Chamemos de “efeito Titãs”. É natural que, após um empreendimento tão bem-sucedido, ideias comecem a fervilhar e, uma a uma, tomem forma, seguindo formato semelhante e sob a mesma altíssima expectativa. Se bem que um “encontro” da formação original do Barão Vermelho — “os quatro caras que começaram a banda lá atrás, em 1981, com Cazuza”, nas palavras de Roberto Frejat — situa-se em outro nível de complexidade e, por conseguinte, de experiência como um todo.
Não que ver o cantor e guitarrista — ausente desde 2013 — com Guto Goffi (bateria), Maurício Barros (teclados) e Dé Palmeira (baixo; fora desde 1989) não seja, por si só, um grande atrativo. Mas a impressão deixada pela noite de estreia da turnê realizada pela 30e, na Farmasi Arena, na última quinta-feira (30), no Rio de Janeiro, é de que o diferencial em relação a um show solo de Frejat ou à atual fase do Barão com Rodrigo Suricato esteve na estrutura colossal e altamente tecnológica, na participação de Ney Matogrosso e em um público que correspondeu em adesão e volume ao espetáculo apresentado.

Isso porque, ao longo das mais de duas horas de duração (iniciadas com meia hora de atraso), o repertório do chamado Barão Vermelho Encontro foi composto em predominância por canções que seguem presentes em ambas as fases da banda. Ainda assim, diante de uma multidão, a força desse material é elevada à enésima potência. Bastava observar o público, majoritariamente de meia-idade, para perceber como a nostalgia segue sendo um dos elementos mais eficientes em shows de grande porte.

O palco de dois níveis se estendia praticamente de uma lateral à outra da arena. À frente, da esquerda para a direita, estavam Maurício, Frejat e Dé, vestidos à altura da ocasião. Atrás, Guto se projetava sobre o segundo nível, que abrigava os músicos de apoio: Rafael Frejat nos violões, guitarras e backing vocals; Jussara Lourenço nos vocais de apoio; Fernando Magalhães na segunda guitarra, o percussionista Cesinha — irmão de Peninha, que ocupou o posto por 35 anos — e o trio de metais formado por Zé Carlos Bigorna (sax), Diogo Gomes (trompete) e Marlon Sette (trombone).
Ao fundo, quatro telões gigantescos exibiam, salvo exceções, imagens de Maurício, Frejat, Guto e Dé. Entre os momentos especiais, “Todo Amor Que Houver Nessa Vida” trouxe registros de Cazuza, promovendo uma participação in memoriam; “Meus Bons Amigos” apresentou registros do Barão em seus primórdios ao lado de figuras fundamentais como Ezequiel Neves e João Araújo; e “Cuidado” atualizou sua mensagem ao substituir logomarcas conhecidas pelo título da canção durante o refrão.

Chama atenção a quantidade de clássicos do set que, na verdade, não nasceram no repertório do Barão: “Jardins da Babilônia”, “Amor Meu Grande Amor”, “Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto” e até “Malandragem Dá um Tempo”, cantada por Maurício e dedicada a José Frejat, pai de Roberto falecido cinco dias antes. Mas pouco importa a origem — Frejat levanta a bola e o público, craque, manda para o fundo do gol. Foi assim do início ao fim: letras na ponta da língua e catarse coletiva.
“Down em Mim”, o “hino dos bares”, segue como um dos pontos altos, com sua letra afiada e um dos solos mais marcantes da carreira de Frejat, executado praticamente nota a nota. O guitarrista, aliás, segue entre os melhores em atividade, abrindo espaço para Fernando Magalhães brilhar em “O Poeta Está Vivo”, já no bis. “Torre de Babel” também ganhou contextualização — e o fato de ter sido composta para um especial infantil rendeu boas risadas.

E houve Ney Matogrosso. Em nada menos que sete músicas.
Aos 84 anos, trajado como o rock star que é, Ney monopolizou atenções. Sua presença tem algo de mítico, e sua importância para a música brasileira é incontestável. A voz segue impressionante, embora a performance tenha sido mais contida — possivelmente pela dinâmica do espetáculo ou pela necessidade de acompanhar letras em um apoio visual discreto. Em alguns momentos, brilhou intensamente, como em “Blues da Piedade”; em outros, houve certo desencontro, caso de “Exagerado”. Nada, porém, que diminuísse a recepção calorosa do público.

Ney retornaria no bis, sendo engolido pela avalanche sonora de “Por Que a Gente é Assim?” e retomando o protagonismo com naturalidade em “Pro Dia Nascer Feliz”, faixa que, curiosamente, fez o caminho inverso ao migrar do Barão para sua carreira solo — e, assim, ultrapassar fronteiras.
*A turnê Barão Vermelho Encontro passará também por São Paulo (23/05), Porto Alegre (27/06), Florianópolis (08/08), Curitiba (29/08) e Belo Horizonte (26/09).

Barão Vermelho Encontro — ao vivo no Rio de Janeiro
- Local: Farmasi Arena
- Data: 30 de abril de 2026
- Turnê: Encontro – Pro Mundo Inteiro Acordar
- Produção: 30e
Repertório:
- Maior Abandonado
- Pedra, Flor e Espinho
- Pense e Dance
- Política Voz
- Tão Longe de Tudo
- Bete Balanço
- Meus Bons Amigos
- Ponto Fraco
- Tente Outra Vez (original de Raul Seixas)
- O Tempo Não Pára (original de Cazuza)
- Poema (com Ney Matogrosso)
- Jardins da Babilônia (original de Rita Lee, com Ney Matogrosso)
- Blues da Piedade (original de Cazuza, com Ney Matogrosso)
- Ideologia (original de Cazuza, com Ney Matogrosso)
- Exagerado (original de Cazuza, com Ney Matogrosso)
- Down em Mim (somente Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco)
- Todo Amor Que Houver Nessa Vida (somente Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco, com Cazuza in memoriam)
- Codinome Beija-Flor (original de Cazuza)
- Por Você
- Amor Meu Grande Amor (original de Angela Ro Ro)
- Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (original de Erasmo Carlos)
- Malandragem Dá Um Tempo (original de Bezerra da Silva, com Maurício Barros no vocal principal)
- Torre de Babel
- Declare Guerra
- Cuidado
- Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto (original de Legião Urbana)
- Puro Êxtase
Bis:
- Bilhetinho Azul (somente Dé, Maurício, Frejat e Guto no palco)
- O Poeta Está Vivo
- Por Que a Gente é Assim? (com Ney Matogrosso)
- Pro Dia Nascer Feliz (com Ney Matogrosso)

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