Quando o Queen dominou a América com “The Game”

Uso de sintetizadores e flerte com ritmos dançantes fizeram oitavo álbum da banda britânica enfim atingir o topo das paradas dos Estados Unidos

O Queen é uma das bandas mais bem sucedidas da história. Vendeu milhões de discos especialmente durante seu auge, nos anos 70.

Ao fim daquela década, o grupo vinha de três dos seus álbuns mais bem sucedidos até então – “News of The World” (1977), “Jazz” (1978) e o ao vivo “Live Killers” (1979). Suas turnês se tornaram gigantescas.

Entretanto, uma façanha ainda faltava no currículo de Freddie Mercury e cia: o topo das paradas dos Estados Unidos. Isso mudou com o oitavo álbum da banda, “The Game”

Mudança de produtor e sonoridade

Apesar do sucesso comercial de “Jazz”, os integrantes ficaram insatisfeitos com o resultado – principalmente com o trabalho do produtor de longa data do Queen, Roy Thomas Baker. O profissional acabara de ter reconhecimento pelo som inovador do primeiro disco do grupo americano The Cars, mas a transposição dos mesmos elementos ao contexto da banda britânica desagradou os integrantes. 

Para o trabalho seguinte, o Queen estava decidido a encontrar alguém novo. Esse alguém era o alemão Reinhold Mack, que encontraram nos estúdios Musicland, de Giorgio Moroder.

No livro “A Verdadeira História do Queen”, de Mark Blake, o guitarrista Brian May descreveu o processo de encontrarem um produtor novo:

“Depois de ‘Jazz’, nós sentimos que deveríamos mudar para um novo território. No Musicland, perguntamos quem era o melhor engenheiro que eles tinham, e eles nos indicaram Mack. Ele provou ser um verdadeiro ‘achado’.” 

Mack conseguiu o trabalho antes mesmo de saber que estava cotado para ele. O produtor estava em Los Angeles trabalhando com Gary Moore quando foi informado e, após voltar para a Alemanha, começou a se inteirar das dinâmicas do grupo, como ele discutiu com o uDiscover Music:

“O credo deles era ‘esse é o jeito que estamos acostumados a fazer as coisas’. Demorou muito tempo para convencer os cavalheiros a entreter a ideia de gravar a banda inteira ao mesmo tempo. Depois que essa proposta correu bem e foi aprovada como ‘nada mal’, o fluxo de trabalho se tornou muito mais fácil. Eu tinha a vantagem de tomar decisões rápidas em comparação com a banda. Eu podia sempre tentar coisas enquanto as pessoas ficavam pensando nos pequenos detalhes.”

A música que mudou tudo

Inicialmente as sessões com Reinhold Mack não eram para ser nada demais, apenas gravações entre etapas da turnê mundial de “Live Killers”. Contudo, uma canção apareceu que mudou tudo, como Mack falou ao Izotope:

“A primeira faixa que nós tentamos foi ‘Crazy Little Thing Called Love.’ Freddie pegou um violão e disse ‘rápido, vamos fazer isso antes do Brian chegar’. Seis horas depois a música estava pronta.”

“Crazy Little Thing Called Love” saiu em outubro de 1979 no Reino Unido e em dezembro do mesmo ano nos Estados Unidos, onde se tornou o primeiro single do Queen a atingir o topo das paradas da Billboard. Numa entrevista para o Melody Maker em 1981, Freddie Mercury detalhou o processo criativo por trás da composição:

“‘Crazy Little Thing Called Love’ me demorou cinco a dez minutos. Eu fiz ela na guitarra, que não consigo tocar nada, e de um jeito acabou sendo bom porque eu estava restrito, sabendo apenas alguns acordes. É uma boa disciplina porque eu tinha que escrever dentro de um escopo limitado. Eu não podia tocar muitos acordes juntos e por causa dessa restrição acabei compondo uma canção boa, acho.”

A parceria com Mack se provou bem sucedida de cara.

Experimentos

Seguindo no embalo, o Queen resolveu ir num caminho completamente diferente do hit e explorar algo antes tabu para eles.

Por mais que a banda fosse conhecida por arranjos elaborados e manipulações sonoras, era sempre algo feito com instrumentação tradicional e truques de estúdio. Sintetizadores não eram usados e vistos com ojeriza por certos integrantes.

No terceiro single do disco, “Play the Game”, Freddie Mercury toca um sintetizador Oberheim OB-X, algo inédito em trabalhos do quarteto. Até o mais cético de todos, Brian May, cedeu aos encantos sintéticos em “Save Me”, single composto por ele.

O baixista quieto ataca

O baixista John Deacon sempre foi o membro menos espalhafatoso do grupo. Em shows, enquanto os outros integrantes demonstravam personalidades enormes, ele ficava no canto do palco, segurando forte o ritmo sem chamar atenção para si.

Mas um lugar onde Deacon fazia sua voz valer era no estúdio. Ele já havia composto um hit top 10 do grupo, “You’re My Best Friend”, mas nenhum integrante estava pronto para sua contribuição em “The Game”.

Inspirado pela canção “Good Times”, do grupo americano Chic, e os tempos passados juntos com os músicos durante o auge da era disco, Deacon pegou a linha de baixo sensual de Bernard Edwards e fez uma versão ameaçadora dela. Ele ainda gravou piano e guitarras para a canção, enquanto Roger Taylor fez algo impensável, suavizando o som de sua bateria e criando um loop. Assim nasceu “Another One Bites the Dust”.

Numa entrevista para a Guitar World em 1993, Brian May contou sobre o processo:

“Nós estávamos tentando o som de bateria enorme: você sabe, bem pomposo do nosso jeito normal. E Deakey fala: ‘não, eu quero que isso seja completamente diferente: é pra ser um som de bateria bem apertado’. Foi feito originalmente em cima de um loop de bateria – isso foi antes dos tempos da bateria eletrônica. Roger fez um loop meio que sob protesto porque não gostava do som de baterias gravadas desse jeito. E então Deakey botou o groove. Imediatamente Freddie ficou empolgado e falou: ‘Isso é grande! Isso é importante! Eu vou passar muito tempo com isso’.”

“Another One Bites the Dust” só saiu como single dois meses após o lançamento de “The Game”, a conselho de ninguém menos do que Michael Jackson. A canção estava tocando em todas as rádios R&B de Nova York e o grupo se viu na posse de um hit crossover em potencial. 

Quando finalmente saiu como compacto, tornou-se a segunda canção do grupo a chegar ao topo das paradas americanas. Não só isso: atingiu a primeira posição das paradas de R&B, abrindo o Queen a um público completamente novo.

Tensões começam a aparecer

“The Game” permaneceu cinco semanas no topo da parada de discos americana. Vendeu ao todo mais de 4 milhões de cópias no país, fazendo dele o álbum mais bem sucedido do grupo no território até então.

Apesar desse êxito todo, o processo de gravação foi marcado por muitas brigas entre os integrantes, como Brian May detalhou à Mojo em 1999:

“Nós passamos por um período ruim em Munique. Nós brigávamos demais uns com os outros. Eu lembro de John falando que eu não tocava o tipo de guitarra que ele queria em suas canções. Todos nós tentamos sair da banda mais de uma vez. Mas então voltávamos à ideia que a banda era maior que qualquer um de nós. Era algo mais duradouro que a maioria de nossos casamentos.”

Essas tensões relacionadas à constante mudança sonora do grupo e o lugar de certos integrantes na fórmula em meio a isso acabou se exacerbando durante o processo do disco seguinte do grupo, “Hot Space”. Mas isso é assunto para outro artigo.

Queen – “The Game”

  • Lançado em 30 de junho de 1980 pela EMI / Eletra
  • Produzido por Queen e Reinhold Mack

Faixas:

  1. Play the Game
  2. Dragon Attack
  3. Another One Bites the Dust
  4. Need Your Loving Tonight
  5. Crazy Little Thing Called Love
  6. Rock It (Prime Jive)
  7. Don’t Try Suicide
  8. Sail Away Sweet Sister
  9. Coming Soon
  10. Save Me

Músicos:

  • Freddie Mercury – vocal, backing vocals, piano (faixas 1, 7 e 8), sintetizador (faixa 1), violão (faixa 5)
  • Brian May – guitarra, backing vocals, violão (faixas 7, 8 e 10), sintetizador (faixas 8 e 10), piano (faixa 10), vocal principal (faixa 8)
  • Roger Taylor – bateria, backing vocals, guitarra (faixas 6 e 9), sintetizador (faixas 6 e 9), vocais (faixa 6), co-vocais (faixa 9), percussão
  • John Deacon – baixo, guitarra (faixa 3), violão (faixa 4), piano (faixa 3), percussão (faixa 3)

Músico adicional:

  • Reinhold Mack – sintetizador (faixa 6)

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