Crítica: Filme mais importante do ano, “Ela Disse” se contenta em ser só bom

Ainda que limitado por sua simplicidade e ritmo frenético, longa sobre investigação jornalística em torno dos crimes de Harvey Weinstein vale o ingresso

Em outubro de 2017, o mundo se viu chocado com a matéria do The New York Times sobre os crimes sexuais de Harvey Weinstein, poderoso produtor de Hollywood. A reportagem escrita com maestria pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey trouxe à tona um caso sórdido de quase três décadas. Enojava não somente pelos crimes em si, mas em todo o mecanismo para se proteger o poderoso magnata – foram quase quinze acordos feitos para calar as vítimas.

Após esse ocorrido, se iniciou um importante movimento chamado “Me Too”, onde diversas vítimas de crimes sexuais na indústria vieram à luz do sol. Derrubaram muitos poderosos e, apesar de algumas falhas, conseguiram mudar um pouco o futuro.

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Com isso, as jornalistas responsáveis pelo pontapé inicial escreveram um livro sobre o caso. Chamada “She Said” (“Ela Disse”), a obra detalhava todo o processo investigativo e jornalístico para escrever tal matéria.

Agora, a diretora alemã Maria Schrader (“Aimée & Jaguar”) traz para a tela de cinema um drama biográfico inspirado neste livro. Aqui, infelizmente, o roteiro se apequena dentro de um tema tão importante – poderia gerar um momento histórico para o cinema, mas é apenas um bom filme.

De quem é o erro?

Também atriz de muito prestígio na Alemanha, Maria Schrader é extremamente competente no que faz. Neste longa, ela opta por um ritmo frenético onde já nos primeiros minutos traça um paralelo interessante de tempo para lembrar que antes de Harvey Weinstein, tivemos os escândalos sexuais do então futuro presidente Donald Trump. Logo em seguida, ela já emenda com os burburinhos em torno da Miramax, produtora de cinema comandada por Weinstein.

Como todo filme depende de um bom ritmo, geralmente elogiamos aqueles em que a pegada é mais intensa. Contudo, devido à importância do assunto e grandeza do estrago em Hollywood após as denúncias, merecia-se um pouco mais de calma e de tempo em tela.

Apesar de bem trabalhadas, as informações ficam um tanto quanto jogadas às pressas ao longo das pouco mais de duas horas de tela. Tudo isso para chegar a uma conclusão que deixa a desejar. Termina onde deveria ser o meio da coisa, que é a publicação da reportagem do The New York Times. Faltou o cuidado em trazer à tona os reais motivos da criação do movimento Me Too, que vão além de Harvey Weinstein.

Toda a investigação jornalística em torno dos crimes do produtor cinematográfico também ficou apressada. Em determinado momento, você é obrigado a dizer para si mesmo: “ok, vou aceitar que seja contado assim, afinal, é um filme”. Não deveria ser assim. Na história do cinema, grandes longas investigativos sobre fatos reais prezam justamente pela preciosidade em lidar com os detalhes.

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O roteiro é assinado por Rebecca Lenkiewicz, também prestigiada em sua área e de grande qualidade. Aqui, porém, ela abraçou o ritmo frenético com o objetivo de nos entregar um bom filme. Inegavelmente o objetivo é alcançado – trata-se de um bom longa –, mas perdeu-se a oportunidade de fazer de “Ela Disse” um grande épico investigativo.

A obsessão pelo caminhar acelerado da obra é tamanha que o roteiro faz outro paralelo, este superficial, ao mostrar como era a vida pessoal das jornalistas no momento da reportagem. No papel, uma ótima ideia; na prática, são rápidos punhados de cenas rasas que não se amarram.

Caras certas no Oscar

Ainda que desperdice uma oportunidade de ouro, “Ela Disse” é um belo longa jornalístico. Prende do início ao fim e gera forte aflição com as situações apresentadas. Houve competência ao retratar o drama das vítimas e suas histórias, bem como o modus operandi de Harvey Weinstein não apenas nos crimes, como também na defesa.

As interpretações das atrizes Carey Mulligan (“O Grande Gatsby”) e Zoe Kazan (“Será Que?”), que dão vida respectivamente às jornalistas Megan Twoney e Jodi Kantor, são fortes. Certamente serão indicadas ao Oscar, assim como a diretora Maria Schrader e a roteirista Rebecca Lenkiewicz. Talvez seja exagerado pensar em vitórias, mas pode ocorrer também pela força do tema.

Filme mais importante do ano

“Ela Disse” já está em cartaz nos cinemas e vale o ingresso. É um bom drama jornalístico, mas por focar menos no jornalismo e mais no lado humano, não deve se tornar uma obra referencial do porte de “Todos os Homens do Presidente”, “Spotlight”, “Boa Noite e Boa Sorte” e “The Post – A Guerra Secreta”.

É recomendado ter estômago para assistir. O longa – mais importante do ano em função de sua temática – é pesado e causa ânsia devido a todo o mecanismo sujo envolvendo algo que deveria ser apenas sobre arte. É como um soco na cara ver tantas mulheres que foram obrigadas a desistirem de seus sonhos por conta desses crimes.

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Raphael Christensen
Raphael Christensenhttp://www.igormiranda.com.br
Ator, Diretor, Editor e Roteirista Formado após passagem pelo Teatro Escola Macunaíma e Escola de Atores Wolf Maya em SP. Formado em especialização de Teatro Russo com foco no autor Anton Tchekhov pelo Núcleo Experimental em SP. Há 10 anos na profissão, principalmente no teatro e internet com projetos próprios.

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