Não era para ser uma turnê tão grande. Mas não tinha como ser diferente a celebração dos 30 anos de “Mandylion”, terceiro álbum do The Gathering, que marcou a estreia da vocalista Anneke van Giersbergen na banda neerlandesa. O público da Audio, em São Paulo, na noite da última quinta-feira (15), pôde ver — e mostrar — o porquê.
Em uma apresentação de quase duas horas, o grupo executou praticamente na íntegra o disco lançado em agosto de 1995. Os demais trabalhos do período encabeçado pela cantora também foram representados para uma pista que se emocionava a cada música, como se tivesse esperado por esse momento nas últimas três décadas. Ou, pelo menos, nos vinte anos desde a única vez que tocaram juntos no Brasil.

Reunião que ganhou proporções globais
A formação que gravou “Mandylion” anunciou uma reunião para, inicialmente, duas apresentações em Nijmegen, cidade natal do grupo, para coincidir com a efeméride do trigésimo aniversário ao fim de agosto de 2025. Os ingressos se esgotaram tão rápido que mais três datas foram adicionadas na mesma semana. Como aquecimento, um show foi encaixado dois meses antes no tradicional clube Dynamo, em Eindhoven.
A demanda internacional explodiu e, para 2026, a banda agendou quase 30 compromissos. Entre festivais tradicionais europeus — incluídos Sweden Rock, Hellfest, Graspop e Wacken —, alguns shows próprios, como a única data brasileira, um dos últimos compromissos deste giro celebratório.

Se a estreia do grupo no Brasil não atraiu tanta gente naquela curta semana pós-carnaval no enorme Via Funchal em 2006, a Audio, com metade da capacidade da extinta casa paulistana, esteve bem cheia duas décadas depois, com público claramente não tão jovem e vindo de várias regiões do país.
Nesse intervalo, The Gathering voltou outras duas vezes ao Brasil, já com a vocalista Silje Wergeland. Anneke, antes da pandemia de covid-19, havia se tornado figurinha carimbada por essas terras, em constantes visitas com sua carreira solo ou seus inúmeros projetos. O apelo das apresentações, inegável, sempre esteve nas músicas dos discos que banda e cantora lançaram juntos entre 1994 e 2007.

O disco que mudou a trajetória do The Gathering
Ainda que os trabalhos tenham apostado em sonoridades variadas durante os 13 anos de parceria, “Mandylion” se manteve o mais especial deles, como a turnê de celebração acabou provando. O terceiro disco de The Gathering foi lançado numa época em que nomes clássicos do metal passavam por crise de identidade e popularidade. Mesmo os estilos extremos, outrora inovadores, já perdiam seu apelo.

Num underground da música pesada tomado por experimentalismos, a sonoridade atmosférica foi incorporada ao doom metal que caracterizava os primórdios do grupo. Deixando de lado a agressividade dos urros masculinos em contraponto à delicada voz feminina dos primeiros dois álbuns, Anneke van Giersbergen assumiu sozinha a posição de cantora e consolidou-se como figura central. Assim, também se tornou um dos marcos no aumento da participação das mulheres em um estilo masculinizado no qual ainda eram exceções.
Nada disso, no entanto, teria conquistado qualquer importância se “Mandylion” não tivesse composições que por si só provaram seu valor. E o show em São Paulo mostrou que, mais de 30 anos depois, elas continuam funcionando. Exceto pela faixa-título — que teve um pequeno trecho usado como introdução, exatamente às 21h —, a execução de todas as demais músicas de “Mandylion” foi dividida em dois blocos.
“Eléanor” trouxe a catarse inicial com coros do público, que batia palmas e acompanhava empolgado as mudanças de andamento. O riff pesado de “Fear the Sea” se contrapôs ao delicado tom alto de Anneke, ainda com um domínio absoluto de sua voz, numa faixa marcada pela interação entre os guitarristas René Rutten, chefão da banda, solitário à direita de Anneke, e Jelmer Wiersma,outro regresso para a turnê celebratória.
Bastaram as primeiras notas de Frank Boeijen ao teclado para que “In Motion #1” gerasse nova comoção na Audio, culminando com a cantoria ainda mais intensa já permeada por lágrimas em vários rostos no refrão da balada. Mal tinha vinte minutos de show.

Músicas que atravessam gerações
Após a trinca inicial de “Mandylion”, o repertório foi recheado por faixas dos demais discos com a vocalista. “On Most Surfaces (Inuït)”, de “Nighttime Birds”, trabalho seguinte lançado em 1997, não mudou tanto a atmosfera nem da potência de Anneke, nem do som que vinha cristalino do palco. A resposta permanecia efusiva na pista.
“Broken Glass” e “Waking Hour”, ambas inicialmente marcadas por um clima ainda mais introspectivo, mostraram a expansão da sonoridade de The Gathering nos dois últimos registros com Anneke. A explosão instrumental típica do post-rock na canção de “Souvenirs” (2003) e o crescendo vocal impressionante na canção de “Home” (2006), único disco registrado sem o baixista Hugo Prinsen Geerligs, serviam como elos de identidade.

Essas mudanças se tornaram mais evidentes em “How to Measure a Planet?” (1998), álbum duplo que teve duas músicas executadas na sequência. “Probably Built in the Fifties”, conduzida pelo groove de bateria de Hans Rutten, deu lugar a “Liberty Bell”, executada pela primeira vez nesta turnê celebratória.
Se o trabalho chegou a dividir opiniões entre os fãs ao fim dos anos 1990, a resposta empolgada mostrou como as músicas envelheceram bem. A intimista “Analog Park”, de “if_then_else” (2000), encerrou o passeio pela discografia conjunta de uma dançante Anneke com a banda, antes do retorno ao disco festejado.

Trinta anos depois, a magia permanece
A cantora, com seu carisma que transparece inocência e alegria contagiantes, anunciou “In Motion #2” como uma das faixas favoritas de “Mandylion”. Assim como “Leaves”, as duas músicas conseguiram aumentar o clima catártico da trinca inicial. Sob coros ainda maiores, era difícil encontrar um rosto incólume ao momento na Audio.
A viajante “Sand and Mercury” serviu como respiro emocional, iluminada por lanternas de celulares na pista quando Anneke van Giersbergen retornou ao palco após sua longa sessão instrumental. “Strange Machines”, faixa de abertura do disco, foi deixada para o final apoteótico da parte principal da apresentação, de tão icônica que é. E teve reação à altura do clássico que se tornou nas décadas vindouras.
O retorno ao bis veio com a longa “Travel”, uma autêntica viagem que fechava o primeiro disco de “How to Measure a Planet?”. O clima relaxado se tornou mais saltitante com “Third Chance”, de “Nighttime Birds”, uma surpresa no repertório, incluída pela primeira vez no show do Brasil.
“Saturnine”, de “if_then_else”, encerrou a apresentação com o público não apenas acompanhando e até encobrindo a voz de Anneke em seu refrão. Os coros da melodia principal da música vieram logo ao início de sua batida inicial e não cessaram mesmo quando a banda se despedia no palco, faltando poucos minutos para 23h.

A celebração dos trinta anos de “Mandylion” tem encerramento programado para janeiro próximo, em Amsterdã, com uma apresentação comemorando também as três décadas prestes a se completarem de “Nighttime Birds”.
Nem The Gathering, hoje oficialmente sem vocalista, nem Anneke, em sua prolífica carreira solo, dão a entender que permanecerão na trilha nostálgica para celebrar o trabalho seguinte. A reação entusiasmada provou que não vai faltar público se os planos mudarem. Não vai apagar, no entanto, o quão especial foi a noite paulistana.

The Gathering — ao vivo em São Paulo
- Local: Audio
- Data: 15 de outubro de 2026
- Turnê: Mandylion Anniversary Tour 2026,
- Produção: Honorsounds
Repertório:
- Mandylion (usada como intro) + Eléanor
- Fear the Sea
- In Motion #1
- On Most Surfaces (Inuït)
- Broken Glass
- Waking Hour
- Probably Built in the Fifties
- Liberty Bell
- Analog Park
- In Motion #2
- Leaves
- Sand and Mercury
- Strange Machines
Bis: - Travel
- Third Chance
- Saturnine

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