  8. The Ocean

Músicos:

  • Robert Plant (vocal)
  • Jimmy Page (guitarra)
  • John Paul Jones (baixo, piano, Mellotron, órgão, sintetizadores, backing vocals na faixa 8)
  • John Bonham (bateria, backing vocals na faixa 8)

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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