Foto: divulgação

Bon Jovi soa mais relevante e menos perdido no álbum ‘2020’; ouça e leia resenha

O Bon Jovi lançou seu 15° álbum de estúdio, intitulado ‘2020’, que chega carregado de mensagens de tom social e até mesmo político. Musicalmente, a banda soa menos artificial e parece ter uma rota artística melhor traçada desta vez.

O Bon Jovi lançou seu 15° álbum de estúdio nesta sexta-feira (2). Intitulado ‘Bon Jovi: 2020’, ou apenas ‘2020’, o disco saiu pela Island Records / Universal Music Group.

Gravado em março de 2019, o álbum ‘2020’ sairia originalmente em maio deste ano, mas foi adiado para outubro devido à pandemia. Com a alteração de data, foram feitas duas mudanças na tracklist: ‘Do What You Can’ e ‘American Reckoning’, compostas nos últimos meses, substituíram ‘Luv Can’ e ‘Shine’, que estavam na lista original.

Em entrevistas, o vocalista Jon Bon Jovi tem adiantado que ‘2020’ seria um álbum de temática mais política – ou, na expressão usada por ele, “consciência social”. Em contraponto, o álbum anterior, ‘This House Is Not For Sale’ (2016), abordava questões pessoais.

‘American Reckoning’, por exemplo, faz referência ao assassinato de George Floyd, um negro americano sufocado por um policial, bem como os protestos subsequentes que pedem igualdade racial. A pauta do racismo também é destacada em ‘Brothers in Arms’, abordando as manifestações do atleta de futebol americano Colin Kaepernick contra o preconceito.

Já ‘Unbroken’, que fecha a tracklist’, trata do transtorno de estresse pós-traumático entre veteranos de guerra. A canção faz parte da trilha sonora de um documentário sobre o assunto, ‘To Be Service’, da Netflix, e foi liberada como o primeiro single de ‘2020’.

Além de Jon Bon Jovi, a formação traz Phil X na guitarra solo, Hugh McDonald no baixo, Tico Torres na bateria e David Bryan nos teclados. Além disso, dois músicos de turnê foram integrados ao disco: John Shanks na guitarra (além da produção, posto que ele assume há décadas nos álbuns da banda) e Everett Bradley na percussão.

Ouça ‘2020’ abaixo, via Spotify ou YouTube (playlist). A resenha pode ser conferida a seguir.

‘2020’ traz Bon Jovi consciente, atualizado e em progresso

A trajetória do Bon Jovi no século 21, certamente, divide a opinião dos fãs. A banda sempre mudou sua sonoridade e buscou estar atual perante às estéticas do momento, mas na última década, especialmente, o grupo pareceu ter perdido um pouco de sua identidade – ainda que continuasse com boas vendas e shows lotados.

Em um olhar mais frio, o álbum ‘Crush’ (2000) já começou a mostrar um Bon Jovi mais oscilante, mas o hit ‘It’s My Life’ disfarçou um pouco esse fator. Os seguintes ‘Bounce’ (2002) e ‘Have a Nice Day’ (2005) também trouxeram bons singles e ‘Lost Highway’ (2007), com influência country, talvez seja o último sopro de criatividade da banda.

A partir de ‘The Circle’ (2009), a coisa degringolou de vez. ‘What About Now’ (2013) e as demos perdidas de ‘Burning Bridges’ (2015) são intragáveis. ‘This House Is Not For Sale’ (2016) ensaia uma retomada de foco, mas cheia de tropeços.

As lições do álbum passado, que agradou um pouco mais por trazer uma ideia artística mais sólida, parecem ter servido para ‘2020’. Aqui, além das válidas e contemporâneas reflexões políticas nas letras, o Bon Jovi pareceu distanciar-se um pouco mais da tentativa incessante de emular o pop rock de nomes como Coldplay e Imagine Dragons que se via nos trabalhos menos inspirados do grupo.

Esses momentos mais artificiais ainda existem por aqui. São os tropeços mais evidentes de um álbum que poderia ser melhor se seguisse a linha de suas faixas mais honestas.

Nas letras, Jon Bon Jovi está cada vez mais inspirado em Bruce Springsteen. Falta um pouco do talento do ‘The Boss’ em contar histórias envolventes, mas Jon surpreende com reflexões que vão além do óbvio.

O cantor, aliás, reforça que ‘2020’ não é um álbum “político”, mas, sim, “tópico”, pois ele diz “não tomar partido”. “Tentei me considerar uma testemunha da história. E se eu estava só testemunhando, podia registrar os fatos e talvez fazer uma pergunta. Mas quis parar por aí”, afirmou ele, que sentiu ter “baixado a guarda” para as críticas. “(Mas) o que importa é que você fale”, completou, em entrevista à ‘Reuters’.

Musicalmente, é importante destacar que ‘2020’ não começa bem. ‘Limitless’, faixa de abertura, ainda traz resquícios da eterna pretensão da banda em construir um hit fácil. Típico “hino coxinha”, a música é extremamente formulática e abusa de uma melodia clichê.

‘Do What You Can’, de ligeira influência country, também aposta nos clichês, mas é um pouco menos desanimadora. A letra foi composta por Jon durante a pandemia após tirar um tempo para trabalhar em um de seus restaurantes comunitários, o JBJ Soul Kitchen. Envolveu ações de divulgação bem legais, onde fãs enviavam suas versões para a composição, mas a faixa, embora não seja incômoda, também não é memorável.

‘American Reckoning’, por sua vez, é um dos destaques. A letra reflexiva, que, conforme já destacado, aborda a morte de George Floyd por um policial americano e os protestos por igualdade racial, é temperada por um arranjo básico e minimalista no violão.

Em seguida, ‘Beautiful Drug’ faz referência aos tempos dos álbuns ‘Crush’ e ‘Bounce’, quando o formato pop rock da banda tinha uma veia mais tradicional. Mediana. Outra balada, ‘Story of Love’, surge para dar um gás na audição: com arranjos de bom gosto, a faixa é conduzida por violão, piano e discretas cordas ao fundo, com direito a um ótimo (e raro) solo de guitarra.

A partir daqui, o álbum entra em uma crescente. ‘Let it Rain’ (não confundir com a parceria de Jon com Luciano Pavarotti, dos anos 90) é um pop rock mais azeitado, que foge dos tons e construções óbvias vistas no início do álbum. ‘Lower the Flag’, que aborda vários tiroteios em massa ocorridos nos Estados Unidos, de Columbine a El Paso, convence pela letra bem composta e, novamente, pelo formato minimalista, conduzido por violão e com arranjos e backing vocals bem colocados.

‘Blood in the Water’, lentinha, chama atenção pelos licks e solo de guitarra que remetem de forma instantânea aos bons momentos de Richie Sambora, além da letra que repudia a xenofobia – outro tema tão discutido nos Estados Unidos de hoje. Bom momento.

‘Brothers in Arms’, próxima do fim, volta a refletir sobre a desigualdade racial em uma das músicas que masi remetem ao “velho Bon Jovi”. A pegada mais classic rock faria com que essa faixa se encaixasse no álbum ‘Keep the Faith’ (1992), um dos melhores da banda. Uma pena que ‘Unbroken’, no encerramento, não segure a peteca – apesar da nobreza da mensagem, reflexiva sobre o estresse pós-traumático entre veteranos de guerra, a canção como um todo soa como se Ed Sheeran chegasse deslocado à sua meia-idade.

No geral, ‘2020’ tem altos e baixos, como todo álbum do Bon Jovi desde ‘These Days’ (1995), mas é mais sincero e consistente do que muitos trabalhos da banda desde então. Sinto que os tropeços desse disco estão relacionados com a forma de trabalhar, que parece cada vez mais concentrada em Jon Bon Jovi. Há poucos momentos de destaque dos demais integrantes – tanto que eles mal são citados na resenha.

A individualidade de Jon garantiu um bom trabalho em termos de letras, mas que tropeça em faixas como ‘Limitless’ e ‘Do What You Can’, formatadas demais até mesmo para uma banda que sempre foi pop rock – mesmo nos anos 80. Por sorte, esses momentos são um pouco mais raros nesse disco em comparação ao passado recente do grupo. ‘2020’, ainda que não seja tão bom, sai melhor do que a encomenda.

Bon Jovi – ‘2020’

Jon Bon Jovi (vocal, violão, gaita)
Phil X (guitarra)
Hugh McDonald (baixo)
Tico Torres (bateria)
David Bryan (teclados, piano)
John Shanks (guitarra rítmica)
Everett Bradley (percussão)

1. Limitless
2. Do What You Can
3. American Reckoning
4. Beautiful Drug
5. Story Of Love
6. Let It Rain
7. Lower The Flag
8. Blood In The Water
9. Brothers In Arms
10. Unbroken

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