Journey lida com o bônus e o ônus da liberdade em “Freedom”

Em décimo-quinto álbum, banda vai bem ao se mostrar mais solta artisticamente, mas vacila com autoprodução e problemas sonoros

O Journey é, ao mesmo tempo, uma das bandas mais populares e desconhecidas do planeta. Embora tenha mais de 80 milhões de discos vendidos mundialmente e hits que resistiram ao teste do tempo, como “Don’t Stop Believin’” e “Separate Ways (Worlds Apart)”, o grupo americano por vezes é visto mais como uma franquia musical. Chega ao ponto de não importar quem sejam os integrantes, o interesse do público continuará quase intacto.

O vocalista Steve Perry, um dos grandes segredos para o sucesso da banda, está fora da formação desde 1998. Sua vaga foi ocupada por Steve Augeri até 2006 e Arnel Pineda a partir daí. O guitarrista Neal Schon e o tecladista Jonathan Cain se mantiveram na formação atual, com destaque ao primeiro, um dos fundadores do projeto. O resto? Geralmente ninguém sabe o nome – tanto que dois músicos que tocaram em “Freedom”, mais novo álbum do grupo, foram substituídos antes mesmo do primeiro show da turnê.

Não ter todos os seus músicos definidos pode atrapalhar muita gente, mas não o Journey. Mesmo com uma formação toda redefinida, o grupo conseguiu entregar um trabalho relativamente ousado para quem está há tantos anos na estrada e se notabilizou justamente por hits que reproduzem vários padrões do pop rock americano.

Problemas recentes

Antes de falar mais sobre “Freedom”, é importante explicar todas as mudanças de formação do Journey nos últimos anos. No início de 2020, após décadas de contribuições, o baixista Ross Valory e o baterista Steve Smith foram demitidos da banda. Não só isso: acabaram acusados por Neal Schon e Jonathan Cain de tentativa de aplicar um golpe corporativo para obter controle de uma das empresas do grupo.

Enquanto a situação se desenrolava (e aparentemente ainda se desenrola) na Justiça, Randy Jackson e Narada Michael Walden foram chamados para substituir, respectivamente, Valory e Smith. Jackson é um velho conhecido: substituiu o mesmo baixista entre 1985 e 1986, tocando no álbum “Raised on Radio” e sua respectiva turnê. Tanto ele quanto Walden, renomados músicos de estúdio, foram anunciados junto do tecladista Jason Derlatka, dividindo funções com Cain.

Após as gravações de “Freedom”, os patrões Schon e Cain decidiram que Walden não seria o cara certo para a turnê, por seu estilo de tocar ser um tanto diferente do habitual da banda. Então, trouxeram de volta Deen Castronovo, que havia integrado o grupo de 1998 a 2015, quando foi preso e consequentemente dispensado de suas funções sob acusação de ter agredido e estuprado uma mulher, entre outros crimes – ele confessou parte dos delitos e ficou quatro anos em liberdade condicional. Nos primeiros shows, Castronovo e Walden tocaram juntos, mas este último acabou abandonando a função de vez.

Randy Jackson também foi substituído após as gravações de “Freedom”. Nos shows, a vaga é ocupada por Todd Jensen, que tocou com Neal Schon no Hardline. E lembra de Jason Derlatka, que dividiria os teclados com Jonathan Cain? Ele continua na banda, mas no novo disco é creditado apenas por backing vocals.

O ônus…

Fazendo justiça ao título “Freedom” (“liberdade”, em tradução para o português), o Journey buscou uma abordagem mais livre em vários sentidos ao fazer seu décimo-quinto álbum de estúdio e primeiro desde “Eclipse” (2011). Em um deles, infelizmente, o grupo pagou o preço: a produção.

Pela primeira vez desde “Raised on Radio”, eles trabalharam sem um produtor externo, com Neal Schon, Jonathan Cain e Narada Michael Walden assumindo o posto de forma coletiva. Bob Clearmountain, Adam Ayan, Jim Reitzel, Keith Gretlein e David Kalmusky assinam a engenharia de som.

Não dá para imaginar que toda essa gente tenha sido responsável por uma qualidade de gravação tão ruim. Várias faixas soam como demos gravadas no quarto de alguém há 15 anos – já que mesmo nesse formato, dá para fazer coisa muito melhor na atualidade. A experiência fica ainda pior por se estender durante um trabalho bem longo, com 70 minutos e 15 faixas ao todo.

O grande destaque negativo nesse sentido vai para teclados e sintetizadores, que, além dos timbres horríveis, acabam soterrando em volume outros instrumentos e (especialmente) os vocais. Há ocasiões em que a bateria também está alta demais. Parece não haver uma “cola” responsável por unir todas as colaborações, não sendo raras as situações em que há pontas soltas no som.

…e o bônus

Uma pena que os problemas de gravação tenham atrapalhado um álbum que surpreende positivamente por suas composições, das padronizadas às mais criativas.

Quando decide jogar na “bola de segurança” e não se perde em seus próprios excessos, o Journey vai bem. A abertura “Together We Run”, por exemplo, segue uma fórmula já reproduzida em outros momentos e mesmo assim funciona muito bem. A mais agitada “You Got the Best of Me” seria uma das melhores do disco se não fosse o refrão de sonoridade embolada. “Don’t Go”, outro destaque entre as canções mais “padrão”, convence logo em seus primeiros segundos – ainda que os teclados prejudiquem a experiência.

Desta vez, porém, também há momentos em que o Journey “cansa de ser Journey” e explora outros elementos musicais de modo mais livre – algo que fez poucas vezes desde o início da década de 1980. É aí onde estão as melhores passagens do disco.

A sequência das faixas 7 até 11 traz uma série de nuances distintas que incluem performances mais pesadas, como em “Come Away with Me” e “Holdin’ On”, e situações onde o groove é a prioridade, a exemplo de “After Glow” (cantada por Deen Castronovo), “Let it Rain” e “All Day, All Night”. As últimas três citadas colocam a pulga atrás da orelha dos fãs: teríamos uma sonoridade diferenciada nos palcos se Narada Michael Walden e Randy Jackson tivessem sido mantidos para a turnê?

O encerramento com “Beautiful as You Are” também nos reserva um momento para lá de experimental quando se fala de Journey. Com 7 minutos e 10 segundos de duração, trata-se da terceira faixa mais longa da carreira da banda, atrás apenas de “Look into the Future” (faixa-título do álbum de 1976) e “Destiny” (abertura de “Dream After Dream”, lançado em 1980). A conclusão apoteótica curiosamente começa mansa, em uma bela introdução com voz, violão e cordas de orquestra ao fundo. Cresce em seguida com a chegada do instrumental, ganha forma a partir dos fortes ganchos melódicos e se encerra com, acredite, um solo de bateria.

Apesar dos pesares

Se o trio Neal Schon, Jonathan Cain e Narada Michael Walden vacilou na produção, as composições (praticamente todas assinadas por eles) e performances em si ao menos foram caprichadas. Especialmente de Schon, que parece estar tocando cada vez melhor, e Walden, cuja habilidade na bateria impede que os fãs sintam falta de Steve Smith.

Arnel Pineda também soa incrível naquele que é seu melhor trabalho como vocalista do Journey. Como “liberdade” tornou-se o mantra desta banda tão refém de sua própria estética, o filipino pôde mostrar mais de si, sem precisar emular tanto os timbres de Steve Perry. Quando a mixagem e os teclados bizarros não enterram seu trabalho, o resultado é incrível.

Que não demore mais 11 anos para o Journey lançar seu próximo álbum – e que o seguinte seja mais curto e melhor gravado.

Ouça “Freedom” a seguir, via Spotify, ou clique aqui para conferir em outras plataformas digitais.

O álbum está na playlist de lançamentos do site, atualizada semanalmente com as melhores novidades do rock e metal. Siga e dê o play!

Journey – “Freedom”

  1. Together We Run (4:49)
  2. Don’t Give Up On Us (5:23)
  3. Still Believe In Love
  4. You Got The Best Of Me (5:33)
  5. Live To Love Again (5:30)
  6. The Way We Used To Be (3:35)
  7. Come Away With Me (4:02)
  8. After Glow (5:22)
  9. Let It Rain (4:40)
  10. Holdin On (3:14)
  11. All Day All Night (3:38)
  12. Don’t Go (4:58)
  13. United We Stand (5:05)
  14. Life Rolls On (4:57)
  15. Beautiful As You Are (7:10)

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