10 curiosidades sobre “Killers”, álbum do Iron Maiden lançado em 1981

Embora não fosse possível ter tal concepção na época, este álbum representava, de certa forma, uma transição para a banda

Em 2 de fevereiro de 1981, o Iron Maiden lançava “Killers”, seu segundo álbum de estúdio, no Reino Unido. Meses depois, em 6 de junho, o disco chegou ao público dos Estados Unidos.

Embora não fosse possível ter essa concepção na época, “Killers” era, de certa forma, um álbum de transição do Iron Maiden. E há uma série de motivos para explicar essa ideia.

O primeiro está, claro, na própria música. O bom trabalho de estreia do Maiden, autointitulado “Iron Maiden” e lançado em 1980, trazia uma sonoridade mais visceral, com ligeira influência do punk – ainda que o baixista e líder Steve Harris negue –, e incursões melódicas ainda um pouco desajeitadas.

“Killers” parece ter começado a acertar os ponteiros do Iron Maiden, que passaria por uma evolução considerável nos álbuns seguintes. E aí entra o segundo motivo para ver esse disco como um trabalho de transição: as mudanças na formação, já que foi o primeiro full-length da banda com o guitarrista Adrian Smith e o último com o vocalista Paul Di’Anno.

Fato é que “Killers” amplificou a repercussão do Maiden em outros países, deu início a um trabalho massivo de divulgação do grupo nos Estados Unidos e abriu os caminhos musicais para o que tivemos a chance de ouvir a partir de “The Number of the Beast” (1982), já com Bruce Dickinson no microfone principal.

Listei, a seguir, 10 curiosidades sobre “Killers”, o álbum em que o Iron Maiden começou a encontrar sua fórmula vencedora.

1) A saída de Dennis Stratton

Para se ter uma boa banda, é preciso que todos os integrantes tenham, ao menos, ideias parecidas. Não era o caso do guitarrista Dennis Stratton (na foto acima, o quarto da esquerda para a direita), que não era lá grande fã de heavy metal e curtia sons mais melódicos, até mais “soft”, como Queen, Eagles, George Benson e por aí vai.

Em um texto que consta no site da banda Praying Mantis, Dennis Stratton relembra:

“Eu costumava ouvir coisas como George Benson, Average White Band, Eagles… muito Eagles, apenas para relaxar… Little River Band, você sabe, todas as coisas melódicas. Chegou ao ponto onde estávamos em um hotel e Rod (Smallwood, empresário do Iron Maiden) começou a gritar comigo, dizendo que eu não deveria estar ouvindo este tipo de música. Ao fim de uma turnê abrindo para o Kiss, eu estava ouvindo ‘Soldier of Fortune’ (balada do Deep Purple) em um volume alto, pois estava tomando banho. Rod ouviu e disse: ‘se você vai continuar ouvindo a todas essas coisas lentas e suaves…’. Então, as coisas ficaram meio estranhas.”

Parece um motivo bobo para dispensar um músico que, ao menos até onde pudemos acompanhar, não tocava mal e não atrapalhava a banda. Ainda assim, foi um mal necessário: Stratton foi dispensado ainda em 1980, após a turnê com o Kiss, por essas “diferenças musicais”.

2) Adrian Smith chega ao Iron Maiden

Certamente, Steve Harris e Rod Smallwood já tinham um substituto em mente quando demitiram Dennis Stratton. O nome da vez era Adrian Smith (na foto acima, o primeiro da esquerda), um velho amigo do guitarrista Dave Murray.

Os dois se conheciam desde a adolescência e tocaram juntos, em uma banda de covers chamada Stone Free, na primeira metade da década de 1970. Adrian, curiosamente, era o vocalista do projeto, conforme ele contou em uma recente entrevista a uma rádio:

“Tínhamos uma pequena banda (Stone Free), mas quase não fizemos shows, só tocamos em alguns concursos de talentos e era ok. Tocávamos Santana, Thin Lizzy, ‘Whiskey in the Jar’. Ele conseguia tocar tudo isso e eu era o vocalista, apenas tocando os acordes. Ele já queria ter uma carreira na música e começou a olhar anúncios onde procuravam músicos.”

Foi aí que Dave Murray acabou entrando para o Iron Maiden, em 1976. Adrian Smith seguiu trabalhando com outros projetos, como o Urchin, onde também assumia os vocais. A banda chegou a ter Murray na formação durante uma breve ruptura com o Maiden. À rádio, Adrian contou:

“Ele voltou para a banda Urchin quando brigou com um dos caras do Maiden (em 1977), acho que era o vocalista, Dennis (Wilcock). Ele voltou para essa banda, onde eu tocava, mas aí Steve o convenceu a retornar ao Maiden.”

A chegada de Smith ao Maiden só rolou em 1980. Poderia ter sido antes? Provavelmente. Murray poderia nunca ter voltado à banda de Steve Harris? Se Dennis Wilcock não tivesse sido dispensado pouco tempo depois, talvez não retornaria.

Uma coisa era certa: Adrian e Dave iriam trabalhar juntos em algum momento. Os caras eram amigos e começaram a tocar juntos, conforme Smith relembrou em declaração ao Sonic Perspectives:

“É incrível que Dave Murray e eu tenhamos nos conhecido quando tínhamos uns 15 ou 16 anos de idade. Éramos provavelmente os dois únicos garotos que curtiam hard rock na vizinhança. Descobrimos Deep Purple, Jimi Hendrix e tudo o mais. Nós costumávamos arruinar festas com discos do Deep Purple, quando todos os outros garotos queriam ouvir música pop. Foi aí que descobrimos nosso amor em comum pelo rock.”

3) Martin Birch: o que faltava ao Iron Maiden

Foto: divulgação

Claro que a chegada de Adrian Smith foi importante para o Iron Maiden, já que ele trazia o instinto melódico de Dennis Stratton e o peso que Steve Harris queria. Todavia, é consensual até mesmo entre os integrantes da banda que a chegada do produtor Martin Birch foi primordial para “ajeitar” o Maiden.

O trabalho de Wil Malone, que produziu o álbum de estreia do grupo, não agradou a ninguém. Aliás, Malone caiu de paraquedas no projeto, já que os músicos queriam Martin Birch desde o começo. Porém, o lendário produtor não foi chamado de início porque Steve Harris e Rod Smallwood pensaram que ele era “areia demais” para o caminhãozinho da banda.

Birch começou sua carreira como engenheiro de som, seguindo para a produção algum tempo depois. Na década de 70, o cara trabalhou com Deep Purple, Wishbone Ash, Rainbow, Gary Moore, Fleetwood Mac e por aí vai. Basicamente, a nata de influências do Iron.

As técnicas de gravação do produtor e a forma que ele usava para lidar com os músicos, além das referências compartilhadas, fizeram com que o trabalho em estúdio se acertasse rapidamente em “Killers”. Alguns dos principais timbres e conceitos artísticos encontrados neste álbum foram usados nos trabalhos seguintes – e isso é um mérito da produção.

Infelizmente, Martin nos deixou em agosto de 2020, aos 71 anos. Na época de seu falecimento, Steve Harris comentou:

“Ele era absolutamente brilhante. Ele não era apenas um produtor – era um engenheiro de som também, na prática. Então, ele sabia como obter um ótimo som. Também era fantástico em motivar as pessoas, tinha um jeito de tirar o seu melhor. Era um cara muito legal, divertido, de ótimo senso de humor. Isso fazia com que ele fosse fácil de se trabalhar junto. Todos nos demos bem com ele.”

4) Quase tudo pré-1980

O Iron Maiden não sentiu aquele aperto no coração de ter que compor músicas novas para um segundo álbum após lançar e fazer shows divulgando o primeiro. Antes mesmo de sair o disco de estreia, em 1980, quase todas as músicas de “Killers” estavam prontas – as exceções eram “Murders in the Rue Morgue, inspirada no conto de Edgar Allan Poe, e “Prodigal Son”.

Outro ponto curioso de “Killers” é que quase todas as músicas foram compostas exclusivamente por Steve Harris. Apenas duas faixas têm créditos compartilhados entre Harris e outro integrante: a faixa-título, criada em parceria com Paul Di’Anno, e “Twilight Zone”, que saiu apenas na edição americana do álbum e foi idealizada ao lado de Dave Murray.

Ao menos oficialmente, é assim – e o próximo item explica o “oficialmente”.

5) “The Ides of March” e o Samson

A instrumental que abre o álbum, “The Ides of March”, chama atenção não só por ser a música mais curta do catálogo do Iron Maiden (com 1min48seg). A faixa desperta interesse por ser praticamente igual a “Thunderburst”, lançada pelo Samson no disco “Head On”, de 1980.

Por que isso aconteceu? Calma que há uma explicação (um pouco bizarra) para isso.

Em 1977, o baterista Thunderstick, que se consagrou ao lado do Samson, fez parte do Iron Maiden por um breve período de tempo. Foi nessa época que “Thunderburst” foi composta.

Só não dá para saber de quem exatamente foi a ideia da música, pois enquanto “The Ides of March” credita apenas Steve Harris como autor, “Thunderburst” foi lançada citando Harris e os quatro integrantes do Samson na época como compositores: Thunderstick, o guitarrista Paul Samson, o baixista Chris Aylmer e o vocalista Bruce Bruce (sim, Bruce Dickinson antes de entrar para o Iron Maiden).

6) A capa de “Killers”

Praticamente todas as capas de álbuns do Iron Maiden merecem um subtítulo à parte, já que a banda sempre deu muita importância às ilustrações que estampavam seus discos.

Como no trabalho de estreia, “Killers” também teve sua arte criada por Derek Riggs, ilustrador que ilustrou para o Iron Maiden por décadas. O mascote Eddie voltou a aparecer na imagem, mas com um aspecto bem diferente do primeiro álbum: em vez daquele visual esmirrado, quase como um moleque de rua que comete pequenos delitos, o Ed de “Killers” é realmente um assassino, como o título indica.

Em entrevista à revista Revolver, Derek Riggs conta que criou um rascunho da imagem que aparecia no álbum “Killers” cerca de 3 anos antes da arte final, lançada junto ao álbum em 1981.

“Nunca me sentei e disse: ‘agora vou fazer Eddie se parecer assim ou daquele jeito’. Sou muito espontâneo quando crio uma imagem – às vezes nem mesmo uso um esboço para começar. Preencho o espaço e depois começo a colocar as coisas nele. Eddie tem um machado porque ele é um ‘machado’ – é um trocadilho com o termo para guitarrista de rock and roll (nota: lá fora, chamam ‘guitarra’ de ‘axe’). O cabelo ficou meio Farrah Fawcett, mas estava tudo bem para aquela época, porque havia esse tipo de moda de cabelos grandes e armados entre as bandas de rock, então as pessoas não notavam. Mas, de verdade, sou só eu inventando à medida que prossigo. Eddie não foi ‘desenvolvido’, Eddie apenas está lá.”

7) Singles mal escolhidos?

Embora seja difícil elencar músicas “fracas” nesses trabalhos iniciais do Iron Maiden, não dá para negar que a banda não escolheu bem os singles de “Killers”. As músicas de trabalho do disco foram “Twilight Zone” (que só constava na edição americana para privilegiar o compacto no Reino Unido) e “Purgatory”.

Cá entre nós: essas não são, nem de longe, as melhores músicas de um álbum que tem clássicos como “Wrathchild”, “Murders in the Rue Morgue” e a faixa-título. Não à toa, deixaram de ser tocadas nos shows já em 1981.

Ainda assim, por algum motivo, foram escolhidas como singles. E não deu tão certo, já que “Twilight Zone” atingiu a 31ª posição das paradas do Reino Unido e “Purgatory” nem entrou no top 50, chegando à 52ª colocação.

A falta de um bom single também comprometeu as vendas iniciais do álbum: diferentemente do disco de estreia, que chegou à 4ª posição das paradas britânicas, “Killers” parou no 12º lugar.

8) Estreia do Iron Maiden nos Estados Unidos

No embalo do sucesso na Europa, o Iron Maiden resolveu se arriscar ao agendar uma turnê pelos Estados Unidos – a primeira da carreira deles. Fazia parte do plano de dominação mundial traçado por Steve Harris e Rod Smallwood.

Eles voltaram a abrir shows para o Judas Priest naquela tour, apesar da rixa entre as duas bandas iniciada em 1980. Foram, ao todo, 40 apresentações em território americano entre junho e agosto de 1981 – além de duas performances no Canadá, em 19 e 21 de junho.

No continente europeu, eles se apresentaram especialmente no Reino Unido, na França e na Itália. Deu, ainda, para realizar cinco shows no Japão, no mês de maio, que foram retratados no material ao vivo “Maiden Japan”.

9) A demissão de Paul Di’Anno

As tensões entre Paul Di’Anno e os demais colegas de banda aumentaram consideravelmente durante a turnê que promovia “Killers”. O vocalista se afundou no vício em drogas, especialmente cocaína, e não estava cuidando de sua saúde, o que se refletiu em sua voz – e causou o cancelamento de alguns shows.

O Maiden pegou pesado na divulgação de “Killers”, com mais de 130 shows em três continentes diferentes no período de 10 meses, e Di’Anno claramente não estava preparado para uma agenda de trabalho mais intensa. Nunca esteve, na verdade.

Em recente entrevista ao Eon Music, o vocalista reconheceu:

“Gostei muito do segundo álbum (‘Killers’), mas não me impactou tanto quanto o primeiro. Não pude dar 100% de mim, o que não era justo com a banda, os fãs ou comigo. E, sim, eu estava tentando achar outras formas de fazer aquilo ser empolgante na estrada e, sim, tive problemas com cocaína.”

O cantor destacou que sua situação com drogas “não foi tão ruim como muitas pessoas dizem”.

“No fim das contas, quando se tem uma máquina como o Iron Maiden, se uma parte da engrenagem dá errado, tudo acaba caindo por terra. E eu não estava preparado para o Maiden passar por aquilo, nem estava preparando para eu mesmo passar por aquilo. Citei que não estava feliz, conversamos e foi isso. Rompemos de forma amigável.”

Apesar do citado “rompimento amigável”, o vocalista já comparou Rod Smallwood e Steve Harris aos ditadores Benito Mussolini e Adolf Hitler em entrevistas. Ele também atribuía sua saída à sua “personalidade forte”, o que causaria brigas entre Harris e ele.

E uma observação curiosa: por ter feito um acordo financeiro ao sair, Paul Di’Anno não recebe nenhum centavo de direito autoral do Iron Maiden.

10) Bruce Dickinson adora “Killers”

Paul Di’Anno disse que gosta mais do álbum de estreia do que de “Killers”. Seu substituto, Bruce Dickinson, prefere o segundo disco.

Em entrevista à Metal Hammer, ele comentou:

“‘Killers’, em especial, é um favorito meu. A sonoridade daquele álbum é realmente a sonoridade que deveria estar no primeiro álbum do Iron Maiden.”

Se Bruce falou, está falado, né?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Posts Relacionados
Total
72
Share