Duas decisões equivocadas tomadas em diferentes épocas tornaram mais interessantes a proposta “reunion” do Angra. Uma delas se deu há quase 20 anos, quando, no segundo semestre de 2007, a banda realizou uma estranha votação resultando na demissão de Aquiles Priester. Não se dispensa um baterista de tal estirpe após este ter sido peça fundamental do renascimento do grupo; menos ainda se traz um ex-membro, Ricardo Confessori, para ocupar novamente a vaga, sabendo-se dos “contras”.
A outra ocorreu em 2013, quando, após uma série de shows em formato especial ao estilo “convidado”, optou-se pela efetivação de Fabio Lione para os vocais do Angra, após a saída de Edu Falaschi no ano anterior. Neste caso, o erro não esteve na escolha do cantor, um dos mais capazes da história do power metal, mas pelo direcionamento de carreira dado a partir daí. Embora tenha lançado três álbuns de inéditas, o grupo, no palco, passou a priorizar bem mais a sua obra anterior — o que fazia zero sentido tendo à disposição uma voz tão diferente das de seus antecessores.

Pioneiro em tantos aspectos artísticos e criativos, o Angra também foi visionário em captar o sentimento nostálgico do fã. Desde a entrada de Lione, a aposta em turnês comemorativas de álbuns gravados em suas outras eras se tornou constante. “Angels Cry” (1993), “Holy Land” (1996), “Rebirth” (2001) e “Temple of Shadows” (2004) ganharam excursões de 20º aniversário. Por vezes, os discos recentes ficaram ofuscados nos compromissos na estrada; vide “Cycles of Pain” (2023), pouco promovido em meio a uma tour acústica e outra de “Temple”.
Para além desta sucessão de erros, houve acertos variados de ex-integrantes, com destaque a Falaschi e a reinvenção de sua carreira solo numa veia “semilegado” que, a nível de palcos nacionais, bateu de frente com o próprio Angra. Era comum assistir a um show de outro artista ou banda do Angraverso e sentir que era “mais Angra que o próprio Angra”.

Demorou, mas os titulares do Angra perceberam que, se é para viver do próprio legado, deveria-se fazer direito. Todo este tempo até “acertar” acabou valorizando ainda mais a decisão. Em meio a um “hiato mandrake” que durou menos de um ano e só serviu mesmo para desligar-se de Lione num jeito não muito cortês, a banda anunciou shows especiais ao lado de Falaschi, Priester e o guitarrista Kiko Loureiro, mas sem abdicar de seus atuais membros. Para o posto deixado por Fabio, chamaram Alirio Netto, cantor que, para a proposta vista a partir de 2013, combinava bem mais devido à similaridade de seu timbre com o de Andre Matos, frontman original falecido em 2019.

O primeiro show deste “megazord” foi visto no Bangers Open Air, domingo (26), ainda com Fabio, que realizava sua despedida, e já trazendo Alirio, em sua estreia, além de Edu e a turma toda. Nove músicos no palco, duas horas e 15 minutos de um espetáculo tão emocionante que nem os protagonistas conseguiam se conter. Uma versão estendida desta apresentação, sem Lione e com três horas de duração, foi levada na última quarta (29) ao Espaço Unimed, também em São Paulo, em caráter de sideshow do festival. Gerou tamanho interesse que os ingressos se esgotaram na véspera.

Tirando a chuva de papel picado e o fato de Alirio estar vestindo calças — em vez do estiloso kilt usado no Bangers —, o início foi praticamente o mesmo de domingo (26), com performances arrebatadoras de “Nothing to Say” e “Angels Cry”. Na ausência de Fabio Lione, Alirio interpretou de modo primoroso as canções “Tide of Changes” e “Vida Seca”, ambas do disco “Cycles of Pain”, com a clássica “Lisbon” entremeada.
Se já não havia dúvidas sobre Netto ser o cara certo para a vaga, sua interpretação de “Wuthering Heights” (Kate Bush) — dedicada a Matos — gerou reações tão positivas a ponto de um coro com seu nome ter surgido na plateia do Espaço Unimed. Vez ou outra ainda causa estranheza sua presença de palco mais efusiva, como visto em “Carolina IV” e nas faixas de abertura, mas o nível de entrega é indiscutível.
Um bom solo de bateria feito por Bruno Valverde antecedeu duas das primeiras novidades reais em relação ao setlist do Bangers: “Make Believe” e “Waiting Silence”. A primeira, da fase Andre, foi finalizada sob novo coro espontâneo com o nome de Alirio. A segunda, da era Edu, obteve execução geral tão exitosa que rendeu a salva de palmas mais longa do show até aquele momento. O clima era esse — e melhoraria ainda mais a seguir.
Todos os ex-integrantes tiveram seus nomes gritados enquanto aguardava-se pelo segundo ato, com execução quase integral de “Rebirth” — exceção feita à faixa de encerramento “Visions Prelude”, substituída pela bônus japonesa “Bleeding Heart” — a cargo da formação que gravou o álbum. O mais forte deles, como esperado, trazia o nome de Edu Falaschi, justamente o músico de performance mais comprometida tecnicamente.

O cantor de 53 anos é um case à parte na história do heavy metal. Recebeu críticas do primeiro ao último dia em que esteve no Angra, inicialmente por estar substituindo o maior cantor da história da música pesada brasileira — Andre Matos —, depois em função dos problemas de saúde que comprometeram sua voz. Deixou a banda em baixa, saiu-se ainda pior com o Almah e só conseguiu uma nova guinada na carreira na última década. Até sua performance melhorou em anos recentes e não é modo de dizer: este que vos escreve pôde assisti-lo cantar às mesmas músicas de “Rebirth” em 2022 e o que se viu agora está em nível superior, ainda que, óbvia e naturalmente, aquém do que se ouvia na virada do século.
Mas o que o torna um personagem peculiar transcende a interpretação diante do microfone. É o carisma. Quase inexplicável, pois Falaschi às vezes parece ficar até sem jeito. Meio que se enrola para conversar com a plateia, tem movimentos contidos, não sabe se bate cabeça ou olha para o teleprompter. De algum jeito, gera identificação. Seu nome voltaria a ser gritado por pelo menos outras três vezes ao longo de seu set, sempre de modo espontâneo. A impressão passada é de que ele poderia estar naquele palco sem cantar, apenas sorrindo, que, mesmo assim, todos estariam aplaudindo. Isso é para poucos e não se conquista por acaso, tampouco da noite para o dia. É um dos ingredientes que deixa esta reunião tão especial.

Nesse sentido, Kiko Loureiro e Aquiles Priester não ficam tão atrás. O primeiro ganhou cacoetes de rockstar ao longo de seus oito anos no Megadeth. Permitiu-se errar até um ou outro bend/vibrato nos solos para compensar em movimentações e interações com a plateia, o que é ótimo. O segundo, já elogiado na abertura deste texto, é um raro exemplo de baterista que pode ser identificado apenas pelo som de sua batida. Vai além da técnica exemplar: é questão de timbre, personalidade, jeito de fazer.

Na leva inicial desta etapa, composta por “Nova Era”, “Millennium Sun” (com Kiko ao piano) e “Acid Rain”, a voz de Falaschi ainda não soava tão legal. A partir de “Heroes of Sand”, sabe-se lá por qual motivo, engrenou, dentro do possível. Mas é claro que ninguém se importou, pois cada canção gerou catarse coletiva — até aquelas que ficaram fora do setlist do Bangers por não serem tão conhecidas, como “Judgement Day”, “Unholy Wars” e, em especial, “Running Alone”.
No meio de tudo isso, ainda rolaram “Rebirth”, com direito a deixar os olhos de Edu brilhando e ligeiramente marejados; o interessante solo de bateria “PsychOctopus”, no qual Aquiles desfila sua destreza sob um versátil instrumental pré-gravado; e “Bleeding Heart”, trazendo um trecho cantado em português em referência à releitura “Agora Estou Sofrendo”, do Calcinha Preta. “Quando faço shows em várias cidades, especialmente no Nordeste, a maioria das pessoas canta em português — acabaram me vencendo”, brincou Falaschi antes de interpretá-la.
Após a execução de quase todo o disco “Rebirth”, os fãs até tentaram puxar coros de “Saint Seiya” (em referência a “Pegasus Fantasy”), mas as que rolaram mesmo foram “Ego Painted Grey”, única representante de “Aurora Consurgens” (2006), e a apoteótica “Spread Your Fire”, com pirotecnia no palco. A parte final do set reduziu o ritmo com três canções mais lentas: “Reaching Horizons”, apenas com Rafael Bittencourt no vocal e violão; a emocionante “Silence and Distance”, com voz e imagem de Andre Matos e todos exceto Aquiles Priester no palco; e “Late Redemption”, reunindo geral exceto Bruno Valverde; com “Carry On”, agora sim com cada um do octeto, fugindo à regra.

O que vem depois de tudo isso? Nem o Angra parece saber, tampouco se preocupar. Há shows marcados dentro e fora do Brasil com Alirio Netto, em maioria celebrando o 30º aniversário de “Holy Land”, e uma data ao lado de todos os presentes no Espaço Unimed, exceto Aquiles Priester, em outubro, no Japão. Fica difícil imaginar um show como o de quarta-feira (29) ocorrendo com frequência. Talvez nunca mais se repita. Se for o caso, ao menos o ciclo da formação “Nova Era” terá encontrado o fim amistoso que merecia. Andre Matos não pôde fazer o mesmo.

Angra — ao vivo em São Paulo
Data: 29 de abril de 2026
Local: Espaço Unimed
Produção: HonorSounds / Bangers Open Air
Repertório:
Com instrumentistas da formação atual + Alirio Netto:
- Nothing to Say
- Angels Cry
- Tide of Changes
- Lisbon
- Vida Seca
- Wuthering Heights (Kate Bush)
- Carolina IV
- Solo de bateria de Bruno Valverde
- Make Believe
- Waiting Silence
Com formação Nova Era (Edu Falaschi, Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro, Felipe Andreoli e Aquiles Priester): - In Excelsis + Nova Era
- Millennium Sun
- Acid Rain
- Heroes of Sand
- Unholy Wars
- Rebirth
- Solo de bateria de Aquiles Priester
- Judgement Day
- Running Alone
- Bleeding Heart
- Ego Painted Grey
- Spread Your Fire
Bis: - Reaching Horizons (apenas Rafael Bittencourt)
- Silence and Distance (todos exceto Aquiles Priester)
- Late Redemption (todos exceto Bruno Valverde)
- Unfinished Allegro + Carry On (todos no palco)
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