Anette Olzon oferece “Nightwish ampliado” em show com orquestra no Rio

Tridimensionalidade sonora de formação expandida foi um dos destaques de apresentação responsável por encerrar turnê pelo Brasil

O texto de alguns colegas da crônica musical pode até dizer o contrário, mas jornalista que se preza faz o dever de casa antes de partir rumo à cobertura de um show — mesmo quando conhece o artista sobre o qual irá escrever ou é fã da banda que subirá ao palco na ocasião. Meu compromisso com a verdade me obriga a reconhecer que eu provavelmente não ouvia os álbuns que o Nightwish gravou com Anette Olzon nos vocais desde a época em que foram lançados, quase vinte anos atrás.

Mas trabalho é coisa séria; então, fui da Zona Norte à Zona Sul da capital fluminense, rumo ao pequeno, porém aconchegante, Teatro dos 4, munido dos dados sonoros e históricos de “Dark Passion Play” (2007) e “Imaginaerum” (2011) — e ciente de que toda e qualquer linha escrita a respeito da volta da “Pastora” a terras cariocas exatamente um ano após sua primeira e única vinda solo passaria pelo impiedoso crivo de uma dedicada base de fãs.

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Base essa que, convenhamos, não foi lá das mais receptivas quando do anúncio de Anette como nova vocalista do Nightwish, em maio de 2007. Substituir Tarja Turunen era visto por muitos como uma missão impossível. Talvez para evitar comparações diretas entre passado e presente, o tecladista, principal compositor e diretor musical Tuomas Holopainen levou o grupo para uma trilha ainda mais cinematográfica, pesada e “pop” ao mesmo tempo. O contraste entre a voz mais leve e acessível de Anette e o peso das guitarras, dos arranjos orquestrais e das camadas eletrônicas deu uma cara diferente ao som — sem romper, contudo, com a grandiosidade que havia se tornado a principal assinatura da banda.

Às vezes, o problema reside tão somente nas circunstâncias — e o fato de “Bye Bye Beautiful”, um dos hinos de “Dark Passion Play”, trazer uma letra carregada de recados para a saída de Tarja certamente não ajudou. Mas a aceitação veio, com direito a um megahit global (“Amaranth”) e a um épico que, por si só, demonstrava que o Nightwish ainda tinha uma vida longa e criativa pela frente: “The Poet and the Pendulum”.

No teatral “Imaginaerum”, a química soava muito mais natural — que o digam “Storytime”, “Ghost River” e “Slow, Love, Slow” —, mas o fim da linha viria em questão de meses, de forma dramática, com a saída abrupta da vocalista em meio à turnê norte-americana do álbum.

Depois do Nightwish, Anette levou algum tempo para encontrar o próprio caminho. Projetos pontuais, participações e, finalmente, trabalhos que lhe ajudaram a consolidar seu nome solo mostraram uma cantora disposta a explorar outras paisagens. Na balança dos fãs, contudo, produziu pouco e tímido e subiu ao palco menos do que se gostaria.

A retomada da carreira musical em turnê vem dando certo e, depois de um giro de mais de vinte datas pela Europa, a cantora de 55 anos desembarcou no Brasil para uma curta temporada ao lado de uma orquestra, revisitando as canções a cujo formato deu vida nos seis anos em que esteve a bordo da caravela de Tuomas. Coube ao Rio o papel de parada final — e, de lá, Anette seguiu sem orquestra para arrematar o giro com datas na Argentina, no Uruguai e no Chile.

Foto de celular: Clovis Roman @clovis_roman

O show

“Você gostou do show?”, perguntou-me uma amiga tão logo os aplausos a “Last Ride of the Day”, aptamente escolhida como a última do set, cessaram. É difícil não gostar de um show que consegue não apenas amplificar a experiência das gravações de estúdio em si, como também confere às músicas uma tridimensionalidade impossível de se imprimir na mídia — e, no caso do Nightwish, dadas as produções excessivamente pasteurizadas dos álbuns, perde-se um bocado da profundidade pretendida com o uso de elementos orquestrais. É como se a busca pela perfeição precisasse obrigatoriamente subtrair um pouco da alma da coisa, e parte da alma dessas canções, inevitavelmente, vem dos arranjos de cordas, sopros e teclas adicionais.

Com somente orquestra e banda no palco, a instrumental “Taikatalvi” — o termo em finlandês para “inverno mágico” — dá fortes sinais de que estamos diante de uma experiência diferenciada; algo que o próprio Nightwish, com toda pompa e circunstância e, aposto, demanda por parte dos fãs, nunca teve o desprendimento de fazer. Na transição para “Storytime”, tal qual na abertura de “Imaginaerum”, Anette adentra o palco com ares de realeza, mas uma realeza do tipo brincalhona, que justapõe a coroa e uma indumentária toda preta com uma meia listrada roxa na perna esquerda. A adesão é instantânea. Celulares são erguidos num brinde; mal pode ouvir-se a voz dela, soterrada pela dos pouco mais de 100 presentes que, a essa altura, já ignoravam as normas de conduta do espaço e assistiam a tudo de pé, pulando, bangueando… e registrando tudo para as redes sociais. Sinal dos tempos.

Da banda que a acompanha, destaca-se o baixista Felipe Duarte, chamado por Anette de “Marko II”, em referência ao melhor baixista e covocalista que o Nightwish teve em sua história. A qualidade vocal de Duarte sobressai sobretudo em “Ghost River” e “The Islander”. Lya Seffrin, vocalista do Magistry, banda de abertura, assumiu o microfone em “Amaranth”, sabiamente definida como “a ‘Nemo’ da fase Anette”. Durante “Scaretale”, membros da equipe entram no palco com pintura de palhaço, fazendo trenzinho e ilustrando, meio que às avessas, o conteúdo da letra.

Depois da instrumental “Last of the Wilds”, durante a qual a cantora sai de cena para tomar um ar, inicia-se o momento mais intimista — e com música ausente de shows anteriores da tour. “Vocês querem um pouquinho de jazz?”, perguntou Anette antes de “Slow, Love, Slow” — com direito a João Borth, guitarrista do Magistry, empunhando uma viola caipira —, e “Turn Loose the Mermaids” na sequência evidenciou ainda mais como essa era polarizada do Nightwish tinha uma magia que, com o perdão dos adeptos mais apaixonados, foi gradativamente se perdendo conforme o líder Tuomas passava a dedicar mais energia a outras empreitadas, como o bem chato Auri.

E falando em Tuomas, duas foram as vezes em que Anette citou nominalmente o ex-patrão: antes do quase louvor “Meadows of Heaven” (“Esta é a minha música favorita dentre todas que ele escreveu”) e depois de “The Poet and the Pendulum”: “Logo vê-se que Tuomas não é vocalista; do contrário, jamais teria escrito partes tão altas para a voz”, brincou ela, depois de cravar com perfeição cada subida da extensa canção.

Já era a reta final, e foi aí que presentinhos começaram a ser entregues, na beira do palco. Entre sacolas contendo bombons e outros mimos, uma miniatura do Cristo Redentor foi exibida por Anette que, sorrindo — e explicando para os incautos o porquê do apelido de “Pastora” —, exclamou: “É o meu Jesus!”. Terminada a maratona de quase duas horas, mesmo tendo que embarcar para o país vizinho às cinco da manhã, a querida atendeu a todos os fãs; posou para selfies, distribuiu autógrafos e retribuiu com atenção o carinho que lhe fora dispensado não somente pelas duas horas anteriores, mas pelas últimas duas décadas.

A abertura

Na abertura, sob a liderança do tecladista e harpista Thiago Parpinelli, o curitibano Magistry exibiu o grande trunfo que sua breve discografia serve de comprovação: a capacidade de transitar entre territórios ora trevosos, ora celestiais. Às vezes, tudo isso acontece numa mesma música, graças ao enredamento dos vocais da supracitada Lya Seffrin e de Leonardo Arentz, o ogro com delineado de Alice Cooper que ainda acumula a função de segunda guitarra. Completam a formação o baixista Leonardo Rivabem e o baterista Johan Wodzynski.

É gente demais para a pouquíssima área útil do palco — tomado pelas mais de vinte cadeiras usadas pelos músicos da orquestra —, mas, dentro do que lhes era possível, a turma se movimentou para lá e para cá e, não obstante o esgotamento visível típico de fim de turnê, demonstrou alegria na estreia em solo carioca. O público, mesmo sentado, abraçou a proposta sinfônica com tinturas mediterrâneas e forte apelo nos refrães — facílimos de aprender e dificílimos de parar de cantar. Com todo mundo de pé, ao som da derradeira “Lost Paradise”, o clima era de missão cumprida: o Magistry oficialmente fincou sua bandeira no Rio de Janeiro.

Foto de celular: Clovis Roman @clovis_roman

Anette Olzon — ao vivo no Rio de Janeiro

  • Local: Teatro Clara Nunes
  • Data: 29 de setembro de 2026
  • Turnê: Latin America 2026
  • Produção: Estética Torta

Repertório — Magistry:

  1. Full Moon
  2. Swing to the Circles of Time
  3. Divine
  4. Humming Bird
  5. Black Abyss
  6. The White Shores
  7. Frozen Heart Fades
  8. Lost Paradise

Repertório — Anette Olzon:

  1. Taikatalvi
  2. Storytime
  3. Seven Days to the Wolves
  4. Ghost River
  5. Song of Myself
  6. Amaranth
  7. Rest Calm
  8. Scaretale
  9. Last of the Wilds
  10. Slow, Love, Slow
  11. Turn Loose the Mermaids
  12. The Islander
  13. The Poet and the Pendulum
  14. Meadows of Heaven
  15. Escapist
  16. Last Ride of the Day

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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