Crítica: “Moonage Daydream” é o filme que David Bowie faria sobre si

Em cartaz nos cinemas brasileiros, obra descrita como documentário foge do formato convencional do gênero e, apesar de ressalvas, oferece boa imersão à vida do ícone pop

Como o próprio David Bowie sempre foi, “Moonage Daydream” é intrigante, complexo e difícil de se rotular. Foi anunciado como documentário, mas foge bastante do formato convencional. Desavisados podem pensar que é cinebiografia, mas também não é. Da mesma forma que bastava saber que Bowie era um artista, é suficiente ter conhecimento de que este filme é… um filme. O resto você descobre ao assistir.

O longa tem direção, roteiro, produção e edição de Brett Morgen, o mesmo responsável por “Kurt Cobain: Montage of Heck”. É bem menos desafiador abordar em uma obra a vida do líder do Nirvana, falecido em 1994. Afinal de contas, ele viveu somente 27 anos e foi famoso por apenas 3 deles. Bowie, por sua vez, teve uma carreira que durou praticamente cinco décadas, sendo popular e influente por boa parte deste tempo – e até após sua morte, em 2016.

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Morgen era desafiado não apenas por ter que abranger, se não a carreira inteira, os pontos principais da trajetória. Ele também precisava trazer algo diferente, pois a história do Camaleão do Rock já foi contada diversas vezes em distintas plataformas.

Jogava em seu favor o fato de David Bowie ser – como já citado – intrigante, complexo e difícil de se rotular. Um personagem do tipo permite que sua história seja contada de várias formas – incluindo a deste documentário, que também foi favorecido por ter acesso aos arquivos pessoais do artista, tendo em vista que foi a primeira produção do tipo a ser autorizada oficialmente por seu espólio.

David Bowie, por David Bowie

Em “Moonage Daydream”, toda a história é contada por David Bowie. O acervo em mãos era rico, logo, foi bem explorado. Fugiu do óbvio ao dispensar o rigor cronológico, ainda que se organize assim a grosso modo. A narrativa se monta de forma interessante, já que começa retratando o artista e, progressivamente, evidencia a pessoa. Saímos de um show para uma verdadeira sessão de terapia com o astro.

O telespectador percebe quando David Robert Jones entra em cena. É em momentos onde ele desabafa sobre sua complicada infância, com pais afetivamente distantes, ou admite que muda suas personas de palco com frequência por medo de se expor. David era humano como cada um de nós, mas encontrou uma forma de fugir da realidade e esconder suas fragilidades. E que bom que todo mundo saiu ganhando com isso.

Tudo isso ocorre em meio a verdadeiras explosões audiovisuais. O repertório musical remixado por Paul Massey (“Bohemian Rhapsody”) e supervisionado por Tony Visconti dá o tom de praticamente todo o filme, desde “Space Oddity” rolando durante um momento reflexivo sobre isolamento até “Word on a Wing” reproduzida enquanto Bowie fala sobre quando se viu apaixonado pela modelo Iman, com quem se casou em 1992 e viveu até falecer. Já as imagens são editadas de modo acelerado: piscou, perdeu algo. A qualidade de registros tão antigos impressiona – e viabiliza a ideia original de Morgen.

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Momentos-chave de “Moonage Daydream”

Há pelo menos quatro momentos-chave em “Moonage Daydream” que ajudam a compreender o artista David Bowie e o humano David Robert Jones.

O primeiro se dá quando o longa expõe algo óbvio, mas nem sempre discutido: Bowie foi um ícone da comunidade LGBTQIA+. Estamos falando de um cara que se vestia de forma andrógina ou mesmo se travestia entre o fim da década de 1960 e início de 1970. Um trecho exibido no longa de uma entrevista a Russell Harty ilustra isso bem. O apresentador pergunta ao cantor, ainda em sua fase Ziggy Stardust, se ele está usando “sapatos de mulher, de homem ou de bissexual”. Eloquente, o artista responde: “são apenas sapatos, tolinho”. Pode parecer bobagem para muitos, mas é algo importante para tantos outros. Era na década de 1970 e segue sendo nos dias de hoje.

O segundo, já mais adiante, ocorre quando Bowie fala sobre seu meio-irmão, Terry, citado como a única pessoa que parecia ter interesse no mundo. Foi a maior influência de David em seu período de infância e juventude, pois parecia ser um sujeito diferente. De fato, era: ele foi diagnosticado com esquizofrenia e passou a vida internado até cometer suicídio, em 1985. Toda a situação fez com que o cantor desenvolvesse uma enorme preocupação com sua saúde mental, o que justifica, entre outros movimentos, seus longos hiatos especialmente das extenuantes atividades de turnê.

O terceiro ocorre durante todo o período da chamada “trilogia de Berlim”, quando Bowie concebeu os álbuns “Low” (1977), “Heroes” (1977) e “Lodger” (1979). O inquieto artista explica que, depois de tantas mudanças já realizadas em sua carreira, queria explodir tudo e criar uma nova linguagem musical. Para isso, pediu ajuda a Brian Eno e deixou Los Angeles para morar em Berlim, na Alemanha Ocidental – “a cidade mais árdua possível”, segundo ele.

É aqui que o público compreende a ânsia interminável do cantor por mudança. Ele se cobrava constantemente para não se repetir ou se acomodar como outros rockstars. Até questões geográficas o influenciavam nesse sentido: em dado momento do filme, Bowie diz que nunca havia comprado uma casa e nem pretendia, pois ele precisava se reavaliar o tempo todo. Ao mesmo tempo, mudar também era uma forma de manter distância de quem ele era e até deixá-lo sempre um pouco insatisfeito com a vida; o próprio dizia que a atividade de compositor perdia sentido quando se estava confortável com sua realidade.

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O quarto e último momento-chave é um desdobramento do terceiro: David Bowie, não exatamente acomodado, aceita o apelo popular e vira um astro com “Let’s Dance” (1983), seu álbum de maior sucesso comercial. Ele deu aos fãs o que eles queriam num momento em que ninguém esperava isso dele. Até quando agiu como um “vendido” (entre muitas aspas), Bowie foi contestador. Mas logo ele se cansou disso, seja pelos questionamentos de que ele havia deixado de ser um “artista de vanguarda”, seja pelo ritmo de vida ao mesmo tempo intenso e solitário que um gigante do entretenimento tem quando está na estrada.

Apesar das ressalvas, interessante

Não há como negar: “Moonage Daydream” é muito bem-feito. Parecia ter o objetivo de ser um documentário sobre David Bowie feito pelo próprio. Além de toda a história ser contada por ele, o aspecto inventivo e experimental de sua carreira aparece em vários elementos do audiovisual.

Há, claro, ressalvas pontuais; muitas delas relacionadas ao fato de ser uma obra autorizada pelo espólio. Como é um produto oficial, escapa-se de polêmicas a todo custo. A estratégia de colocar apenas Bowie para narrar sua própria trajetória é interessante e diferencia esta obra das outras, mas pinceladas pontuais de outras vozes poderiam deixar o resultado final mais interessante.

Além disso, embora não seja obrigatório abordar toda a vida do cantor em modo “enciclopédico”, há muito pouco sobre o que ocorre após a Glass Spiders Tour, concluída em 1987. O casamento com Iman já nos anos 1990 é abordado; logo depois, mergulha-se em um final pra lá de introspectivo que deixa uma sensação de incompletude no público.

Nada disso, porém, tira a grandiosidade de um filme que merece ser assistido no cinema, seja pela qualidade de som ou pela quantidade de informações visuais a serem absorvidas. “Moonage Daydream” não é bem um documentário e não serve tanto como introdução aos que pouco conhecem sobre o artista, mas oferece uma experiência imersiva e entretém especialmente a quem já se rendeu à gloriosa obra de um dos maiores artistas pop do século 20.

“Moonage Daydream” está em cartaz em alguns cinemas brasileiros entre esta quinta (15) e a próxima quarta-feira (21). Para mais informações sobre a programação do filme, consulte os cinemas de sua cidade.

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Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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