McFly rasga a fantasia e faz um dos melhores shows do ano em São Paulo

Ingleses elevam verve rock’n’roll à enésima potência em um Espaço Unimed com ingressos esgotados

Uma característica comum nas bandas com tempo considerável de trajetória é a mudança de som. Na maior parte dos casos, os violões vão gradativamente assumindo o espaço antes ocupado pelas guitarras. Estas, às vezes, permanecem, mas sem distorção. Seja por opção artística ou por questões comerciais, como busca de aumento de público, é uma receita que costuma ser bem-sucedida.

O que não é recorrente de se encontrar é uma banda deixar o som leve, pop, e adotar uma abordagem mais pesada. Fazê-lo em um período em que as guitarras estão em baixa, tanto em vendas quanto em uso, indicaria um suicídio comercial dada a falta de sentido em tal estratégia. O sucesso de bandas como Ghost ou Greta Van Fleet confirmam essa linha de raciocínio por serem exceções à regra.

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Por isso, o estranhamento foi geral quando o McFly, um dos grandes nomes do pop rock surgido nos anos 2000, não acostumado a dar muita atenção ao peso, anunciou um novo trabalho influenciado pelo hard rock dos anos 80. Como destacado pelo jornalista Igor Miranda em entrevista com a banda (veja aqui), a escolha do single “Where Did All the Guitars Go?” chegou a ser criticada por fãs de longa data dos ingleses por ser tão diferente.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Mas o riff era fácil de assimilar e o refrão, difícil de esquecer e a crise passou rapidamente. Na verdade, chegou ao fim quando o disco “Power to Play” (2023) foi lançado e ficou claro para todos que o McFly deixou de ser excelente somente no pop rock e resolveu ser também ponta-de-lança no hard rock propriamente dito. É o melhor disco da banda, uma sólida coleção de hits potenciais, elogiado tanto pela crítica (esteve na lista deste redator entre os melhores lançamentos do ano passado) quanto pelo público, que, tal qual ocorreu com o Accept, esgotou com bastante antecedência os ingressos para o começo da turnê brasileira, ocorrida na última quinta-feira (2) — a ponto de gerar uma data extra no dia seguinte (3).

Energia em níveis de usina nuclear

A casa já estava parcialmente tomada menos de uma hora após aberta. A menor parte deixou para chegar na hora marcada. Seja por ansiedade, economia de energia, desconhecimento ou por um pouco de cada motivo, as pessoas estavam mais quietas, não acompanhando a discotecagem, que incluiu “I Love Rock’n’Roll” (na versão de Joan Jett & The Blackhearts), “American Pie” (Don McLean) e “Take on Me” (A-ha). Quando as luzes diminuíram e começou “Livin’ on a Prayer” (Bon Jovi), levantaram-se e cantaram como se o show tivesse começado.

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Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Seria melhor se tivesse sido assim, mas “YMCA” (Village People) é a escolha equivocada para a introdução do show. Não importa, pois logo Tom Flecther (voz e guitarra) puxava o riff de “Where Did All the Guitars Go”, um começo que indicou como seriam as próximas duas horas: cantoria em voz alta, sorrisos, comemoração e empolgação a cada nova música, fosse alguma das nove apresentadas do disco novo, fossem dos trabalhos anteriores. Descrição que pode ser utilizada tanto para a banda — completada por Danny Jones (voz e guitarra), Dougie Poynter (baixo) e Harry Judd (bateria) — quanto para o público.

Poderia não ter sido assim. A segunda e a terceira músicas, no papel, não combinam. “Land of the Bees”, cujo trecho “‘cause we have the power to play” fornece o título do disco da atual turnê, é Rush até a medula; tem até o ritmo quebrado característico do prog rock em determinado momento. “One for the Radio” é pop de nascença, um dos vários grandes hits dos ingleses e velha conhecida dos brasileiros – só a tour de “Radio: Active” (2008), disco de origem, passou duas vezes por aqui. Mas setlist não é partitura; cada um a seu jeito contribuiu para que a energia permanecesse em níveis de usina nuclear.

Já o que deu certo como esperado foi quando tocaram “Broken By You” com participação de dois integrantes da banda brasileira Fresno — o frontman Lucas Silveira e o guitarrista Gustavo Mantovani —, que assinam a parte em português da canção. Apesar de ser uma faixa bônus, presente somente na versão estendida de “Power to Play”, ganhou um clipe oficial. Só não havia sido tocada ao vivo ainda.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Problema técnico

Após “Obviously”, um problema técnico, aparentemente no baixo, causou uma pausa maior entre as músicas. A princípio, Tom e Danny revezaram-se elogiando o Brasil e como os fãs daqui são importantes na trajetória de mais de duas décadas do McFly (o que não parece ser falso; os vídeos de “Land of the Bees” e “Forever’s Not Enough” no canal oficial do grupo no YouTube têm as letras em inglês e português na descrição). O contratempo se estendeu e ficaram, tipo assim, sem assunto.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

Danny resolveu iniciar uma trinca de músicas em que apenas ele e, depois, Tom, permaneceriam no palco para versões acústicas de “Walk in the Sun”, “Not Alone” e “All About You”. Uma combinação visualmente curiosa, pois o visual de ambos lembrava, respectivamente, Redson do Cólera (ainda que alguns possam dizer Bruce Springsteen), e Rivers Cuomo do Weezer. Foi um momento bem vindo para acalmar os ânimos, um preparo para o final arrebatador que nem a pausa para o bis segurou. “Shine on”, “Forever’s Not Enough” e “Honey, I’m Home”, todas novas, causaram uma histeria só superada por “Five Colours in Her Hair”, que encerrou o espetáculo.

Um palco simples e luzes com configuração de jogo de 8 bits no fundo — que se limitavam a não deixar um vazio escuro — representaram o cenário suficiente para o McFly deixar 8 mil pessoas sem ter do que reclamar durante duas horas seguidas. Tem coisa que só um repertório forte, de um artista no auge, pode fazer. Dizer isso de uma banda com 21 anos de carreira e que vem ao país pela sexta vez não é pouca coisa.

Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox

McFly — ao vivo em São Paulo

  • Local: Espaço Unimed
  • Data: 2 de maio de 2024
  • Turnê: Power to Play Tour
  • Produção: Move Concerts

Repertório:

  1. Where Did All the Guitars Go?
  2. Land of the Bees
  3. One for the Radio
  4. God of Rock & Roll
  5. Friday Night
  6. Corrupted
  7. Lies
  8. Route 55
  9. I’m Fine
  10. Too Close for Comfort
  11. Broken By You (participação de Lucas Silveira e Gustavo Mantovani, da Fresno)
  12. Everybody Knows
  13. Star Girl
  14. Hapiness
  15. Obviously
  16. Walk in the Sun
  17. Not Alone
  18. All About You
  19. Shine On
  20. Red

Bis:

  1. Forever’s Not Enough
  2. Honey I’m Home
  3. Five Colours in Her Hair
Foto: Gustavo Diakov / @xchicanox
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Rolf Amaro
Rolf Amarohttps://igormiranda.com.br
Nasceu em 83, é baixista do Mars Addict, formado em Ciências Sociais pela USP. Sempre anda com o Andreas no braço, um livro numa mão e a Ana na outra.

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