“Ele se abriu… como se quisesse engolir todo o ar, toda a terra, todos os homens à sua frente.” A imagem criada por Joseph Conrad em “Heart of Darkness” (1899), livro homônimo a uma das faixas tocadas pelo Black Label Society no último sábado (25), serve como definição precisa para a presença de Zakk Wylde no Hot Stage do Bangers Open Air 2026. Há algo de voraz, quase elemental, em sua performance — uma força que não apenas ocupa o espaço, mas parece consumi-lo.
Com o pé esquerdo apoiado sobre um praticável e um ventilador à frente que movimenta não mais do que alguns fios de cabelo, Wylde surge como uma estátua viva do heavy metal. De kilt e punho erguido ao céu, como quem pede a bênção de alguma entidade extraterrena, ele conduz o roteiro com autoridade absoluta. O pedestal de seu microfone, moldado como uma torre de crânios — e ornamentado com um enorme Cristo crucificado em madeira —, funciona como extensão visual do universo da banda, enquanto o telão exibe uma motocicleta impossível, com uma caveira no lugar do velocímetro.

A formação atual, com John “JD” DeServio (baixo), Dario Lorina (guitarra) e Jeff Fabb (bateria), pode não ser a mais estrelada da história do grupo, mas a execução é irrepreensível: coesa, pesada e profissional do início ao fim.
A abertura com “Funeral Bell” já evidencia um problema que se estenderia por toda a apresentação: o som irregular. “Name in Blood”, do recém-lançado “Engines of Demolition” (2026), entra com introdução pré-gravada e um refrão que o público imediatamente abraça, embora a guitarra soe constrangedoramente baixa na mixagem ao vivo. Antes disso, vale lembrar uma resposta reveladora do próprio Wylde a este repórter: ao ser questionado sobre o que diferencia “Engines” dos demais trabalhos do BLS, ele foi direto ao ponto — “o nome”. Entre o humor e o desdém, a declaração ajuda a entender a lógica de um artista que privilegia mais a atitude do que a reinvenção.

Em “Destroy & Conquer”, a divisão de solos com Lorina vem acompanhada de um “hey, hey, hey” e do inevitável “louder!” (“mais alto!”), herança direta de sua convivência com Ozzy Osbourne. Já “A Love Unreal” aposta novamente em introduções pré-gravadas, enquanto “Heart of Darkness” reforça a conexão conceitual com Conrad — sua letra é uma descida às zonas mais densas da alma humana.
O repertório de festival deixa claro que os três primeiros álbuns da banda ocupam um espaço não mais apenas residual, mas nulo. Em contrapartida, há momentos garantidos de catarse coletiva. A execução de “No More Tears”, clássico de Ozzy, transforma-se em um coro massivo: “Ozzy! Ozzy! Ozzy!”, seguido pelo inevitável “Olé, olé, olé, Ozzê, Ozzê!”.
“In This River”, dedicada a Dimebag Darrell e Vinnie Paul, ganha reforço visual com imagens dos irmãos Pantera no telão. É o primeiro grande pico emocional do set. Mas é com “Ozzy’s Song” que o show atinge seu ápice solene. Em um gesto de reverência após a canção, Wylde se vira para o telão e aplaude o retrato de seu mentor.
Em “Fire It Up”, bolas infláveis são arremessadas ao público, dando início a um “vôlei” improvisado que remete a tempos em que a experiência coletiva parecia mais importante do que a busca por souvenires. Dito isso, o espírito lúdico durou pouco: uma a uma, as bolas foram sendo reivindicadas por quem não dispensa uma lembrancinha de show.

Wylde ainda encontra espaço para seu exibicionismo característico: toca com a guitarra nas costas, em um duelo performático com Lorina que mistura virtuosismo e irreverência — kilt ao vento, quase deixando seu “Pride and Glory” à mostra.
O encerramento vem com “Stillborn” e, como na obra de Conrad, tudo parece acontecer em um lampejo — “como um relâmpago nas nuvens”. E, por alguns instantes, o Black Label Society faz o público viver exatamente dentro dele.

Black Label Society no Bangers Open Air 2026 — setlist:
- Funeral Bell
- Name in Blood
- Destroy & Conquer
- A Love Unreal
- Heart of Darkness
- No More Tears (original de Ozzy Osbourne)
- In This River
- The Blessed Hellride
- Set You Free
- Fire It Up
- Suicide Messiah
- Ozzy’s Song
- Stillborn

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