Foto: Syd Shelton / Modern Films / divulgação

Quando punks britânicos se revoltaram contra racismo de Eric Clapton

Declarações foram o estopim para que a rebeldia punk eclodisse no Reino Unido e gerasse movimento Rock Against Racism

O punk nunca foi apenas um estilo musical. Especialmente em sua ramificação britânica, havia todo um movimento de contracultura que envolvia posicionamento político, em oposição ao conservadorismo e até ideologias de extrema-direita que progrediam na região. Embora poucos se recordem, declarações racistas do guitarrista Eric Clapton foram o estopim para que essa rebeldia eclodisse.

O documentário ‘White Riot’, com direção de Rubika Shah, estreou recentemente no festival In-Edit e busca contar essa história, conforme destacado por uma reportagem do site do jornal ‘El País‘. Na ocasião, o punk agregava grupos ativistas, como o Rock Against Racism (‘Rock contra o racismo’), o que reforçou o contorno ideológico do movimento.

As origens do punk

O punk enquanto música, ou punk rock, faz parte de uma subcultura específica associada ao movimento punk. Engloba não só ideologias, como outros segmentos da arte, tal qual artes plásticas e literatura, e até mesmo a moda, com os típicos visuais associados às personalidades que o representavam.

Não dá para dizer quando ou onde o punk nasceu, seja como música ou como subcultura. Os dois principais celeiros foram os Estados Unidos e o Reino Unido, cada um com sua particularidade.

Nos Estados Unidos, o punk trazia uma essência bem mais ligada à música, com sua proposta DYI (“do it yourself” / “faça você mesmo”) e mais inclusiva com mulheres e outras etnias, o que não rolava em outras ramificações do rock. O maior reflexo disso está nos Ramones, que chegou a ter, de forma ligeiramente contraditória, um guitarrista conservador: Johnny Ramone.

Já no Reino Unido, até pelo contexto histórico vivenciado naquele momento, não dava para não ser extremamente político. Dos acertos aos erros, bandas como Sex Pistols e The Clash, só para citar duas das mais famosas, não escondiam suas posições. E não se tratava do Fla-Flu político que temos hoje em dia: havia, basicamente, uma proposta antiautoritária, além do DYI já mencionado e da inclusão de mulheres e outras etnias.

A extrema-direita no Reino Unido

Conforme apontado pelo ‘El País‘, a extrema-direita cresceu em um Reino Unido desmantelado por uma crise socioeconômica. O sinal de alerta foi acendido após a Frente Nacional, partido criado em 1967 e classificado como de extrema-direita e neofascista, prosperar naquele ambiente de desilusão coletiva “com discurso racista e xenófobo”, segundo a reportagem.

Entre os principais pontos da Frente Nacional, estava a “repatriação obrigatória de todos os não-brancos ou imigrantes de cor” que residiam no Reino Unido. O tópico foi apresentado em 1974. Todo esse ambiente favoreceu o aumento de crimes racistas na região, além de embates entre manifestantes racistas e antirracismo.

Naquele momento, o punk ainda não havia se materializado de forma tão contundente no Reino Unido. Existiam bandas explorando as ideias e influências que iriam compor o movimento, até pela revolta que crescia diante do conservadorismo, do autoritarismo e de manifestações preconceituosas por parte de segmentos importantes da sociedade. Ainda assim, nada era visto como, de fato, um movimento.

A fala racista de Eric Clapton

Foto: Ed Caraeff / divulgação

Em agosto de 1976, houve a gota d’água que fez eclodir não só o punk, como um de seus submovimentos mais importantes: o já mencionado Rock Against Racism. Na ocasião, um bêbado Eric Clapton se apresentava em Birmingham, na Inglaterra, quando declarou apoio ao ex-ministro conservador Enoch Powell. O político era notável por posicionar-se contra a imigração e classificado como um “nacionalista branco”.

Além de gritar o slogan “Keep Britain White” (“mantenhamos a Grã-Bretanha branca”), slogan da Frente Nacional, Eric Clapton disse, na ocasião:

“Acho que Enoch está certo, acho que deveríamos mandá-los (os imigrantes) todos de volta. Impeçam o Reino Unido de se transformar em uma colônia negra. Tirem os estrangeiros, tirem os crioulos. A Inglaterra é para brancos, cara. Somos um país branco. Essa é a Grã-Bretanha, um país branco. O que está acontecendo conosco, p*rra?”

Décadas depois, em 2018, Clapton demonstrou arrependimento com relação a essas falas. “Sabotei tudo com o que me envolvi. Estava tão envergonhado de quem eu era, um tipo de semi-racista, o que não fazia sentido. Metade dos meus amigos eram negros, namorei uma mulher negra e defendi a música negra”, declarou, ao lançar o documentário ‘Eric Clapton: Life in 12 Bars’.

Outro ídolo do rock britânico, David Bowie, também gerou revolta naqueles tempos. Em entrevistas à ‘Playboy’ e ‘NME’, além de uma publicação sueca, Bowie manifestou apreço por Adolf Hitler – “um dos primeiros rockstars”, segundo ele – e apoio ao fascismo.

“Acho que a Grã-Bretanha poderia se beneficiar de um líder fascista. Afinal, o fascismo é nacionalismo de verdade. Acredito fortemente no fascismo. As pessoas sempre responderam com maior eficiência sob uma liderança regimental.”

O rock caminhava para algo muito, muito estranho. Uma reação era necessária.

Rock Against Racism

Red Saunders e Roger Huddle, criadores do Rock Against Racism, rebateram as declarações de Eric Clapton em uma carta enviada à revista ‘NME’. O texto foi assinado em parceria com dois membros do Kartoon Klowns.

Além de destacarem o erro na mensagem propagada por Clapton, o quarteto fez críticas ao guitarrista, definido por eles como “o maior colonialista da música britânica”. A menção é clara: Eric era um músico de blues e de rock, estilos nascidos das mãos dos negros, e isso tornaria a abordagem racista ainda mais hipócrita de sua parte.

A contradição só crescia quando se avaliava aquele momento da carreira de Eric Clapton. Em 1974, após diversos problemas pessoais, o guitarrista voltou a ter uma produção musical mais regular e fez muito sucesso com uma regravação de ‘I Shot the Sheriff’, de Bob Marley and the Wailers, presente no álbum ‘461 Ocean Boulevard’ (1974).

Nasceu, a partir dessa carta à ‘NME’, o Rock Against Racism. No próprio texto, Saunders e Huddle pediam que os leitores entrassem em contato para reforçar a criação do movimento.

O Rock Against Racism foi criado originalmente para ser um único show em prol do combate ao racismo. Envolvia não só bandas do recém-florescido movimento punk, como, também, de outras vertentes do rock e até do reggae, notabilizado pelo já citado Bob Marley.

Gang of Four, The Clash, Sham 69, Steel Pulse, Buzzocks e Tom Robinson Band, entre outras bandas, são representadas no documentário ‘White Riot’, que conta toda essa história.

As manifestações

Ainda que tenha demorado algum tempo, o Rock Against Racism tomou forma em 1978, com a realização de um protesto na Trafalgar Square, praça no centro de Londres, na Inglaterra, em parceria com a Anti-Nazi League (ANL). Antes, naqueles dois anos iniciais, o ativismo do movimento foi feito em locais menores, dentro e fora da capital britânica, para ganhar apoiadores.

A mobilização prévia deu certo: a manifestação na Trafalgar Square reuniu 80 mil pessoas e rendeu um festival com shows de The Clash, Buzzcocks, Steel Pulse, X-Ray Spex, The Ruts, Sham 69, Generation X, Tom Robinson Band e Patrik Fitzgerald. A apresentação do Clash, inclusive, foi retratada no documentário ‘Rude Boy’, lançado em 1980.

Outro evento ao ar livre foi realizado mais tarde naquele ano, em Manchester, também na Inglaterra. Buzzcocks, Graham Parker and the Rumour e Misty in Roots apresentaram-se para um público de 25 mil pessoas. Já no ano seguinte, mais um festival, seguindo a mesma temática: o Acklam Hall, de Londres, recebeu performances de Crisis, The Vapors e Beggar.

O conceito do Rock Against Racism se espalhou por outros países. A cidade de Perth, na Austrália, por exemplo, já teve uma edição própria do festival. “Filiais” passaram a existir na Alemanha, França e Bélgica, além dos Estados Unidos. E, claro, bandas de fora do Reino Unido já propagaram mensagem similar à do movimento.

Existiram, ainda, ramificações como o Rock Against Sexism, em que mulheres protestavam contra o machismo, especialmente na indústria musical.

Com o desenrolar da década de 1980, a Frente Nacional perdeu força no Reino Unido, que superou sua crise anterior. Isso também permitiu que o Rock Against Racism adormecesse. O punk, por sua vez, cresceu e ganhou muitas ramificações.

Retornos e contexto atual

No início dos anos 2000, a Frente Nacional voltou a se destacar com suas ideias de extrema-direita em território britânico, junto do Partido Nacional Britânico – que surgiu justamente após alguns membros da Frente Nacional romperem com o partido.

Dessa forma, o Rock Against Racism acordou. Em 2002, o movimento foi retomado com outro nome, Love Music, Hate Racism (‘Ame a música, odeie o racismo’) e resultou em outro festival, já em 2008, para celebrar os 30 anos do evento original. Rolaram shows de Mick Jones, Buzzcocks e The Libertines, no Astoria, em Londres.

A reportagem do ‘El País‘ destaca que o documentário ‘White Riot’ “também pode ser visto como um documento que explica o presente”.

“Como dizia o historiador britânico Tony Judt em Reflexões Sobre um Século Esquecido: 1901-2000, ‘o passado recente talvez continue conosco por mais alguns anos’. A história, mais do que se repetir, parece nunca acabar totalmente. O populismo e a ultradireita são parte desse passado que ainda nos acompanha na Europa, inclusive no Reino Unido, lastrado pelo histórico Brexit. Entretanto, observam-se diferenças importantes: o punk é agora uma vaga lembrança, e a música não tem a mesma capacidade de resposta contracultural. E o The Clash se dissolveu para sempre.”

* Foto da matéria: Syd Shelton / Modern Films / divulgação

2 comentários
  1. Parabéns pela matéria. Um toque, porém. Se vc quer ser antirracista, não escreva “pessoa de cor”. Pq branco também é cor. Logo, vc está discriminando determinada cor. É uma expressão racista, pois.

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