Accept passa ileso por teste de fogo em estreia de turnê mundial em São Paulo

Disco quase desconhecido e nova formação não impediram mais uma excelente apresentação do sexteto formado na Alemanha

Em 2002, o Nightwish praticamente estreou a turnê do novo disco, o então desconhecido “Century Child”, em São Paulo. Se o público teve a oportunidade de ver a única execução de clássicos que não voltaram a ser apresentados aqui — como a sequência “Bless the Child” e “The End of All Hope” —, não pode desfrutá-la, pois o disco sairia somente uma semana depois no Brasil. Dá para entender o tamanho do prejuízo quando se pensa que era uma época em que a internet era tão popular quanto carros voadores o são hoje em dia.

Por pouco não ocorreu o mesmo com o Accept nessa nova turnê, produzida pela Dark Dimensions. “Humanoid”, décimo sétimo disco de estúdio da banda alemã, havia saído cinco dias antes, tanto digital quanto fisicamente, e a recepção dele ao vivo ainda estava por ser conhecida. Poderia haver alguma prévia na última segunda-feira (29), data em que eles se apresentariam em Montevidéu (Uruguai), mas o evento foi cancelado “por razões de logísticas inesperadas alheias ao artista, à produção e à casa de espetáculos”, segundo a produtora responsável, FIMV Entertainment.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Amalgama

A atipicidade do show ocorrido na última quarta-feira (1º) não foi pequena. A banda de abertura, Amalgama, também inaugurava a própria turnê mundial, para divulgar “Mastermind”, lançado em 22 de abril.

Ao contrário do que seria de se esperar, essa avalanche de material pouco conhecido, na melhor das hipóteses, não impediu que fosse uma grande noite. O Amalgama, projeto russo liderado pelo vocalista Vlad Ivoilov tampouco se deixou intimidar por isso. Apresentaram com muita competência o repertório autoral, meio metal melódico sem firulas, meio hard rock à la Scorpions – a semelhança do timbre vocal de Vlad com Klaus Mine é impossível de ignorar.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

O bê-á-bá bem feito e grudento fez amizade rápida com os fãs do Accept; Vlad não teve muito trabalho em ensiná-los o refrão da grudenta “Brothers in Rock”. Completam o time Attila Vörös na guitarra (ex-Nevermore e Satyricon), Roman Valerev no baixo e Vladimir Zinoviev na bateria. Diferentemente dos recentes shows do Placebo (ver aqui) e Turnstile (ver aqui), houve um acerto na escolha da atração de abertura, tanto pela pertinência quanto pelo talento.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Accept

Pouco depois das 20h, um susto: os guitarristas Wolf Hoffmann e Joel Hoekstra foram à frente do palco, mas nada se ouve do riff que tocam. Foi o único defeito no som que, durante toda a noite, foi límpido sem comprometer o peso no caso do Accept ou abafar os backing vocals pré-gravados do Amalgama. Resolvido o problema em segundos, foi possível reconhecer “The Reckoning” um dos três singles que anteciparam “Humanoid”. A faixa-título veio na sequência e pegou um público ainda frio, mais educado do que participativo.

A presença de palco, aliada à excelente qualidade de som e de iluminação, seria suficiente para mudar o clima. Mas “Restless and Wild” ser a terceira música apresentada ajudou a acelerar a melhora.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

É impressionante a precisão dos movimentos de todos os músicos. Ninguém dá um passo que não seja destinado a instigar a plateia. O vocalista Mark Tornillo é mais espontâneo, mas sem fugir muito às coreografias que exigem preparo específico, como pode ser visto no treinamento destinado ao guitarrista convidado Joel Hoekstra (Whitesnake, Night Ranger, entre outros), substituindo Philip Shouse. Se ele não estava muito à vontade com esta parte visual, não se pode dizer o mesmo da música. A elegância e tranquilidade tanto ao solar quanto ao fazer as bases acrescentam uma delicadeza muito bem vinda à rigidez metálica de couro e aço do Accept.

Hoekstra não foi o único a ser evidenciado. Em que pese o esforço gasto nos materiais de divulgação para destacar que o guitarrista Wolf Hoffman é o líder da banda — inclusive deixando-o desproporcionalmente maior do que os outros integrantes em fotos promocionais —, isso não se repete no palco. A todo momento, o único membro original a seguir no grupo interage com o baterista Chirstopher Williams, enquanto o baixista Martin Motnik e o terceiro guitarrista Uwe Lulis têm suas passadas pela beirada do palco vez ou outra.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

É um entrosamento bem-sucedido. Próximo ao meio do espetáculo, depois de “Dying Breed”, Mark apresenta Joel como guitarrista convidado e faz uma brincadeira com fundo de verdade olhando para ele, dizendo sobre a apresentação, com ingressos esgotados com considerável antecedência: “é um teste de fogo, não?”. Essa pergunta não precisava de resposta, estava evidente que haviam passado no teste sem o menor prejuízo.

A pergunta que não foi feita, mas precisava de resposta, é: por que a predominância de material da era Udo Dirkschneider em relação à nova encarnação do Accept, iniciada com o aclamado “Blood of the Nations”? Houve boa recepção da já citada “Dying Breed”, de “Shadow Soldiers” e “Pandemic”, todas muito superiores ao que ocorreu durante “Riff Orgy” — um medley de quatro músicas gravadas com o vocalista original (“Demon’s Night”, “Starlight”, “Losers and Winners”, “Flash Rockin’ Man”). Aliás, artistas precisam refletir sobre pot-pourris: desagradam quem quer ouvir a música inteira e irritam quem sabe que havia opções melhores para serem tocadas no lugar; ou seja, a única coisa certa é a decepção.

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Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Isso não significa que as fases sejam incompatíveis, muito pelo contrário. Poucas experiências são mais satisfatórias em um show de heavy metal do que ver “Metal Heart” e “Teutonic Terror” tocadas na sequência, sem intervalo entre elas. É a união perfeita que simboliza a qualidade, alta antigamente e mantida agora.

Talvez falte a ousadia, como o “choro” que Dirkschneider faz em “Head Over Hills” — um elemento que deixou de ser comum e dá base ao argumento feito pelo ex-baixista Peter Baltes, de que a banda tem se repetido nos últimos discos. Acumulam-se canções do período Mark Tornillo que não deveriam ficar de fora do setlists, como “Against the World” e “Wanna Be Free”. Discos acima da média como “Rise of Chaos”, de 2017, passam batidos por uma discutível escolha do grupo, que torna irônica a “I’m a Rebel” encerrar o show.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Apesar disso, o saldo foi: uma excelente apresentação com uma banda afiadíssima, talvez por não terem vindo de uma sequência intensa de shows. Pode ser diferente — ainda que com qualidade — na apresentação extra, a ocorrer dia 18 de maio, quando a banda terá saído do Brasil, tocado na Argentina, Chile, Peru, Colômbia, El Salvador, México, Belo Horizonte (15/05) e Brasília (17/05); com direito a uma performance final em Santo André (19/05) para fechar.

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos

Accept — ao vivo em São Paulo

  • Local: Carioca Club
  • Data: 1º de maio de 2024
  • Turnê: Humanoid
  • Produtora: Dark Dimensions

Repertório — Amalgama:

  1. Dark Lacroix
  2. Legion of Steel
  3. Amulang
  4. Fight For Freedom
  5. Brothers in Rock
  6. Sping of My Life (SIC)
  7. Dark Night
  8. Beat of Your Heart
  9. Back From the 80’s

Repertório — Accept:

  1. The Reckoning
  2. Humanoid
  3. Restless and Wild
  4. Midnight Mover
  5. London Leatherboys
  6. Dying Breed
  7. Overnight Sensation
  8. Riff Orgy (Demon’s Night / Starlight / Losers and Winners / Flash Rockin’ Man)
  9. Breaker
  10. Ravages of Time
  11. Shadow Soldiers
  12. Princess of the Dawn
  13. Fast as a Shark
  14. Metal Heart
  15. Teutonic Terror
  16. Pandemic

    Bis:

    17. Zombie Apocalypse
    18. Balls to the Wall
    19. I’m a Rebel

Amalgama:

Foto: Gabriel Ramos @gabrieluizramos
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Accept:

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Rolf Amaro
Rolf Amarohttps://igormiranda.com.br
Nasceu em 83, é baixista do Mars Addict, formado em Ciências Sociais pela USP. Sempre anda com o Andreas no braço, um livro numa mão e a Ana na outra.

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