Quando Ritchie Blackmore deixou o Deep Purple em 1975, a decisão pareceu, para muitos, um salto arriscado. Afinal, ele abandonava uma das maiores bandas de rock do planeta em pleno auge comercial para apostar em um projeto novo — Rainbow —, construído ao lado do vocalista Ronnie James Dio e dos então integrantes do Elf. O primeiro capítulo dessa nova trajetória, porém, rapidamente mostrou que o guitarrista estava certo em confiar no próprio faro.
Lançado em agosto de 1975, “Ritchie Blackmore’s Rainbow” foi recebido com entusiasmo tanto pelo público quanto pela crítica. O álbum alcançou o Top 10 no Reino Unido, entrou no Top 30 da Billboard americana e marcou presença nas principais paradas europeias. Mais do que isso: para satisfação particular de Blackmore, teve desempenho superior ao de “Come Taste the Band”, primeiro disco do Purple sem sua participação, lançado poucos meses depois.
Ainda assim, o verdadeiro teste viria a seguir. Se o debut serviu para apresentar a identidade inicial do Rainbow, o trabalho seguinte teria a missão de consolidá-la — e acabaria indo muito além disso. O álbum não apenas redefiniria os rumos da nova banda, como estabeleceria várias das bases musicais, líricas e estéticas que Blackmore e Dio desenvolveriam ao longo das décadas seguintes, juntos ou em caminhos separados.
O próprio Dio descreveu o espírito daquele momento em sua autobiografia “Rainbow in the Dark” (Estética Torta, 2021): “Chamamos o álbum de ‘Rising’ — e é assim que parecia para mim: como um novo Sol escaldante nascendo em um horizonte antigo”.
Era exatamente isso que o Rainbow representava em 1976: a sensação de que algo grandioso estava surgindo das cinzas da era clássica do hard rock setentista. E sua ascensão começaria de maneira tão turbulenta quanto inspirada.
Rainbow reformulando em busca da formação definitiva
Os primeiros ensaios do Rainbow para a turnê de estreia, realizados em Malibu, marcaram também o início de uma reformulação profunda na banda. Embora o projeto tivesse surgido oficialmente como uma parceria entre Ritchie Blackmore e Ronnie James Dio após a saída do guitarrista do Deep Purple, Blackmore rapidamente deixou claro que não pretendia manter a estrutura herdada do Elf, que havia participado da gravação do primeiro álbum do Rainbow.
A primeira baixa foi o baixista Craig Gruber. Desde o início da parceria, a relação entre ele e Blackmore era marcada por atritos. Gruber enxergava o desmanche do Elf como uma movimentação que beneficiava exclusivamente o guitarrista, e sua antipatia por Ritchie nunca foi das mais discretas. Na autobiografia “Rainbow in the Dark”, Dio relembrou o telefonema em que Blackmore praticamente comunicou a decisão já tomada:
“Ele [Ritchie] começou a me contar sobre outro baixista que tinha ouvido falar e que pensava poder ser melhor. Seu nome era Jimmy Bain e estava numa banda em Londres chamada Harlot; tive algum problema com isso? Pode apostar que tive, sim. Craig era meu amigo e um grande músico. No final, porém, realmente não havia muito o que eu pudesse fazer.”
O interesse de Blackmore por Jimmy Bain era tão sério que ele e Dio viajaram até Londres para vê-lo se apresentar com o Harlot no lendário Marquee Club, espaço fundamental para a cena rock britânica dos anos 1960 e 1970.
Pouco depois, outra mudança abalaria a formação. Insatisfeito com o desempenho do baterista Gary Driscoll, Blackmore decidiu substituí-lo ainda durante os ensaios. Dio recorda que a reação do músico foi surpreendentemente serena:
“Ele me disse que Ritchie estava certo e que só nos desejava o melhor, e disse que poderia ficar na Califórnia conosco por um tempo. Claro que poderia, e ficou, até que finalmente encontrou um substituto.”
O substituto atenderia pelo nome de Cozy Powell, já respeitadíssimo no circuito britânico graças ao trabalho com o Jeff Beck Group e por participações ao lado de artistas populares como Donovan, Suzi Quatro e Hot Chocolate.
Para Dio, Powell pertencia naturalmente à elite dos bateristas britânicos da época:
“Numa época em que grandes bateristas britânicos, como Ginger Baker, Keith Moon, John Bonham, Carl Palmer, Bill Ward e Ian Paice subiram o sarrafo a níveis espantosos, ele também estava no topo”.
Com Bain e Powell integrados, o Rainbow começava a ganhar contornos muito mais ambiciosos do que os de um simples projeto paralelo pós-Deep Purple.
A reformulação, por fim, atingiria também o tecladista Mickey Lee Soule, último remanescente do Elf além de Dio. Diferentemente dos demais, porém, sua saída ocorreu de maneira mais natural. Em entrevista ao biógrafo James Curl em “Ronnie James Dio: A Biography of a Heavy Metal Icon” (2018), Soule explicou:
“Naquela época, tive a oportunidade de fazer algo diferente e fui para a Europa, toquei em um dos álbuns de Roger Glover [‘Elements’ (1978)] e fiz uma turnê com a Ian Gillan Band, além de algumas outras coisas. Basicamente, saí do Rainbow por conta própria, mas provavelmente eu seria o próximo da lista a ser demitido de qualquer maneira. Eu não estava recebendo o espaço criativo que queria e muitas coisas estavam acontecendo na minha vida pessoal naquela época. Eu tinha acabado de ter um filho e estava bastante farto do lado comercial das coisas e da maneira como todos nós tínhamos sido tratados por várias gravadoras e outras coisas. Além disso, havia muita droga envolvida na época, então, depois de um tempo, simplesmente me cansei de tudo e saí completamente do ramo da música por quase dez anos.”
Para ocupar os teclados, Blackmore apostou em um nome praticamente desconhecido: Tony Carey. Formado pela prestigiada Juilliard School, Carey tocava em uma banda chamada Blessings quando chamou atenção de Ritchie durante ensaios em Hollywood.
O próprio músico relembrou o encontro:
“Ritchie ouviu minha banda [Blessings] tocando em um estúdio de ensaio em Hollywood. E na época ele estava fazendo audições para a equipe de turnê do Rainbow. Eu tinha uns 20 anos, eu acho. Então o momento era perfeito para eu sair dessa banda, porque eu não via nosso disco sendo finalizado.”
Quando Blackmore perguntou se ele gostaria de entrar para o Rainbow, a resposta foi um “sim” imediato.
Segundo Dio, o detalhe decisivo veio quando Ritchie resolveu testar os conhecimentos musicais do tecladista:
“O que selou o acordo foi quando Ritchie o interrogou sobre seus conhecimentos de música clássica e Tony desfiou uma série de orquestrações complicadas com a maior facilidade”.
Embora tenha se incomodado profundamente com a maneira como os antigos colegas do Elf foram dispensados, Dio compreendia a lógica por trás das decisões de Blackmore. O guitarrista não pensava no Rainbow como uma banda iniciante tentando conquistar espaço gradualmente. Sua ambição era muito maior.
“Ritchie via o Rainbow como atração principal, não como uma banda nova começando do nada. Ele começou a querer o topo e se manter lá. Para isso, precisava de músicos fantásticos, de alto nível, que ele sabia que poderiam cumprir o melhor set.”
Com a nova formação consolidada — Blackmore, Dio, Bain, Powell e Carey —, o Rainbow finalmente parecia pronto para perseguir o próprio pote de ouro.
Do espetáculo à construção de “Rising”
Em 10 de novembro de 1975, o Rainbow realizou sua estreia ao vivo com a nova formação no Forum de Montréal, no Canadá. Mais do que apresentar uma banda reformulada, a turnê serviu para estabelecer a identidade visual e musical que Ritchie Blackmore imaginava para o projeto desde o início.
O elemento mais chamativo do espetáculo era um gigantesco arco-íris computadorizado composto por cerca de 4 mil lâmpadas multicoloridas, atravessando aproximadamente 12 metros de palco — um aparato cenográfico faraônico para a época e que rapidamente se tornaria uma das marcas registradas do Rainbow. Em plena metade dos anos 1970, quando o rock começava a elevar cada vez mais a dimensão teatral de seus shows, Blackmore buscava combinar fantasia visual, peso e virtuosismo em uma experiência quase épica.
O giro, limitado à América do Norte, contou com apenas 13 apresentações, realizadas em teatros e auditórios de médio porte. Ainda assim, o impacto foi imediato. Embora o grupo tivesse somente um álbum lançado, Blackmore resistiu à tentação de transformar o repertório em uma celebração nostálgica do Deep Purple. Em vez de recorrer massivamente aos antigos sucessos, o Rainbow optou por apresentar material inédito que apontava claramente para uma direção mais ambiciosa.
Duas dessas músicas se tornariam pilares não apenas da banda, mas do hard rock setentista: “Stargazer” e “A Light in the Black”. Ambas já apareciam nos shows meses antes de serem oficialmente lançadas e frequentemente ultrapassavam os oito minutos de duração. Segundo Ronnie James Dio, porém, ao vivo elas podiam ir muito além disso: “Nos primeiros shows, elas podiam se estender quase até o infinito”.
A proposta do Rainbow naquele momento passava justamente pela expansão musical em palco. Improvisos, dinâmicas longas e atmosferas grandiosas transformavam as canções em verdadeiras jornadas sonoras. Dio recordaria mais tarde:
“Dependendo do humor do Ritchie, ‘Catch the Rainbow’ poderia durar quase 20 minutos em algumas apresentações; ‘Still I’m Sad’, que tinha apenas 3 minutos no álbum, tornava-se agora um fechamento de set durando 11 minutos com proporções monumentais. Você não pode levar a cabo esse tipo de jornada musical intensa sem caras absolutamente de primeira linha apoiando, contribuindo e ajudando a construir (…) Com Cozy, Jimmy, Tony e eu, Ritchie montou uma nova banda incrível, mais do que capaz de cumprir essa alta exigência, noite após noite, após noite.”
A fala do cantor ajuda a entender por que aquela encarnação específica do Rainbow é frequentemente vista como sua formação definitiva. Com Cozy Powell na bateria, Jimmy Bain no baixo e Tony Carey nos teclados, o grupo havia atingido um raro equilíbrio entre apuro técnico e senso de espetáculo.
Encerrada a turnê de estreia, a banda rapidamente voltou ao estúdio para iniciar as gravações de “Rising”. O álbum seria registrado novamente no Musicland Studios, em Munique, com produção de Martin Birch — nome já associado a trabalhos fundamentais do Deep Purple e que posteriormente se tornaria peça-chave na sonoridade de bandas como Iron Maiden e Black Sabbath.
Apesar da complexidade crescente das composições, o processo de gravação aconteceu de maneira surpreendentemente rápida. Muitas das faixas foram registradas em apenas uma ou duas tomadas. Em entrevista ao escritor Martin Popoff, Bain relembrou o clima das sessões (“divertidas pra caramba”) e destacou o momento particularmente harmonioso vivido pela parceria entre Blackmore e Dio:
“Durante a produção de ‘Rising’, Ritchie e Ronnie estavam muito satisfeitos um com o outro. Ritchie estava definitivamente contente com os vocais de Ronnie. Ele estava feliz com Ronnie, que tinha uma personalidade muito pé no chão. E Ronnie tinha jogo de cintura para lidar com a imprensa, algo que Ritchie não gostava muito. Ele tinha essa imagem de não falar com jornalistas e trabalhou muito para mudar isso. Então, Ronnie conseguia responder às perguntas e era muito simpático. Em essência, as letras de Ronnie eram provavelmente o que ele mais amava em Ronnie. Porque era realmente a vibe de Ritchie. Ele gostava do período medieval e Ronnie também.”
A afinidade estética entre os dois acabou se tornando um dos pilares criativos de “Rising”. Enquanto Blackmore mergulhava em estruturas inspiradas por música clássica, folk europeu e hard rock, Dio desenvolvia letras povoadas por magos, reis, arco-íris, ruínas e batalhas — elementos que ajudariam a estabelecer parte da iconografia de diversas vertentes do metal em anos seguintes. Em sua autobiografia, Dio relembrou:
“Muitas vezes ele [Ritchie] parecia ser um verdadeiro cuzão, mas nos divertimos muito juntos (…) Éramos muito, muito próximos. Achei que seria assim para sempre.”
Ascensão e glória
Lançado em 17 de maio de 1976, “Rising” rapidamente consolidou o Rainbow como uma das lideranças do hard rock da década. O álbum teve recepção imediata nas paradas britânicas, europeias e japonesas, embora o impacto comercial nos Estados Unidos tenha sido mais discreto. Por lá, vendeu números semelhantes aos do debut “Ritchie Blackmore’s Rainbow”, mas sem ultrapassar o Top 40 da Billboard. A diferença esteve na reação da crítica especializada: praticamente unânime, a imprensa tratou o disco como uma redefinição dos parâmetros do heavy metal em meados dos anos 1970.
Décadas depois, a reputação de “Rising” só cresceria. A revista britânica Kerrang! chegou a classificá-lo como “o melhor álbum de metal de todos os tempos”. Já Rob Halford, vocalista do Judas Priest, definiu-o como “um disco importantíssimo”, acrescentando que ele “soa tão bem agora como quando foi lançado”. Outros músicos que citam o trabalho entre seus favoritos incluem Bruce Dickinson, do Iron Maiden, e Jim Matheos, do Fates Warning.
Embora tenha pouco mais de 33 minutos de duração, “Rising” compensa a concisão com uma sequência de músicas que compõem o abecedário do heavy metal de contornos épicos e neoclássicos. Nenhuma representa isso de forma tão definitiva quanto “Stargazer”.
A faixa abre com uma breve, porém devastadora, virada de bateria de Cozy Powell, oferecendo uma prévia da combinação de força e precisão que tornaria o músico uma referência para gerações seguintes de espancadores de peles. Em seguida, a música mergulha em uma narrativa grandiosa: a letra conta a história de um mago obcecado pela ideia de voar e que escraviza multidões para construir uma torre capaz de levá-lo às estrelas.
Musicalmente, “Stargazer” ampliava ainda mais o alcance artístico do Rainbow. A gravação contou com a participação da Orquestra Filarmônica de Munique, além do uso de um Vako Orchestron e de “um quarteto de cordas, todos tocando uma escala meio turca”, como descreveu Ritchie Blackmore. O solo executado pelo guitarrista é citado pelo próprio músico como um de seus melhores trabalhos em estúdio.
Ainda que o imaginário medieval e fantástico fosse uma marca registrada da parceria entre Dio e Blackmore, nem todas as letras do álbum orbitavam esse universo. Algumas nasciam de situações bastante concretas — caso de “Starstruck”. Na autobiografia “Rainbow in the Dark”, Dio revelou que a música foi inspirada por uma fã obcecada por Blackmore:
“‘Starstruck’ foi escrita a partir da vida real de um fã, que era tão louco por Ritchie, que aparecia em todos os lugares onde ele estava. Se tocássemos em Paris, ela estaria lá. Londres, ela estaria lá no aeroporto. Uma vez, ela apareceu na casa do Ritchie, se escondendo nos arbustos!”
Com o sucesso de “Rising”, o Rainbow embarcou em uma extensa turnê mundial iniciada na Europa no fim de agosto de 1976. A excursão passaria ainda pela Austrália e terminaria no Japão, onde a banda se apresentou para cerca de 30 mil pessoas no Budokan, em Tóquio. O ponto alto da etapa europeia aconteceu em duas noites esgotadas no lendário Hammersmith Odeon, palco histórico do rock britânico.
Parte daquela fase foi registrada profissionalmente. Como relembrou Dio:
“Felizmente, gravamos alguns dos shows, com Martin Birch lá para garantir que fossem feitos profissionalmente. De todos os shows incríveis que fizemos com o Rainbow, esses são os que eu gostaria que fossem preservados, os que lembram aquele grupo no seu auge, quando realmente ainda era uma banda. Ou o mais próximo de uma banda de verdade que Ritchie Blackmore jamais conseguiria novamente.”
Rainbow – “Rising”

- Lançado em 17 de maio de 1976 pela Polydor
- Produzido por Martin Birch
Faixas:
- Tarot Woman
- Run with the Wolf
- Starstruck
- Do You Close Your Eyes
- Stargazer
- A Light in the Black
Músicos:
Ronnie James Dio – vocais
Ritchie Blackmore – guitarra
Tony Carey – teclados
Jimmy Bain – baixo
Cozy Powell – bateria
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