A breve trajetória de Ray Gillen na música

Vocalista tapou buraco no Black Sabbath, vislumbrou o estrelato com o Badlands e se despediu de maneira trágica aos 34 anos

“Um cara boa-pinta, com uma voz sensacional”: é assim que Tony Iommi resume quem foi Ray Gillen.

Raymond Arthur Gillen nasceu em 12 de maio de 1959, em Nova York, mas cresceu em Cliffside Park, Nova Jersey. Filho único, começou a cantar durante o ensino médio, em casa, junto com álbuns dos Beatles e afins.

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Após alguns anos, passou a gostar do som de sua voz e entrou em contato com o treinador vocal Robert Fitzgerald para ver se este achava que ele tinha algum talento. A resposta de Fitzgerald foi algo como “Onde diabos você esteve toda a minha vida?!” e, com esse encorajamento, Ray rapidamente começou a se dedicar ao canto com seriedade.

Foi nesse momento que ele iniciou as apresentações em público, cantando em uma série de bandas locais — Quest, F-66, Savage e, mais notavelmente, Vendetta e Harlot, que tocavam músicas autorais e faziam covers de Deep Purple, Led Zeppelin e Van Halen —, construindo seu nome no circuito de clubes de Nova Jersey e Nova York.

Mas só em 1985 a carreira dele começou a tomar forma de verdade.

Sorteado por uma oferta irrecusável

Substituído por Chuck Burgi pouco antes das sessões de gravação de “Bent Out of Shape” (1983) do Rainbow, o baterista Bobby Rondinelli decidiu formar sua própria banda. Com o irmão Teddy nas guitarras, James Lomenzo (atualmente no Megadeth) no baixo e teclados, e Ray Gillen no microfone, o Rondinelli rapidamente virou uma das principais atrações independentes do nordeste dos Estados Unidos.

Nos intervalos entre um show e outro, o quarteto começou a trabalhar em uma série de demos na esperança de despertar o interesse de uma gravadora. Mas não muito depois do término dessas gravações, Tommy Henriksen entrou no lugar de Lomenzo, recrutado pelo White Lion. As coisas ainda pareciam boas, porém: a resposta do público à demo tinha sido excelente, e a assinatura de um contrato de gravação parecia estar logo ali.

Foi quando Ray recebeu uma oferta que não pôde recusar: juntar-se ao Black Sabbath.

Com a saída do cantor, as perspectivas de sucesso evaporaram. Henriksen deu o fora quase imediatamente para se juntar à banda alemã Warlock, onde seria acompanhado em breve por Bobby, e Teddy se dedicaria ao ofício de produtor; incluindo a produção do álbum “War Dance” em 1996, reunindo gravações do Rondinelli com Ray nos vocais.

Saga turbulenta no Black Sabbath

Descrever o início da turnê norte-americana de “Seventh Star”, do Black Sabbath, como problemático seria um eufemismo. Considerando todos os eventos envolvendo o então vocalista Glenn Hughes, foi verdadeiramente um desastre.

Por mais incrível que Glenn fosse, não estava em condições físicas e psicológicas de subir ao palco. Não podendo se dar ao luxo de arcar com cancelamentos, o guitarrista Tony Iommi precisava encontrar um substituto.

Daí o baixista Dave Spitz lhe falou sobre um jovem vocalista que conhecia chamado Ray.

No terceiro show da turnê, em East Rutherford, Nova Jersey, Glenn percebeu uma movimentação suspeita. “Na passagem de som, eles [Black Sabbath] estavam ensaiando com outro cantor”, relata ele em sua autobiografia (EV7 Press, 2017).

Após o show de 26 de março em Worcester, Massachusetts, Hughes mal conseguia falar. Iommi não teve escolha se não demiti-lo.

Três dias depois, Ray Gillen fez seu primeiro show com o Black Sabbath. Atirado aos leões, o novato fez um ótimo trabalho. “Finalmente alguém que realmente queria lutar e tinha a atitude correta”, reconhece Iommi na autobiografia “Iron Man” (Planeta, 2013).

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Mesmo assim, a bilheteria não foi muito boa. Com um cara desconhecido ao microfone, o interesse na banda havia diminuído. O restante da turnê pelos Estados Unidos teve de ser cancelado.

No entanto, o Sabbath seguiu em frente, com 12 espetáculos no Reino Unido em casas que, segundo Iommi, “não eram assim tão grandes, mas lotaram.”

Finalizada a turnê, Iommi, Gillen, Spitz, o baterista Eric Singer e o tecladista Geoff Nicholls começaram a ensaiar as músicas do vindouro álbum de estúdio e logo partiram rumo ao Caribe para iniciar as gravações.

A descoberta de um chifre e desentendimentos com o produtor Jeff Glixman fizeram Spitz pular fora. Para seu lugar, um velho conhecido foi chamado: Bob Daisley, que tocou no Rainbow e na banda solo de Ozzy Osbourne. Compositor muito talentoso, Daisley foi de grande ajuda também nesse âmbito, lapidando e fazendo acréscimos às ideias de Ray Gillen para as letras.

Durante as gravações, ficou evidente para todos que o vocalista havia se deixado levar pelo estrelato repentino; ficava acordado a noite inteira, bebendo, e virou outra pessoa. Hoje se sabe que, por baixo dos panos, Gillen e Singer vinham orquestrando um grupo de nome Badlands. Para a sorte de Iommi, a dupla esperou as gravações terminarem para anunciar sua saída.

O disco, “The Eternal Idol”, já tinha até data de lançamento anunciada quando o substituto Tony Martin foi encarregado de regravar os vocais originalmente registrados por Ray.

A ascensão e queda do Badlands

Exemplo cabal de um grupo que aparentemente tinha a faca e o queijo nas mãos, mas de alguma forma conseguiu pôr tudo a perder, o Badlands foi formado no final dos anos 1980 por Ray, Eric, o guitarrista Jake E. Lee — recém-saído de dois discos de enorme sucesso com Ozzy Osbourne — e o baixista Greg Chaisson, ex-Steeler, banda que revelou Yngwie Malmsteen.

Em uma das primeiras entrevistas depois que o Badlands foi formado — reproduzida em “Black Sabbath: A biografia”, de Mick Wall (Globo Livros, 2014) —, Gillen falou:

“O último guitarrista com quem trabalhei [Iommi] era um pouco estranho, a banda [Sabbath] não era estranha, mas eles tinham um jeito próprio de como queriam trabalhar e não se abriam a novas ideias. Com Sabbath e Ozzy, Jake e eu tínhamos de nos encaixar, e não dava para realmente projetar seus sentimentos internos sobre o que se queria fazer, você tinha que seguir as diretrizes da banda. Agora estou cantando mais as minhas próprias melodias e escrevendo minhas próprias letras e fazendo o que quero. Não é que quero fazer isso ou aquilo. O estilo da banda é esse.”

O estilo ao qual ele se refere toma por referência gigantes como Cream e Led Zeppelin, mas com uma pitada contemporânea de peso e melodia. Contratado pela Atlantic Records, o quarteto gravou seu álbum de estreia em Los Angeles e Nova York. Lançado originalmente em 1989, “Badlands” abriu um mundo de possibilidades que deveriam ter levado o grupo ao estrelato internacional.

Com seu primeiro clipe, “Dreams in the Dark”, em alta rotação na MTV, o Badlands caiu na estrada durante grande parte de 1990, fazendo apenas uma breve pausa para recrutar Jeff Martin para a vaga de Singer, antes de voltar ao estúdio para iniciar o trabalho em seu segundo álbum.

Entretanto, durante a criação de “Voodoo Highway” (1991), Lee e Gillen começaram a discordar sobre a direção musical que a banda estava tomando. Pouco antes de uma temporada pelo Reino Unido, o guitarrista deu uma entrevista à Kerrang! comunicando a demissão do vocalista, a quem acusou de tentar passar a perna nos colegas. Ele chegou até a anunciar a desconhecida Debby Holiday como substituta.

Mas Ray acabou ficando, e a turnê teve início com um show no Astoria, em Londres. Após a quarta música, o vocalista virou-se para a plateia e, mostrando um exemplar da Kerrang!, chamou Jake de mentiroso.

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Em vez de chegarem às vias de fato, os dois deram continuidade à apresentação. Contudo, por mais que a plateia tenha cantado em coro: “Não se separem! Não se separem! Não se separem!” inúmeras vezes, o Badlands acabou se separando.

Notas amargas no fim

Rumores de que Ray Gillen era soropositivo circulavam desde 1990, mas em meados de 1993, restava pouca dúvida de que ele havia contraído HIV. Ele faleceu de complicações relacionadas à Aids em um hospital de Nova York em 1º de dezembro de 1993. Tinha 34 anos.

Durante uma entrevista ao podcast “Let There Be Talk”, transcrita pelo Blabbermouth, Lee revelou ter uma teoria sobre como o vocalista contraiu a temida doença: usando heroína com seu próprio tio. “Uma vez, perguntei se ele já havia injetado, e ele disse que sim, com o tio dele, que era motociclista e, aparentemente, homossexual”.

Naquela época, a Aids era mais comum entre homens gays e viciados em drogas injetáveis. O guitarrista prossegue:

“Ray idolatrava esse tio e queria experimentar heroína. Porém, talvez uns dois anos depois, lembro de ele me contar que seu tio havia sido diagnosticado com HIV. Para mim, deve ter acontecido o mesmo com ele.”

De acordo com Eddie Trunk, várias famílias processaram com sucesso o espólio de Gillen por infectar suas filhas com o vírus da Aids, algumas de forma fatal. Em 2014, o radialista falou:

“Muita gente me disse que tentou licenciar aqueles discos do Badlands, e a licença era revogada em questão de semanas. E fui informado que a razão é que Ray havia infectado algumas mulheres. E foi uma concessão às famílias impactadas com isso; foi dito a elas que aqueles discos não serão mais comercializados.”

Lee, que estava presente na ocasião, saiu em defesa de Gillen:

“Eu não entendo como isso ajuda essas pessoas. Não vejo de que modo. Eu diria: me provem. Qualquer pessoa pode dizer que foi infectada por Ray. Como é que vamos saber?”

O corpo de Ray Gillen está enterrado no Cemitério Fairview em Fairview, Nova Jersey.

Outros passos musicais

  • A estreia de Ray Gillen em disco ocorreu com o single de sete polegadas “Give It a Try” / “It Doesn’t Matter” do F-66 em 1980, quando ele tinha 21 anos. A sonoridade é notavelmente influenciada pelo punk rock.
  • Durante a turnê de “Seventh Star”, Gillen foi convidado para se participar da gravação do segundo álbum do Phenomena, “Dream Runner” (1987), que contava ainda com vocais de Glenn Hughes, John Wetton (Asia) e Max Bacon (GTR). Ray canta em quatro faixas: “Stop”, “No Retreat – No Surrender”, “Move – You Lose” e “Emotion Mama”.
  • Também em 1987, ele forneceu vocais de apoio para “Strange Wings”, quarta faixa do quarto álbum de estúdio do Savatage, “Hall of the Mountain King”.
  • Em 1993, Gillen contribuiu com os vocais para “Flesh and Blood”, faixa nº 3 do primeiro álbum solo do guitarrista George Lynch (Dokken, Lynch Mob), o diversificado “Sacred Groove”.
  • No mesmo ano, Ray formou a banda Sun Red Sun com o velho amigo guitarrista Al Romano, chegando a gravar quatro músicas. Em 1995, Romano obteve sucesso em seus esforços para lançá-las, tornando-as públicos os registros finais do vocalista antes de seu falecimento.
  • Em 1998, um último álbum do Badlands chegou às lojas sem a aprovação dos ex-membros. Gravado ao vivo no estúdio em 1992-1993, o blueseiro “Dusk” foi lançado apenas no Japão e na Europa.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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