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Amorphis transforma melancolia e peso em experiência singular em SP

Em sua sexta passagem pelo Brasil, banda finlandesa agradou público ao privilegiar a sonoridade contemporânea, com breves incursões pelas raízes extremas

Era a última música anunciada do show, após uma hora e quinze minutos desde que o Amorphis havia subido ao palco de um Carioca Club cheio, mas não lotado. Tomi Joutsen, frontman da banda há mais de vinte anos, introduziu “House of Sleep”, faixa de “Eclipse”, disco lançado em 2006. A cada refrão, o instrumental parava e permitia ao público cantá-lo sozinho.

Apesar de um carisma imponente, Joutsen não estava na formação dos trabalhos icônicos de meados dos anos 1990 que garantiram ao Amorphis uma carreira longeva. Sua entrada, no entanto, marcou o início de uma fase de estabilidade e maturidade para os finlandeses, uma das principais responsáveis — ou culpadas, como prefiram — pelo surgimento do folk metal.

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Foi com base nessas duas décadas mais recentes que o grupo montou o repertório da apresentação em São Paulo, última das três datas da turnê brasileira e sua sexta passagem pelo país. A reação a “House of Sleep” confirmou a empolgação demonstrada ao longo da noite de domingo (18) e culminou em gritos de guerra nos quais a galera aportuguesava o nome da banda para fazê-lo rimar.

A identidade construída ao longo de duas décadas

A primeira parte do show foi dedicada à fase mais recente, com três faixas do álbum mais recente, “Borderland” (2025). Os músicos entraram animados com a batida quase marcial de “Bones”. Logo na sequência, com “Light and Shadow”, a principal característica deste Amorphis contemporâneo se fez presente: a simbiose entre as linhas de teclado de Santeri Kallio, desde 1999 na banda, e o guitarrista Esa Holopainen, com seus licks e solos ligeiramente psicodélicos.

Ainda sem dar respiro, “Silver Bride” gerou o primeiro coro massivo do público para o refrão da música de “Skyforger”, de 2009, que seguiu respondendo bem a músicas como “Wrong Direction”, de “Queen of Time” (2018) e “Death of a King”, de “Under the Red Cloud” (2015).

Tomi Joutsen, com sua rara capacidade de alternar com eloquência os vocais agressivos e um canto melódico emotivo, comandou o palco em cima de uma pequena plataforma. Ao seu lado, Pyry Hanski, baixista que substitui na estrada o fundador Olli-Pekka Laine, fazia seu redemoinho com os cabelos. Nas extremidades, os também fundadores Tomi Koivusaari e Holopainen empunhavam suas guitarras, ambos com as longas madeixas presas. Ao fundo, Jan Rechberger, baterista da formação original, dividia o espaço com os teclados de Kallio.

De volta às raízes do mil lagos

Após “Fog to Fog”, quase uma valsinha que não ficaria deslocada em um disco mais recente do Iron Maiden, as luzes se apagaram e a introdução “Thousand Lakes” foi executada pelo PA do Carioca Club. O tema abre o disco quase homônimo, “Tales from the Thousand Lakes” (1994), e foi a deixa para um resgate de sua história sem tornar o show nostálgico nessa segunda parte do repertório.

“The Castaway” trouxe as melodias típicas do folk metal intercaladas com as pausas para os gritos do público, como se estivesse batendo canecas em uma taberna. A aparente alegria, no entanto, contrasta com a melancolia da letra. Essa tensão ganhou força quando a banda interrompeu sua execução na transição para o solo lento, próximo ao fim da música.

O show então trouxe ao Carioca Club a atmosfera sombria do inverno finlandês. A lentidão de “The Lantern”, a densidade introspectiva de “The Moon” e as melancólicas linhas de piano de “Sampo” e “The Smoke” evidenciaram como os finlandeses conciliaram sua sonoridade atual com as raízes da carreira.

Foto de celular: Thiago Zuma

Naquela fase inicial, o Amorphis explorava uma combinação singular de doom e death metal, incorporando gradualmente elementos do folk inspirado na tradição popular de seu país natal, preservada em obras como “Kalevala” e “Kanteletar”, coletâneas de poemas e narrativas orais compiladas por Elias Lönnrot.

Na noite paulistana de domingo, a extremidade de outrora permanecia apenas nos vocais mais agressivos de Joutsen. Mais melódicos, psicodélicos e intrincados do que há trinta anos, os arranjos de Holopainen conferiam beleza à atmosfera densa criada por Kallio. Rechberger, Koivusaari e Hanski seguravam com peso e precisão a seção rítmica, sem dar a sensação de perda de espontaneidade.

A seção intermediária se encerrou com emotiva “Black Winter Day”, a mais festejada faixa do álbum de 1994, precedida por um trecho de “Magic and Mayhem”, do mesmo disco. O momento foi prolongado pela execução da parte instrumental melódica de “My Kantele”, clássico de “Elegy”, álbum aclamado em seu lançamento em 1996, mas que teve sua efeméride de 30 anos ignorada na turnê atual.

Encerramento fora do convencional

Antes do bis, “Dancing Shadow”, faixa recente de ritmo quase industrial, amenizou a atmosfera. Em seguida, “House of Sleep” encerrou o repertório principal em tom apoteótico. O Amorphis não demorou a voltar ao palco: uma breve introdução nas caixas de som anunciou o retorno dos músicos. “The Bee”, faixa relativamente recente na discografia do grupo, foi lançada apenas em 2018, mas se consolidou como música de encerramento nas turnês posteriores.

Com sua atmosfera tensa e tempos estranhos, a música de “Queen of Time” convidou a bater cabeça, não à euforia de fim de festa. Enquanto Holopainen e Kallio desenvolviam o arranjo épico, que remete tanto ao Rainbow quanto à identidade construída ao longo da carreira, o público acompanhou Joutsen em uníssono ao cantar o refrão dramático. Não foi um encerramento convencional para um show de heavy metal, mas uma síntese precisa da singularidade que o Amorphis demonstrou durante uma hora e meia no Carioca Club.

Throw me to the Wolves

A abertura ficou a cargo da banda paulista Throw me to the Wolves, prejudicada pela péssima qualidade do som. Os graves do bumbo da bateria de Maycon Phantoms, excessivamente altos, se sobrepunham aos demais instrumentos e dificultavam a percepção das nuances do melodeath que o grupo já havia demonstrado em apresentações anteriores.

Prestes a iniciar as gravações de um novo álbum, o quarteto apresentou duas composições inéditas no Carioca Club, “Angels Fall” e “Forsaken Fears”, em um set de quase 40 minutos. Embora tenha atendido a alguns dos apelos do vocalista Diogo Nunes, o público pouco reagiu à performance dos músicos, espremidos à frente do palco.

Amorphis — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 18 de outubro de 2026
  • Turnê: Borderland
  • Produção: Honorsounds

Repertório:

  1. Bones
  2. Light and Shadow
  3. Silver Bride
  4. Wrong Direction
  5. Death of a King
  6. Fog to Fog
  7. Thousand Lakes
  8. The Castaway
  9. The Lantern
  10. The Moon
  11. Sampo
  12. The Smoke
  13. Magic and Mayhem (trecho)
  14. Black Winter Day
  15. My Kantele (trecho)
  16. Dancing Shadow
  17. House of Sleep
    Bis:
  18. The Bee

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Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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