*Por Carolina Dias | Demorou, mas parece que finalmente o Angra teve o encaixe que faltava de suas peças. Trazer uma celebração ao 30º aniversário do álbum “Holy Land” (1996) como elemento central de sua primeira turnê com o vocalista Alírio Netto evidencia como a banda desejava — e às vezes até tentava — revisitar a obra construída com seu primeiro cantor, Andre Matos, falecido em 2019. Soa como o momento ideal para realizar tal feito.

“Holy Land” foi homenageado no primeiro de dois shows do grupo no Tokio Marine Hall, em São Paulo. A apresentação da última sexta-feira (2) teve a participação de Luís Mariutti, baixista responsável pela gravação do disco, em três canções da etapa final do repertório. Neste sábado (3), o quinteto composto por Netto, Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) retorna à mesma casa de eventos para celebrar os 25 anos de “Rebirth” (2001), com a presença de Edu Falaschi, a voz original do registro.

Throw Me to the Wolves e Viper
Duas atrações de abertura aqueceram o público nesta ocasião. A paulistana Throw Me to the Wolves, primeira a subir ao palco, tem uma pegada diferente dos headliners e até mesmo do Viper, que fez sua apresentação logo em seguida: o som é calcado no death metal melódico, seguindo a escola de Gotemburgo, a exemplo do In Flames, com guitarras pesadíssimas e vocal gutural bem expressivo, mas sem abdicar de eventuais elementos afáveis. Com um álbum já lançado — “Days of Retribution” (2025) —, o jovem grupo pareceu deslocado, mas entregou o que se propôs a fazer para um público ainda reduzido.

Situação diferente da vista durante o show do Viper, bastante familiarizado com a atração principal seja em história — foi a primeira banda de Andre — ou sonoridade em parte de sua carreira. A relação permanece até hoje com a presença de Daniel Matos, irmão do vocalista original, que assumiu o baixo após a morte do membro fundador Pit Passarell em 2024. Naturalmente, Andre e Pit foram homenageados com a balada “The Spreading Soul”, durante a qual o telão exibiu uma foto de ambos.

Com a casa mais cheia e um público mais receptivo, o vocalista Leandro Caçoilo aproveitou a execução de “A Cry from the Edge”, quarta do set, para anunciar o lançamento de “Viper 40 Alive”, novo disco ao vivo gravado em 2025 — também no Tokio Marine Hall abrindo para o Angra. Além das duas canções mencionadas, a apresentação curta, de aproximadamente 40 minutos de duração, também trouxe clássicos como “Soldiers of Sunrise” (logo no início), “Rebel Maniac” e “Living for the Night” (como número final).

A terra Santa
Celebrar “Holy Land” vai além de exaltar uma obra do Angra. Trata-se de um dos álbuns que melhor traduz a mistura entre metal e elementos da música brasileira. Com esse disco de 1996, o grupo formado em São Paulo adquiriu identidade própria — da qual até procurou se desvencilhar um pouco em “Fireworks” (1998) — e um lugar como referência. E para uma banda cada vez mais disposta a revisitar seu catálogo, faz sentido que seu segundo disco de estúdio volte a ganhar protagonismo, uma década após sua turnê de 20º aniversário, realizada ainda com Fabio Lione e com caráter bem mais discreto que a atual.

A formação atual parece ter chegado a um estágio de maior intimidade depois de alguns meses de turnê. Está mais redonda e fluida do que em apresentações anteriores, inclusive em comparação com o já muito elogiado show do Espaço Unimed, menos tenso que o do Bangers Open Air 2026. Passa muito pela segurança adquirida por Alírio Netto, seja vocal ou em postura. O cantor está mais ciente de que não precisa se provar a cada instante.

A opção de não executar “Holy Land” na ordem original, embora possa contrariar quem prefere a experiência do álbum como concebida em 1996 — como esta que vos escreve —, acabou funcionando dentro da dinâmica do espetáculo. O repertório não ficou restrito ao segundo disco: “Angels Cry” (1993), “Rebirth”, “Temple of Shadows” (2004) e “Cycles of Pain” (2023) também apareceram, com duas músicas cada, exceção feita ao mais recente, com as duas partes de “Tide of Changes” representando de modo isolado a era Lione.
A estrutura criou ainda uma alternância razoavelmente natural entre momentos de maior intensidade, passagens mais contidas e seções experimentais, o que pareceu favorecer tanto o ritmo da performance quanto o fôlego dos músicos.

Em meio a clássicos presentes nos setlists há tempos e lados B de “Holy Land” caprichosamente resgatados, destacou-se uma faixa de “Angels Cry”: “Stand Away” surgiu como um dos momentos mais celebrados pelo público. A canção, de interpretação vocal desafiadora, não entrava nos setlists para valer desde a saída de Andre Matos, na virada do século.
Talvez por, enfim, conseguir percorrer sua própria história sem renegá-la ou ancorar-se na obrigação de construir uma “nova era”, o Angra já não é mais uma banda que precisa se provar diante de um público tão fiel. Eles estão estabelecidos. É hora de desfrutar.
E isso se traduz em cima do palco de modo que os integrantes pareciam se divertir, mais do que em outras ocasiões, vide a leveza e fluidez notadas ao longo de pouco mais de duas horas de apresentação. Passa a impressão de que o Angra está cada vez mais confortável em ser, puramente, o Angra. Como resultado, vivencia um de seus melhores momentos nos últimos tempos.

Reta final com Luis Mariutti e “Nova Era”
Como anunciado, Luís Mariutti se fez presente para uma participação especial em três músicas, posicionadas ao fim do set regular, pré-bis: “Nothing to Say”, “Make Believe” e “Carolina IV”. Nesta última, o som esteve um pouco embolado e deu para notar algumas tentativas de ajustes, principalmente nas transições entre os blocos mais ritmados da música.

Nada que tirasse a importância do momento. Mariuttifoi muito bem recebido pela plateia e, como os colegas, parecia muito confortável neste cada vez mais constante encontro de fases. O bis trouxe “Nova Era” como a escolhida para encerrar a noite, enquanto a falha no som ainda persistia — o que, àquela altura, acabou não tendo grande importância.
Difícil prever por quanto tempo o Angra ainda continuará celebrando seus grandes álbuns em turnês comemorativas sem lançar algum trabalho novo cocriado com Alírio Netto. Não há planos para material inédito, conforme citado por Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa à Rolling Stone Brasil. “A palavra ‘disco’ no momento é proibida dentro desse universo”, declarou o baixista, que, ao mesmo tempo, surpreendeu ao citar “liberdade” como termo-chave para compreender o momento atual.

Angra em São Paulo
- Local: Tokio Marine Hall
- Data: 2 de outubro de 2026
- Turnê: Holy Land 30th Anniversary Tour
- Produção: Top Link Music
Repertório:
- Unfinished Allegro + Carry On
- Tide of Changes – Part I
- Tide of Changes – Part II
- Waiting Silence
- Silence and Distance + The Show Must Go On” (intro) de Queen
- Holy Land
- Angels and Demons
- Deep Blue
- Wuthering Heights (Kate Bush)
- Z.I.T.O.
- Stand Away
- The Shaman + Solo e bateria de Bruno Valverde
- Lullaby for Lucifer (Apenas Rafael Bittencourt)
- Rebirth
- Nothing to Say (com Luis Mariutti)
- Make Believe (com Luis Mariutti)
- Carolina IV (com Luis Mariutti)
Bis:
- In Excelsis + Nova Era
Repertório — Viper:
- Soldiers of Sunrise
- Evolution
- Rebel Maniac
- A Cry from the Edge
- To Live Again
- The Spreading Soul (dedicada a Andre Matos e Pit Passarell)
- Under the Sun
- Living for the Night

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