Música em festival é “catchup em praça de alimentação”, diz Guilherme Arantes

"Nesses festivais, você não vai para assistir a um show. A música é um acompanhamento", pontuou o cantor quando perguntado sobre o Rock in Rio

Ao longo de seus quase 50 anos de carreira, Guilherme Arantes nunca tocou no Rock in Rio. Não é à toa que, em variadas ocasiões, o cantor mostrou descontentamento com a curadoria do festival, sobretudo pela falta de variedade quanto às atrações nacionais. 

Recentemente, conversando com o jornalista Danilo Casaletti para o Estadão, o artista tornou a falar sobre o assunto. O gancho foi uma declaração realizada durante apresentação no Sesc Pompeia, em São Paulo, no último mês de março.  

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Na ocasião, ele mencionou para a plateia que a música “Coração Paulista” “não serve para tocar na praça de alimentação do Rock in Rio”. Completou ressaltando que sua “alta culinária não tem lugar no Brasil”.

Agora, durante o bate-papo, Arantes explicou a intenção por trás da metáfora. Segundo o próprio, a analogia foi uma forma de dizer que, cada vez mais, os eventos como um todo contam com uma programação genérica, que, ao tentar unir coisas diferentes, peca pelas escolhas. 

O foco acaba sendo a experiência, proporcionada pelas ativações, brinquedos e outros espaços, e não a música, como declarou: 

“Nesses festivais, você não vai para assistir a um show. Vai para, como eles dizem, ‘viver uma experiência’. É uma experiência de comportamento, gastronomia, esportes radicais, moda etc. E a música é um acompanhamento. Um catchup que está na praça de alimentação, vamos dizer. Eu os chamo de praça de alimentação porque nela você mistura o cheiro do orégano da pizza com a soja do sushi. De salada com sorvetes. É algo genérico, muito louco. E me parece que esses novos festivais se propõem a essa multiplicidade. Mas temos que respeitar.”

Ainda assim, Guilherme não descartaria uma participação no Rock in Rio caso recebesse o convite. Porém, continua acreditando no valor diferenciado de sua música, independentemente do festival.

“Se vier o convite, não é algo para se descartar. Posso ser um anfitrião, convidar pessoas de várias gerações e diferentes linhagens. Se eu fizer um show [nesses festivais] eu levo o Belo, Péricles, Xande de Pilares, Nenhum de Nós, Engenheiros do Havaí, Jota Quest, Marina, Vanessa da Mata. Poderia ser o maior lineup que já houve, com pessoas que me gravaram. Acho, porém, que os artistas não ganham muito com essa praça de alimentação. Eu sou a alta cozinha. Eu sou um Érick Jacquin [chef francês, conhecido pelo seu trabalho no Master Chef e por ser donos de restaurantes em São Paulo]. Quero ter o meu bistrô. Prefiro isso a ter uma esfiha de multidões.”

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Ressentimento?

Quando perguntado sobre sentir-se ressentido por nunca ter sido chamado, Arantes apontou que o problema pode morar numa incerteza da organização quanto à recepção do público. Para argumentar, citou exemplos de shows do Blur e de Marcelo D2, ocorridos em outros festivais e que, ao seu ver, não geraram comoção dos presentes: 

“Talvez eles tenham receio. Li que, recentemente, o Blur [banda britânica de rock alternativo] não foi bem recebido no Coachella [em abril, na Califórnia]. A plateia estranhou, ninguém cantou nada. É que o Blur também não é nenhuma…Enfim. O Lollapalooza [em março, em São Paulo] não foi tão bom para o Marcelo D2 quanto em outras ocasiões. O Gil [no Lolla] se saiu bem porque ele é o Bob Marley, é o Stevie Wonder. Gil fez um show compacto, bonito e bem tocado. Não sei se tenho tutano ou combustível para tudo isso. Não sei como o público se comportará comigo. Talvez esse momento esteja chegando, mas será preciso construí-lo.”

Guilherme Arantes e Rock in Rio

Conversando com o podcast Corredor 5, em 2022, Guilherme Arantes descreveu o Rock in Rio atualmente como um “parque temático, uma praça de alimentação”. Como mencionado, também criticou a falta de diversidade nacional no lineup:

“Acho, por exemplo, que a Ivete Sangalo já deu o que tinha que dar. Chega. Eu sei que é uma grande cantora e tudo. Eu reconheço. Mas, pô, nenhuma oportunidade para o Roupa Nova? Eu acho esquisito.”

Por meio do Facebook, em 2019, ainda mostrou indignação com a ausência de Ritchie na primeira edição do festival, em 1985:

“A ausência mais escandalosa, mais injusta da história do Rock in Rio, na minha questionabilíssima opinião, foi o grande músico, o gentleman, o discreta e humildemente elegante Ritchie […]. Nunca me senti adaptado ao ‘showbiz atacadista’ dessa nova ‘escala moderna’ e bem sei que há verdadeiros especialistas nessa linguagem, no domínio desses espaços festivaleiros. Sempre uma coadjuvância incomoda, vi nomes questionáveis de colegas indo para o abate, mas o que mais me causou estranheza desde o primeira versão do RiR foi esse clima de injustiça (já ali) inaugurado com a ausência acachapante e jamais explicada do maior artista daquele momento: Ritchie.”

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Maria Eloisa Barbosa
Maria Eloisa Barbosahttps://igormiranda.com.br/
Maria Eloisa Barbosa é jornalista, 22 anos, formada pela Faculdade Cásper Líbero. Colabora com o site Keeping Track e trabalha como assistente de conteúdo na Rádio Alpha Fm, em São Paulo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Grande Guilherme Arantes! Não é que ele tem razão? Disse tudo e um pouco mais.
    Mas, artistas como ele, e os outros citados de seu gosto não tem espaço nesses festivais. Hoje só quem gosta de balançar o rabo. ( e mal)

  2. Guilherme Arantes tem razão. Esse pessoal do Rock in Rio, o Medina, parece que não entendem muito de musica. Nem mesmo Roberto Carlos vendeu mais discos do que Ritchie e seu hit ‘Menina Veneno’, em 1984-85. E ainda teve o Rock in Rio 2, 3, 4, etc, que não chamaram um monte de gente boa dentro e fora do pais.

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