“Impera” e a queda dos impérios – uma análise sobre as letras do novo álbum do Ghost

Quinto álbum da banda sueca traz simbologia forte, bem construída e (como sempre) contestadora

Tobias Forge é a mente habilidosa por trás do Ghost em vários sentidos. Uma de suas várias responsabilidades é criar as letras da banda, sempre repletas de referências nem sempre sutis e algumas camadas de entendimento. No quinto álbum do grupo, “Impera”, isso não é diferente: aqui o personagem Papa Emeritus IV nos convida a uma reflexão sobre a nossa atual realidade.

Antes, vale olhar para trás e observar a evolução do Ghost nesse sentido. Os dois primeiros trabalhos da banda, “Opus Eponymous” (2010) e “Infestissumam” (2013), trazem um conteúdo lírico mais simples, abertamente contestador da cristandade e da religiosidade em geral. A partir de “Meliora” (2015), as coisas mudaram. O terceiro álbum do grupo conduz uma jornada filosófica a respeito da ausência de uma divindade ou de algo superior, qualquer fosse a forma.

A “bad trip” seguiu com o sucessor “Prequelle” (2018). O quarto disco do projeto gira em torno da morte em sua concepção mais medieval como algo próximo, inevitável, mais certo do que nunca.

Em “Impera”, Forge se inspira na ascensão e queda dos grandes impérios para nos mostrar em que parte desse eterno ciclo nos encontramos neste exato momento.

O frontman já afirmou em entrevistas que as letras de “Impera” são baseadas no livro “The Rule of Empires: Those Who Built Them, Those Who Endured Them, and Why They Always Fall” (traduzindo: “A regra dos impérios: aqueles que os construíram, aqueles que os suportaram e por que eles sempre caem”). Na obra, o autor Timothy Parsons oferece um relato abrangente da evolução do conceito de império, desde suas origens na Roma antiga até sua mais recente incorporação no século 20.

Hipátia de Alexandria

“Impera” é iniciado pela vinheta instrumental “Imperium”, seguida por “Kaisarion”, primeira música cantada no álbum. Sua letra fala sobre o nascimento de um novo império das cinzas de um antigo. Embora a melodia e as harmonias tragam uma noção mais positiva – fruto do uso de escalas em tom maior -, o conteúdo da letra tem um sentido bem mais crítico.

O Kaisarion, ou Caesareum, foi um antigo templo romano localizado em Alexandria, no Egito, que havia sido convertido em uma igreja cristã. Foi dentro dessa construção que a filósofa Hipátia, citada no coro do refrão, foi torturada e morta por cristãos após ser considerada uma herege por ser pagã e ter na ciência a base de suas crenças.

A letra é cheia de referências à morte de Hipátia, justificada pela “irmandade de boa fé que selou o destino de uma bruxa apóstata”. A morte da filósofa é considerada por alguns historiadores como o fato que marca o fim da Antiguidade na história.

No entanto, Tobias Forge revelou acreditar, em entrevista à Kerrang, que é possível traçar paralelos dessa situação com o mundo contemporâneo.

“Acho que simboliza o que vemos agora. Você pode ver a semelhança disso em livros sendo queimados publicamente, apedrejamentos e morte de qualquer coisa que não combina com esse tipo de realidade de Terra plana na qual algumas pessoas vivem. Ou invadir o Capitólio e querer enforcar pessoas. É um símbolo desse tipo de movimento que está sempre mirando a inteligência, a iluminação e o pensamento.”

“Kaisarion” também pode ser entendida como uma referência ao jovem Ptolemeu XV César, o filho de Cleópatra e Júlio César, chamado também de “Caesarion”, ou “Pequeno César”. Ele foi assassinado a mando de Otávio Augusto, o primeiro imperador romano, logo após a morte da rainha, sendo considerado o último faraó. Sua morte marca a queda do império do Antigo Egito e o nascimento de um novo império, o Romano.

Aleister Crowley, a Besta

O álbum segue com “Spillways”, uma música que fala sobre as “válvulas de escape” que todo ser humano precisa para dar vazão ao seu lado escuro, à sua sombra, à sua besta interior, como a própria letra diz. Esta besta volta na faixa seguinte, “Call Me Little Sunshine”, de forma mais evidente, em uma citação direta ao famoso ocultista britânico Aleister Crowley.

O mago, objeto de estudo da letra de “Mr. Crowley” (Ozzy Osbourne) e cuja obra sempre foi do interesse do guitarrista Jimmy Page (Led Zeppelin), é representado inclusive na capa de “Impera”. A pose adotada pelo Papa Emeritus IV, com os braços colocados nas laterais do rosto, é semelhante a uma imagem famosa de Crowley, onde ele encarna a “Noite de Pan”, uma metáfora para a morte do ego.

Capa de “Impera”, novo álbum do Ghost
Aleister Crowley encarna a Noite de Pan

A morte do ego está conectada com a vazão à escuridão que já vimos em “Spillways” e dialoga diretamente com “Call Me Little Sunshine”. O título do single é tirado diretamente de uma frase de Crowley: questionado por seu apelido de “A Grande Besta”, ele respondeu que poderia ser chamado de “pequeno raio de Sol”, já que na tradição esotérica dele, os simbolismos da besta, do número 666 e do Sol enquanto divindade estão diretamente conectados.

Em “Call Me Little Sunshine”, Forge imagina uma conversa entre uma pessoa e o diabo, ou seu diabo interior, que se coloca à disposição. A letra pode ser entendida como uma metáfora dúbia, onde a pessoa sempre pode “chamar” por sua sombra quando precisar dela – que, ao mesmo tempo, sempre estará disponível, até mesmo nos momentos mais inoportunos.

Um futuro brilhante?

A tracklist segue com o primeiro single “Hunter’s Moon”, que destoa liricamente do resto de “Impera”. Não foi à toa: a canção foi concebido como a música tema do filme “Halloweeen Kills” (2021).

“Watcher in the Sky”, que traz uma atmosfera futurista, é uma ode à ciência e à razão. A letra indica até onde a crença na ciência e no “palpável” pode nos levar, em termos de desenvolvimento.

A vinheta “Dominium” funciona como um portal para esse futuro, que a essa altura, já não parece tão positivo quando soava na faixa anterior. “Twenties” é uma das músicas mais curiosas do álbum, não só pela sonoridade influenciada pela música brasileira, mas também pela letra, que o próprio Tobias Forge classifica como agressiva, para não dizer “agourenta”, em suas expectativas para o que o futuro nos reserva.

“Essa música tem uma letra super agressiva, é bem hostil. Ainda é um discurso motivador, mas é abertamente odiosa com qualquer um que estiver ouvindo. Promete apenas ar, mas ar envenenado. E ainda assim, o embala como um presente, como se alguém devesse dizer ‘obrigado’ por isso – o que é muito como várias porcarias que estivemos vendo pelos últimos dois anos.”

“Twenties” traça um paralelo entre a nossa década de 20 atual e os anos 20 do século passado, que começaram em um pós-Primeira Guerra animador e terminaram na Grande Depressão, parcialmente responsável por uma Segunda Guerra Mundial ainda maior e mais violenta. A letra passa a impressão de festa, mas diz ao mesmo tempo que não há muito o que festejar.

Um império está caindo, mas o que surgirá em seu lugar é realmente melhor?

Império da hipocrisia

A semi-balada “Darkness at the Heart of My Love” e a grudenta “Griftwood” trabalham com o mesmo conceito, que é o das pessoas que justificam seus atos, especialmente os nada bons, a partir de questões religiosas. Aqui, o conceito que começou com a hipocrisia que levou à morte de Hipátia de Alexandria no início do álbum encontra-se com a hipocrisia atual, de pessoas que carregam sua crença como um escudo contra suas falhas.

Ambas as faixas miram os mais conservadores, que citam passagens da Bíblia e dizem lutar por valores tradicionais, mas estão dispostos a abrir mão de tudo isso pelo poder. Tobias Forge citou, especialmente a respeito de “Griftwood”, uma inspiração vinda de Mike Pence, ex-vice-presidente dos Estados Unidos no governo de Donald Trump e responsável por trazer o apoio massivo dos religiosos americanos ao polêmico ex-presidente.

Em entrevista, Forge explicou:

“Essa música é sobre ele e qualquer um que está disposto a sujar tudo pelo que trabalhou. Eles definitivamente se qualificam para uma passagem na primeira fila para o inferno. O que é tão irônico, porque é nisso que eles acreditam. Pence é um símbolo de quem se apresenta como defensor da Bíblia, mas no fundo é apenas uma pessoa horrível. Tenta dizer ao mundo que serve a Deus, que prega o bem, mas no fim das contas, a única coisa que quer é poder. Há muitos políticos, pregadores, clérigos ao longo da história que são dessa forma.”

Jack, o Estripador e a queda de um império

Conforme “Impera” se aproxima de seu final, começamos a presenciar a queda metafórica de um império e as consequências disso para o próximo ciclo que se inicia. Mais uma vinheta, intitulada “Bite of Passage”, abre caminho para o encerramento do álbum, com “Respite On the Spitalfields”, que é inspirada pelos crimes de Jack, o Estripador.

O assassino aterrorizou as ruas do leste de Londres no fim do século 19 e é lembrado por nunca ter sido capturado e até hoje tem sua identidade debatida. Jack, como assinava as cartas provocativas que mandava para a polícia, um dia simplesmente parou de matar. Com isso, nunca houve uma certeza absoluta de que seus crimes acabaram de fato ou não.

O Estripador é usado aqui como uma analogia para a queda de um império, especialmente por ter agido nos últimos anos da chamada Era Vitoriana, o período que compreende o reinado da Rainha Vitória do Reino Unido. Com a morte da rainha, a região entrou em um novo período, mas muito do que aconteceu na época anterior afetou diretamente esse tempo posterior, assim como os crimes do serial killer afetaram diretamente a cidade e a vida das mulheres – fora o medo de que tudo poderia voltar a ser como era.

“Respite On the Spitalfields” funciona como um aviso de que a queda de um império não apaga o passado, que se reflete no futuro de alguma forma. Por mais que a Era Vitoriana tenha acabado há muito tempo, assim como as mortes causadas pelo Estripador, a lenda, o medo e o mito permanecem e são parte do que existe hoje, de certa forma.

No fim, tudo vai dar certo

De modo geral, as letras de “Impera” trazem uma interpretação ambígua do que essa queda dos impérios representa. Seria isso uma coisa boa ou ruim?

Tobias Forge, por incrível que pareça, é otimista. No entanto, ele não deixa de apontar que os caminhos que o mundo escolhe, muitas vezes levam a lugares desagradáveis.

Com a palavra, o próprio:

“A coisa mais importante que eu, como pessoa, quero fazer é meio que jogar uma luz e ver a fluidez das coisas. Em todo lugar, de um jeito ou de outro, nós abaixamos a cabeça para as religiões lineares (que dizem que vivemos uma só vez, morremos e vamos para o pós-vida). E isso é muito, muito ruim para nós, porque isso nos faz acreditar que a vida é uma coisa só, então você só tem que viver sua vida, e no final haverá outra coisa. Nós meio que podemos ver um pensamento similar no que fazemos na sociedade, onde acreditamos em um tipo de status quo, onde as coisas permanecem. E isso não é sustentável.

Na verdade, eu sou um cara positivo, apesar de pensar sobre um monte de coisas negativas. Nas minhas esperanças e no que eu acredito, na verdade eu sou bem positivo. Acho que as coisas vão ficar melhores. Acredito na queda dos impérios de m#rda e no surgimento dos bons – você pode decidir por sua conta sobre qual você acha que estou falando. Eu acredito que a nossa vontade de sobreviver e amar uns aos outros é, de fato, maior do que nossa vontade de destruir tudo o que temos.”

Ouça “Impera” abaixo, via Spotify, ou clique aqui para conferir em outras plataformas digitais.

Ghost – “Impera”

  1. Imperium
  2. Kaisarion
  3. Spillways
  4. Call Me Little Sunshine
  5. Hunter’s Moon
  6. Watcher In The Sky
  7. Dominion
  8. Twenties
  9. Darkness At The Heart Of My Love
  10. Griftwood
  11. Bite Of Passage
  12. Respite On The Spitalfields

* Texto por André Luiz Fernandes, com edição por Igor Miranda.

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