Tudo começou como um projeto conceitual de synth-pop bizarro no YouTube, com uma persona que simulava uma inteligência artificial ou um robô. O som foi ficando gradativamente mais pesado, fundindo uma estética pop fofa, o tal do kawaii, a riffs de guitarra brutais, enquanto vocais agudos, “doces” e robóticos passaram a dividir espaço com guturais rasgados, surpreendentemente potentes e agressivos. A responsável por essa imprevisibilidade camaleônica é Moriah Rose Pereira, a Poppy, uma cantora que, desde o princípio, sacou que o futuro é multimídia e que o viral se tornou um dos indicadores de sucesso.
A passagem de domingo (5) pelo Rock in Rio 2026 foi a terceira da moça pelo Brasil — depois da estreia no Knotfest de 2024 e da participação na turnê do Linkin Park em 2025 — e ainda não inventaram um rótulo capaz de contemplar todos os cantos de sua sonoridade. A principal referência para comparação talvez seja o Babymetal, não obstante a veia mais industrial e ocidental, que também remete ao choque estético de Nine Inch Nails e Marilyn Manson.
A afinação rebaixada dos instrumentos permite associações ao nu metal dos anos 2000, enquanto o visual adotado por Johnuel Hasney (guitarra), Jake Massanari (baixo) e Ralph Alexander (bateria) é totalmente Slipknot: máscaras, uniformidade e uma espécie de anonimato programado que desloca o foco do indivíduo para a engrenagem.
De alguma forma, Poppy consegue fazer com que tudo isso não pareça forçado ou caricatural — ao menos no fone de ouvido. Ao vivo, porém, a coisa muda de figura. Tudo é tão perfeito, tão milimétrico, tão cirurgicamente encaixado que, você sabe, PARECE… Não cabe ao cronista musical fazer juízo de valor, tampouco levantar falso testemunho e muito menos comprar uma briga daquelas com o que, pelo que se viu, é uma base de fãs das mais dedicadas — e, até por isso, mais inclinadas à complacência. Mas não ajuda o fato de Poppy cobrir o microfone com as mãos e cantar tão colada a ele que mal dá para enxergar sua expressão ou o esforço empregado para alcançar as notas.
O histórico tampouco depõe inteiramente a seu favor. No Knotfest, a apresentação já havia provocado questionamentos sobre a dependência de efeitos e elementos pré-gravados, além da pouca interação com o público. Houve até quem se perguntasse se a artista estava cantando ou dublando em determinados momentos.
A fronteira entre conceito e artifício pela qual Poppy trafegou no Rock in Rio 2026 ficou estreita demais. Quando a execução é tão impecável que parece ter sido pré-renderizada, a pergunta deixa de ser “que música é essa?” e passa a ser “o que, exatamente, estou vendo?”.
Setlist Poppy
- have you had enough?
- the cost of giving up
- Concrete
- Bruised Sky
- Scary Mask
- crystallized
- vital
- Public Domain
- Time Will Tell
- V.A.N. (parceria com Bad Omens)
- If We’re Following the Light
- new way out
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