Angra encontra conforto e encaixe ao celebrar “Holy Land” em SP

Com breve participação de Luís Mariutti, banda promove nova revisitação a seu passado com Alírio Netto cada vez mais seguro no palco

*Por Carolina Dias | Demorou, mas parece que finalmente o Angra teve o encaixe que faltava de suas peças. Trazer uma celebração ao 30º aniversário do álbum “Holy Land” (1996) como elemento central de sua primeira turnê com o vocalista Alírio Netto evidencia como a banda desejava — e às vezes até tentava — revisitar a obra construída com seu primeiro cantor, Andre Matos, falecido em 2019. Soa como o momento ideal para realizar tal feito.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

“Holy Land” foi homenageado no primeiro de dois shows do grupo no Tokio Marine Hall, em São Paulo. A apresentação da última sexta-feira (2) teve a participação de Luís Mariutti, baixista responsável pela gravação do disco, em três canções da etapa final do repertório. Neste sábado (3), o quinteto composto por Netto, Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria) retorna à mesma casa de eventos para celebrar os 25 anos de “Rebirth” (2001), com a presença de Edu Falaschi, a voz original do registro.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Throw Me to the Wolves e Viper

Duas atrações de abertura aqueceram o público nesta ocasião. A paulistana Throw Me to the Wolves, primeira a subir ao palco, tem uma pegada diferente dos headliners e até mesmo do Viper, que fez sua apresentação logo em seguida: o som é calcado no death metal melódico, seguindo a escola de Gotemburgo, a exemplo do In Flames, com guitarras pesadíssimas e vocal gutural bem expressivo, mas sem abdicar de eventuais elementos afáveis. Com um álbum já lançado — “Days of Retribution” (2025) —, o jovem grupo pareceu deslocado, mas entregou o que se propôs a fazer para um público ainda reduzido.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Situação diferente da vista durante o show do Viper, bastante familiarizado com a atração principal seja em história — foi a primeira banda de Andre — ou sonoridade em parte de sua carreira. A relação permanece até hoje com a presença de Daniel Matos, irmão do vocalista original, que assumiu o baixo após a morte do membro fundador Pit Passarell em 2024. Naturalmente, Andre e Pit foram homenageados com a balada “The Spreading Soul”, durante a qual o telão exibiu uma foto de ambos.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Com a casa mais cheia e um público mais receptivo, o vocalista Leandro Caçoilo aproveitou a execução de “A Cry from the Edge”, quarta do set, para anunciar o lançamento de “Viper 40 Alive”, novo disco ao vivo gravado em 2025 — também no Tokio Marine Hall abrindo para o Angra. Além das duas canções mencionadas, a apresentação curta, de aproximadamente 40 minutos de duração, também trouxe clássicos como “Soldiers of Sunrise” (logo no início), “Rebel Maniac” e “Living for the Night” (como número final).

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A terra Santa

Celebrar “Holy Land” vai além de exaltar uma obra do Angra. Trata-se de um dos álbuns que melhor traduz a mistura entre metal e elementos da música brasileira. Com esse disco de 1996, o grupo formado em São Paulo adquiriu identidade própria — da qual até procurou se desvencilhar um pouco em “Fireworks” (1998) — e um lugar como referência. E para uma banda cada vez mais disposta a revisitar seu catálogo, faz sentido que seu segundo disco de estúdio volte a ganhar protagonismo, uma década após sua turnê de 20º aniversário, realizada ainda com Fabio Lione e com caráter bem mais discreto que a atual.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A formação atual parece ter chegado a um estágio de maior intimidade depois de alguns meses de turnê. Está mais redonda e fluida do que em apresentações anteriores, inclusive em comparação com o já muito elogiado show do Espaço Unimed, menos tenso que o do Bangers Open Air 2026. Passa muito pela segurança adquirida por Alírio Netto, seja vocal ou em postura. O cantor está mais ciente de que não precisa se provar a cada instante.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

A opção de não executar “Holy Land” na ordem original, embora possa contrariar quem prefere a experiência do álbum como concebida em 1996 — como esta que vos escreve —, acabou funcionando dentro da dinâmica do espetáculo. O repertório não ficou restrito ao segundo disco: “Angels Cry” (1993), “Rebirth”, “Temple of Shadows” (2004) e “Cycles of Pain” (2023) também apareceram, com duas músicas cada, exceção feita ao mais recente, com as duas partes de “Tide of Changes” representando de modo isolado a era Lione.

A estrutura criou ainda uma alternância razoavelmente natural entre momentos de maior intensidade, passagens mais contidas e seções experimentais, o que pareceu favorecer tanto o ritmo da performance quanto o fôlego dos músicos.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Em meio a clássicos presentes nos setlists há tempos e lados B de “Holy Land” caprichosamente resgatados, destacou-se uma faixa de “Angels Cry”: “Stand Away” surgiu como um dos momentos mais celebrados pelo público. A canção, de interpretação vocal desafiadora, não entrava nos setlists para valer desde a saída de Andre Matos, na virada do século.

Talvez por, enfim, conseguir percorrer sua própria história sem renegá-la ou ancorar-se na obrigação de construir uma “nova era”, o Angra já não é mais uma banda que precisa se provar diante de um público tão fiel. Eles estão estabelecidos. É hora de desfrutar.

E isso se traduz em cima do palco de modo que os integrantes pareciam se divertir, mais do que em outras ocasiões, vide a leveza e fluidez notadas ao longo de pouco mais de duas horas de apresentação. Passa a impressão de que o Angra está cada vez mais confortável em ser, puramente, o Angra. Como resultado, vivencia um de seus melhores momentos nos últimos tempos.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Reta final com Luis Mariutti e “Nova Era”

Como anunciado, Luís Mariutti se fez presente para uma participação especial em três músicas, posicionadas ao fim do set regular, pré-bis: “Nothing to Say”, “Make Believe” e “Carolina IV”. Nesta última, o som esteve um pouco embolado e deu para notar algumas tentativas de ajustes, principalmente nas transições entre os blocos mais ritmados da música.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Nada que tirasse a importância do momento. Mariuttifoi muito bem recebido pela plateia e, como os colegas, parecia muito confortável neste cada vez mais constante encontro de fases. O bis trouxe “Nova Era” como a escolhida para encerrar a noite, enquanto a falha no som ainda persistia — o que, àquela altura, acabou não tendo grande importância.

Difícil prever por quanto tempo o Angra ainda continuará celebrando seus grandes álbuns em turnês comemorativas sem lançar algum trabalho novo cocriado com Alírio Netto. Não há planos para material inédito, conforme citado por Felipe Andreoli e Marcelo Barbosa à Rolling Stone Brasil. “A palavra ‘disco’ no momento é proibida dentro desse universo”, declarou o baixista, que, ao mesmo tempo, surpreendeu ao citar “liberdade” como termo-chave para compreender o momento atual.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Angra em São Paulo

  • Local: Tokio Marine Hall
  • Data: 2 de outubro de 2026
  • Turnê: Holy Land 30th Anniversary Tour
  • Produção: Top Link Music

Repertório:

  1. Unfinished Allegro + Carry On
  2. Tide of Changes – Part I
  3. Tide of Changes – Part II
  4. Waiting Silence
  5. Silence and Distance + The Show Must Go On” (intro) de Queen
  6. Holy Land
  7. Angels and Demons
  8. Deep Blue
  9. Wuthering Heights (Kate Bush)
  10. Z.I.T.O.
  11. Stand Away
  12. The Shaman + Solo e bateria de Bruno Valverde
  13. Lullaby for Lucifer (Apenas Rafael Bittencourt)
  14. Rebirth
  15. Nothing to Say (com Luis Mariutti)
  16. Make Believe (com Luis Mariutti)
  17. Carolina IV (com Luis Mariutti)

Bis:

  1. In Excelsis + Nova Era

Repertório — Viper:

  1. Soldiers of Sunrise
  2. Evolution
  3. Rebel Maniac
  4. A Cry from the Edge
  5. To Live Again
  6. The Spreading Soul (dedicada a Andre Matos e Pit Passarell)
  7. Under the Sun
  8. Living for the Night
Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

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