A história de “The Osbournes”, o reality show que expôs a vida de Ozzy e sua família

Entre 2002 e 2005, o mundo inteiro teve acesso ao que se passava no interior da casa de uma das maiores personalidades da música pesada

No início dos anos 2000, Ozzy Osbourne continuava sendo uma figura conhecida, mas não tanto por ter inventado o heavy metal ao lado do Black Sabbath, ou por sua competente e tumultuada carreira solo nos anos 1980. O vocalista era mais lembrado, sobretudo pelo público mais jovem, como o pai da família retratada no reality show “The Osbournes”, da MTV.

Com quatro temporadas exibidas originalmente entre 2002 e 2005, o programa mostrava a rotina da família formada por Ozzy, sua esposa e empresária Sharon, e os filhos Kelly e Jack Osbourne. Até mesmo (e especialmente) os conflitos eram mostrados.

Origem e baixa inicial

A ideia de “The Osbournes” surgiu em meados do ano 2000, quando Ozzy Osbourne e sua família apareceram no programa “Cribs”, também da MTV. A atração consistia em mostrar as casas de astros famosos.

Foi nessa ocasião onde muitos descobriram que a família do Madman era tão disfuncional como ele, com direito a uma Kelly fã de Britney Spears e um Jack extremamente sarcástico. Um roteiro ideal para um reality show, formato que começava a ser explorado na TV americana.

Em meio às negociações, a filha mais velha do casal, Aimee Osbourne, se recusou a aparecer no seriado – e chegou a criticar os pais pela exposição à qual estavam se submetendo.

Assistindo à série, fica fácil entender a opinião de Aimee, na época com 19 anos. Ela pretendia seguir carreira na música e achava que o reality show poderia ser um empecilho para sua futura profissão.

Em entrevista à rádio Q104.3, já em 2020, a artista explicou seu ponto de vista:

“Cresci com um pai bem famoso de qualquer forma e sempre valorizei minha privacidade dentro dessa família. Para mim, isso não estava alinhado com o que eu via para meu futuro – até para dar uma chance de me desenvolver como ser humano, em vez de ser lembrada apenas como sendo uma adolescente. Realmente funcionou bem para o restante da família, mas para mim e para quem sou, sabia que não dava para eu considerar aquilo realisticamente.”

Nada disso fez papai e mamãe recuarem: Aimee precisou se mudar para outra casa, pois Ozzy e Sharon estavam decididos a tornar realidade um programa que rompia muitos paradigmas. Afinal de contas, um ídolo do heavy metal poderia ter uma… família?

“Shaaaaaron!!”

As gravações aconteceram em uma época onde Ozzy Osbourne passava por uma recaída em relação ao seu famoso vício em drogas e álcool. Anos depois, Sharon confirmou que o Madman não estava totalmente sóbrio em nenhum episódio do programa, o que obviamente colaborava para o clima de guerra que muitas vezes se estabelecia dentro da casa – sempre diante das câmeras.

A experiência foi traumática para o vocalista, conforme ele destacou em entrevista à Metal Hammer em 2019:

“Se alguém te oferece um monte de dinheiro para estar na televisão, você teria de ser um otário para recusar. Porém, quando você tem uma equipe de câmeras vivendo em sua casa por três anos, veja como você se sente no fim – como uma p#rra de um rato de laboratório. Não importava onde você iria para mijar, você ficava paranoico por ter uma câmera ali.”

A esposa do cantor acabava sendo o único pilar de sustentação da família. Enquanto o marido estava quase sempre chapado, Kelly e Jack eram adolescentes na época e também viviam em uma relação difícil, além de começarem a ter problemas com drogas também nessa época. Os irmãos, vale destacar, protagonizaram algumas das brigas mais impressionantes de toda a série.

Até mesmo Sharon teve seu momento de dificuldade durante a produção do programa. “The Osbournes” mostrou toda a luta da empresária contra um câncer de cólon, fato que abalou ainda mais as já frágeis estruturas da família.

Ela se recuperou da doença, mas ficou evidente que, mesmo sendo a idealizadora do projeto junto com a MTV, a empresária também sofreu muito durante o período.

Mais ou menos real

Apesar de ter sido um reality show pioneiro em seu estilo, a verdade é que nem tudo em “The Osbournes” mostrava a realidade da família. Após o fim da série, todos os envolvidos confirmaram que alguns dos episódios mais absurdos eram ideia da MTV, que não roteirizava as sequências, mas “plantava” situações – um bom exemplo é o clássico da “terapeuta” de cães.

Além disso, o fato de que Ozzy estava sempre “fora do ar” dificultou para que a série tivesse um andamento natural. O vocalista se lembra de gravar uma rotina de exercícios físicos na esteira apenas para terminar as filmagens e ir se drogar e beber escondido, como costumava fazer com frequência durante aquela época.

Houve ainda toda uma questão envolvendo Robert Marcato, um jovem de 18 anos, amigo da família, cuja mãe, Reagan, morreu pouco tempo antes das gravações. Ele passou então a viver com os Osbournes e foi parte do programa, sendo visto como o filho adotivo de Ozzy e Sharon. No entanto, com o fim da série, ele passou por tratamento psiquiátrico e foi morar com seu pai em Rhode Island, no que foi visto como um elemento artificial do show.

O legado de “The Osbournes”

Passados alguns anos do fim de “The Osbournes”, o Madman se mostrou bastante arrependido em relação à forma como o programa foi feito. Em entrevista ao The Quietus, ele reclamou da falta de privacidade com as câmeras e do momento difícil que a família enfrentava enquanto o programa era produzido.

“Você vai para a cama um dia, acorda no outro e o mundo está completamente diferente. Tem malditas câmeras em todo lugar, você é atacado por aquelas coisas. As crianças não suportavam, minha esposa não suportava – ela teve câncer de cólon. Por um lado foi fenomenal, mas por outro, eu tive que assistir minha família sofrer.”

Fato é que a série renovou o público de Ozzy e lançou sua família ao estrelato, inclusive com o início de uma carreira musical para Kelly Osbourne (quem não se lembra daquele cover de “Papa Don’t Preach”, original de Madonna?).

Além disso, o programa se tornou um dos mais populares da grade da MTV e até da TV americana naquele momento, chegando a registrar picos de audiência impressionantes para um canal segmentado. A estreia da segunda temporada, no fim de 2002, obteve 6,6 milhões de espectadores ao vivo – um número bastante expressivo naquele contexto.

Sempre na telinha

Apesar do enorme sucesso, com direito a um prêmio Emmy em 2002, o Madman não acredita que a família voltaria a se aventurar em algo do tipo. Só que os Osbournes nunca mais se distanciaram totalmente da TV.

Após o fim do reality show, em 2009, a família chegou a lançar “Osbournes Reloaded”, uma série de variedades que durou só um episódio.

Em 2010, Sharon Osbourne deu início a uma trajetória de mais de uma década como uma das apresentadoras do talk show “The Talk”. Saiu em 2021, após ser acusada de usar ofensas racistas e homofóbicas contra colegas.

No ano de 2016, veio a série “Ozzy & Jack World’s Detour”, que traz pai e filho em viagens pelo mundo e passou a contar com Kelly na terceira temporada. Já em 2020, a família lançou “The Osbournes Want To Believe”, onde Jack e seus pais investigam fenômenos sobrenaturais.

“The Osbournes” é tido como grande influência em reality shows modernos, especialmente o famoso “Keeping Up With the Kardashians”, que traz o cotidiano da família da modelo e socialite Kim Kardashian. Mas na visão de Sharon, nenhum programa será como o dela e de sua família. Em entrevista coletiva acompanhada por IgorMiranda.com.br, em 2021, ela declarou:

“Quando falamos de realities de famílias, existe uma grande estrutura. É como produzir qualquer outro programa de TV, pois hoje não filmam como filmávamos na época do ‘The Osbournes’. No nosso programa, tínhamos câmeras 24 horas por dia, nos vigiando por todos os lados. Agora, eles têm umas seis semanas para filmar, com tudo pré-determinado, com roteiro. Não é espontâneo, não é orgânico. Já está escrito. Programas como ‘The Osbournes’ ou ‘Anna Nicole Show’ eram reais. Você não tem mais isso, porque sai caro demais e a maioria das famílias são um tanto chatas.”

* Texto por André Luiz Fernandes e Igor Miranda, com pauta e edição por Igor Miranda.

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