Edu Falaschi vai ao que interessa e desfila seus maiores talentos em SP

Carisma do cantor e repertório de alto nível se sobressaíram nas duas horas de show para um abarrotado Tokio Marine Hall

Logo após o lado B do Angra “Live and Learn”, primeira música de seu show no Tokio Marine Hall, em São Paulo, no último sábado (27), Edu Falaschi e banda interromperam a performance para transmitir um vídeo. Nele, um dos guitarristas titulares, Roberto Barros, explica que uma grave infecção bacteriana causada pelo contato de um furúnculo com a água do mar o impediu de estar ali.

Embora o pior já tenha passado, ele está internado desde o dia 2. Seu substituto na noite seria Victor Franco, jovem de 23 anos saudado pelo talento e capacidade de dominar um repertório tão complexo.

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Interromper logo no início uma apresentação, desse jeito, para falar de algo do tipo não é algo lá muito convencional. Ofereceu até um contraste em relação à superprodução, uma das maiores já apresentadas por um artista nacional de rock, que transformou o palco em um navio — era tanta coisa que mesmo as cortinas fechadas não deram conta de esconder; nem a cenografia, nem os fogos, testados minutos antes do início do show.

Foto: André Tedim

Falaschi, contudo, tem a exclusão de ilicitude do metal. Decisões discutíveis, declarações desnecessárias, performance trágica transmitida mundialmente ocasionada por um problema vocal que já existia e ainda se arrastaria por mais tempo… tudo o que poderia prejudicar definitivamente uma trajetória artística foi superado por ele de forma mais do que bem-sucedida. Sobreviver aos barracos públicos do Angraverso e seguir em frente, ainda que sem deixar de olhar para trás, não é para qualquer um.

“Acid Rain”, primeiro single do Angra com o vocalista que substituiu Andre Matos, é a segunda música — e corrobora o clima de torcida de time sem adversário. Para efeito de comparação: quando o Metallica cancelou em 2003 os shows no Brasil da turnê “St. Anger”, houve gritos de “ei, Metallica, vai tomar no c#” no show do Iron Maiden que divulgava o disco “Dance of Death”. No Angraverso, mesmo com tantas confusões passadas — algumas só agora se encaminhando para soluções —, não tem isso, ou ao menos não chega a esse ponto.

Foto: André Tedim

Situações recentes em São Paulo comprovam. A banda matriz foi celebrada no show de estreia da turnê do aclamado álbum “Cycles of Pain”, no mesmo Tokio Marine Hall, em novembro. Semanas atrás, o Mariutti Team encheu a Audio para a performance do Shamangra e o lançamento de “Unholy”, inovador disco solo do baixista Luis Mariutti. Agora, Falaschi é abraçado como extensão desse patrimônio que promoveu três eventos cheios em menos de três meses na mesma cidade, sem que qualquer grande debate do tipo “qual é o preferido” ou “qual é o melhor” sequer comece a existir.

Talvez seja assim porque nenhuma das partes vive só de passado. Mesmo que toque 10 canções do Angra em contraponto a cinco da carreira solo, Edu não foge à regra. “Sacrifice”, a primeira do novo álbum “Eldorado”, tem a mesma recepção que as três anteriores, dos tempos de “Rebirth” e “Hunters and Prey”, disco e EP lançados mais de duas décadas atrás.

O protagonista, aliás, estava em noite inspirada. Economizou nos agudos e cantou muito. Some-se a isso o alto nível da banda que o acompanha, com quem interagiu o tempo todo, além do público, e não há do que reclamar. Além do já mencionado Victor Franco na guitarra, estão no palco Diogo Mafra na outra guitarra, Raphael Dafras no baixo, Fábio Laguna nos teclados, Fábio Caldeira e Juliana Rossi — esta na vaga deixada por Raíssa Ramos — nos backing vocals e Aquiles Priester na bateria. Aquiles e Juliana participaram do show do Shamangra, o que mostra como é bem visto pelos fãs o trânsito entre os diferentes setores do Angraverso.

Juliana, aliás, fez por merecer essas oportunidades, pois tem carreira extensa na noite paulista. Certamente fará bonito se tiver a oportunidade de cantar “No Pain For the Dead”, por exemplo – não foi no último sábado (27) que isso aconteceu, mas quem sabe um dia.

Já Aquiles é um destaque à parte. Tem o público próprio e até um estande de merchandising exclusivo — e proporcional ao tamanho da bateria. Não é à toa. A precisão brutal constante com que executa o fisicamente exaustivo power metal impressiona até quem não tem ideia do que é um chimbal. Bateristas performáticos normalmente ficam em pé atrás do kit para chamar atenção do público. Ele, ao contrário, espera o público chamá-lo para que fique em pé. Quando o faz, pede (e recebe) mais barulho.

Foto: André Tedim

O violonista Fábio Lima é o primeiro convidado a subir ao palco, em “Land Ahoy”, única do disco “Vera Cruz” a ser apresentada. Extremamente habilidoso e com presença de palco (ele toca em pé, sabe-se lá como), Lima ainda participaria de outras músicas e atestou a qualidade do som, alta a noite toda. Mesmo quando a banda toda tocava, era possível ouvi-lo, como ocorreu em “Rebirth”. Isso não é técnica e logisticamente simples, tanto no que se refere à equalização quanto para manter a afinação do instrumento – se o músico não se ouve, o violão sofre e a performance falece. O cuidado de ter todos os violões necessários sendo tocados ao vivo, não pré-gravados, foi um dos pontos altos da noite e deixa ver o esmero lapidar que o espetáculo recebeu.

Foto: André Tedim

Ainda na seara de participações especiais, uma baixa. A ausência de José Andrëa, ex-vocalista do Mägo de Oz, que deveria participar de “Señores del Mar (Wield the Sword)”, foi anunciada um dia antes pelas redes sociais, mas não foi abordada, explicada ou sentida no Tokio Marine Hall.

Mesmo assim, é de se lamentar que o encontro do grande nome do metal espanhol e o Brasil não tenha ocorrido. É um intercâmbio que poderia enriquecer a cena nacional com possibilidades que vão além dos exemplos fornecidos pelo metal alemão, inglês ou escandinavo. Um exemplo disso é um dos clássicos do Mägo, “El Que Quiera Entender Entienda” — que, lançada 24 anos atrás, fala de diversidade, de a pessoa poder amar sem medo de ser quem é. Décadas antes desse discurso ser invadido e tornado refém de grandes corporações. Bem diferente do que cantavam as bandas da mesma época e estilos equivalentes, como Hammerfall, Stratovarius e Rhapsody (of Fire).

De volta à apresentação: em “Eldorado”, faixa-título do recente álbum, acontece a anunciada gravação de clipe, em que as palmas ensaiadas se misturaram com o pula-pula genuíno da plateia. Chega a vez do grande convidado, Roy Khan, ser intensamente ovacionado, mostrando que o nome dele continua forte entre os fãs do Brasil. Primeiro, ele divide com Edu os vocais de “Heroes of Sand” do Angra e “Center of the Universe”, clássico do Kamelot. Entre elas, canta sozinho “Cry”, do Conception, banda em que está atualmente e com a qual se apresentará no Brasil em março.

Foto: André Tedim

Depois desse auge, Edu saúda os fãs que vieram de diferentes países para o show. Agradece a presença de um ídolo, Guilherme Isnard, vocalista da banda Zero, e apresenta a banda. Aquiles, como de costume, assume o microfone e elogia sem reservas o dono da festa. Ainda brinca dizendo que todo o mês de janeiro deveria ter “um show do alemão”, referindo-se aos já tradicionais shows que Edu Falaschi faz no começo de ano, sempre com casa cheia.

Se houve discordância dessa ideia, não foi notada. É até seguro dizer que não houve, pois, após o bis com “Rebirth” + “Nova Era” e a despedida, o público se recusou a ir embora, gritando em uníssono “Saint Seiya!”. Edu volta sozinho ao palco e toca sozinho um trecho de “Wish You Were Here”, do Pink Floyd, e a íntegra de “Pegasus Fantasy”, acompanhado de Fábio Lima.

A demanda alta deve continuar garantida para noites como essa, em que ganham destaque os maiores talentos do Edu Falaschi: a excelência na composição e o carisma muito acima da média, não quão alto ele consegue cantar. Pelo andar da carruagem, o documentário que prepara sobre a própria carreira deve ganhar muitos episódios positivos nos próximos anos.

*Fotos de André Tedim @andretedimphotography. Mais imagens e vídeos ao fim da página.

Foto: André Tedim

Edu Falaschi — ao vivo em São Paulo

  • Local: Tokio Marine Hall
  • Data: 27 de janeiro de 2024
  • Turnê: Eldorado

Repertório:

  1. Live and Learn (Angra)
  2. Acid Rain (Angra)
  3. Waiting Silence (Angra)
  4. Sacrifice
  5. Millennium Sun (Angra)
  6. Land Ahoy – com Fábio Lima
  7. The Temple of Hate (Angra)
  8. Tenochtitlán
  9. Bleeding Heart (Angra)
  10. Señores del Mar (Wield the Sword)
  11. Eldorado
  12. Heroes of Sand (Angra) – com Roy Khan
  13. Cry (Conception) + Center of Universe (Kamelot) – com Roy Khan
  14. Spread Your Fire (Angra)

Bis:

  1. Rebirth (Angra)
  2. Nova Era (Angra)
  3. Wish You Were Here (Pink Floyd) – trecho acústico
  4. Pegasus Fantasy (trilha sonora de Os Cavaleiros do Zodíaco) – acústico

Fotos:

Foto: André Tedim
Foto: André Tedim
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Foto: André Tedim
Foto: André Tedim
Foto: André Tedim
Foto: André Tedim
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Foto: André Tedim
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Foto: André Tedim
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Vídeos:

“Tenochtitlán”:

“Millennium Sun”:

“Bleeding Heart”:

“Live and Learn”:

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Rolf Amaro
Rolf Amarohttps://igormiranda.com.br
Nasceu em 83, é baixista do Mars Addict, formado em Ciências Sociais pela USP. Sempre anda com o Andreas no braço, um livro numa mão e a Ana na outra.

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