Crítica: Filme “Tetris” faz da Guerra Fria uma aula didática e divertida

Longa impecável da Apple TV+ conta a história de um dos jogos mais famosos do mundo de forma inteligente

Em uma das cenas triviais de “Tetris”, a personagem Akemi Rogers (Ayane Nagabuchi) pergunta ao marido, protagonista da obra: “Me diga, por que acredita tanto que este jogo fará sucesso?”. “Porque nossa casa está em silêncio há um bom tempo”, responde Henk Rogers (Taron Egerton), um dos responsáveis por fazer o jogo Tetris virar um fenômeno fora da União Soviética após perceber que as filhas estavam vidradas no game.

“Tetris”, o longa, já é um dos melhores do ano – ainda que sem a força necessária para disputar prêmios. Além de provar como a Apple TV+ tem mantido a rotina de lançar grandes obras originais, a cinebiografia retrata de forma inteligente a disputa política e contratual do jogo que mudou a história da indústria.

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A base de “Tetris”

Dirigido por Jon S. Baird (“Stan e Ollie: O Gordo e o Magro”), “Tetris” se passa no período final da Guerra Fria, na década de 1980, quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) já demonstrava fraqueza antes de cair em 1991. O Estado socialista entendia que toda criação feita por seus cidadãos deveria ser repassada ao governo.

A intenção era que o poder público administrasse os lucros de tal invenção, visando o bem coletivo em vez do individual. Assim, surgiu uma estatal que cuidava apenas de assuntos envolvendo importação e exportação de eletrônicos.

Nesse contexto, o soviético Alexey Pajitnov (Nikita Efremov) criou um jogo envolvendo estratégia e pensamento rápido. Consiste em diferentes tetraminós que caem e devem ser encaixados como um game de lógica. Aos poucos, o viciante joguinho – batizado “Tetris” –foi escapando do muro da União Soviética para chegar às mãos do planeta.

Com os tubarões do capitalismo famintos por esse fenômeno, contratos sem validade foram fechados em busca dos direitos. Cada vez mais, “Tetris” passava de mãos em mãos sem qualquer validade, já que ninguém negociava com a real proprietária: a URSS.

Não é obrigatório entender a história por trás antes de assistir ao filme, mas caso seja de interesse, um artigo no site (clique aqui) explica toda essa trama da vida real.

A boa e velha Hollywood

Em 2015, o filme “A Grande Aposta”, de Adam McKay (“Não Olhe Para Cima”), retratou de forma inteligente e ácida a crise imobiliária que abalou os Estados Unidos em 2008. Contudo, a abordagem é tão técnica que somente amantes da sétima arte ou pessoas que já entendem do assunto apreciariam a obra como um todo.

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Felizmente, “Tetris” não comete este equívoco. O roteiro de Noah Pink (criador da série “Genius” para a National Geographic) é ágil, divertido, bem ambientado em seu respectivo tempo e um tanto quanto teatral, mas sem medo de usar uma didática simplória. Facilita a vida de qualquer espectador dentro de um assunto tão complexo envolvendo questões contratuais e o período e mentalidade da União Soviética.

A direção também acerta ao não tentar transmitir virtuosismo intelectual. É oferecida praticamente uma aula básica sobre contratos e ideologias políticas e socioeconômicas. Sem contar os artifícios técnicos para deixar a experiência mais agradável: a bela trilha sonora com temas pop dos anos 1980, o instrumental todo baseado em games da época (como o próprio “Tetris”) e a transformação de algumas cenas importantes em maravilhosos jogos em 8 bits.

Bem vs. mal

Em “Tetris”, o filme, o maniqueísmo se faz presente como em toda boa história de Hollywood. O bem (capitalismo) contra o mal (comunismo). A velha estereotipação dos comunas ao melhor estilo James Bond.

O diferencial está na quantidade de camadas. Não há apenas essa divisão simplória. Existe uma crítica sutil ao capitalismo e ao comunismo que não pode ser deixada de lada, além da compreensão de que se trata apenas de uma dramatização, não uma retratação histórica fidedigna.

Como em “Hamlet” de Shakespeare, temos o tio vilão que usurpou o trono do rei; tal qual também temos na animação da Disney, “Pocahontas”, uma forte crítica ao colonialismo. Fica claro que nem tudo é 100% bom ou ruim, afinal, em “Pocahontas”, existe um colono que quer a paz entre os mundos através do diálogo, da mesma forma que um indígena entende que só a guerra pode os levar à paz.

A retração do socialismo em “Tetris” é a mais ditatorial possível. O sistema usurpa a produção de seu cidadão com a desculpa de que irá obter o melhor para o Estado, o melhor a saber o que se fazer com tais bonanças. Enquanto isso, o criador do jogo – tanto no filme quanto na vida real – não recebeu um misero centavo por seu “filho”.

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Já o capitalismo é apresentado por intermédio de empresas (e pessoas) sujas, falidas e envolvidas em crimes fiscais e contratuais. Elas precisam desesperadamente “passar o trator por cima” de seus concorrentes e usar o sucesso do jogo para resolver seus problemas.

Estereótipos à parte, justamente um “socialista raiz” e um capitalista salvam o dia. O primeiro acredita realmente no melhor para seu povo através de um Estado forte, honesto e subserviente; o segundo quer apenas vencer a disputa e levar o melhor possível para sua família e para o criador do game. Entre as camadas de espiões sanguinários russos e famintos tubarões em busca dos dólares, isso também está lá. É só observar.

“Tetris”, simples e efetivo

Dito isso, “Tetris” utiliza o melhor do entretenimento oitentista. Dinâmico, não perde um só segundo de seus 118 minutos. Entretém e vicia tal qual o jogo – e deixa claro que a Apple TV+, plataforma de streaming pouco usada no Brasil, não veio para brincar: boa parte de seu catálogo é de altíssimo nível.

O investimento em buscar no mercado os melhores intérpretes possíveis só aumenta a qualidade. Um exemplo recai na escolha do extraordinário Taron Egerton (“Rocketman”), que continua sua estrada de ótimos trabalhos desde o primeiro “Kingsman: Serviço Secreto”. Há de se destacar ainda o sempre ótimo ator/vilão Toby Jones (Robert Stein), Roger Allam (Robert Maxwell), Anthony Boyle (Kevin Maxiwell), Sofya Labedeva (Sasha) e o assustador e preenchedor de tela Igor Grabuzov (Valentin Trifonov).

“Tetris” não tem a força necessária para disputar premiações – e parece até não querer muito isso. A força da obra está justamente em traçar pegadinhas para um público polarizado e conseguir contar ao mundo, de forma simples, como se deu uma das negociações mais conturbadas da história dos games. Além, é claro, da irresistível viagem no tempo para ver como se deu o desenvolvimento de muitas coisas no mundo dos jogos, em especial o portátil Game Boy, da Nintendo.

*“Tetris” está disponível na plataforma de streaming Apple TV+.

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Raphael Christensen
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Ator, Diretor, Editor e Roteirista Formado após passagem pelo Teatro Escola Macunaíma e Escola de Atores Wolf Maya em SP. Formado em especialização de Teatro Russo com foco no autor Anton Tchekhov pelo Núcleo Experimental em SP. Há 10 anos na profissão, principalmente no teatro e internet com projetos próprios.

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