Entrevista: Mike Kerr fala sobre Royal Blood no Brasil e celebra álbum de estreia

Grupo vem ao país para dois shows da turnê “Back to the Water Below”, mas já está de olho em comemorações do disco homônimo de 2014

O Royal Blood está prestes a fazer sua terceira viagem para o Brasil. Para uma carreira iniciada há pouco mais de uma década, a recorrência está acima da média: as turnês de três de seus quatro álbuns passaram por aqui.

Após visitas em 2015 (para show único no Rock in Rio) e 2018 (para tocar no Lollapalooza, abrir para o Pearl Jam no Rio de Janeiro e realizar sideshow no Cine Joia, em São Paulo), o duo britânico formado por Mike Kerr (voz e baixo) e Ben Thatcher (bateria) retorna para realizar somente performances solo. Os compromissos serão em São Paulo (Audio, 13/04) e Rio de Janeiro (Circo Voador, 16/04). Ingressos ainda podem ser adquiridos no site Livepass.

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Em entrevista ao site IgorMiranda.com.br, Kerr enfatizou estar ansioso para as apresentações. As lembranças — que restaram — são boas. Em 2015, ainda excursionando para promover seu primeiro álbum, homônimo, o duo tocou no Palco Mundo do Rock in Rio ao lado de Metallica, Mötley Crüe e Gojira.

“Foi uma noite louca, um batismo de fogo. Acho que foi a maior plateia que já tocamos até hoje. Tocar com Metallica e Mötley Crüe… não é o tipo de coisa que você pensa que vai conseguir fazer algum dia.”

Já a visita em 2018, como parte da tour “How Did We Get So Dark?” (2017), foi um pouco confusa. Kerr se limita a definir como “louco” tal período de sua vida, mas sabe-se que à época ele sofria com o vício em drogas e álcool. Felizmente, conquistou a sobriedade em 2019.

“Acho que torci o tornozelo na época do Lollapalooza. Lembro de ter que usar muletas. Foi um período louco da minha vida, então estou empolgado para voltar com um pouco de clareza desta vez.”

As viagens anteriores sempre estiveram atreladas a um festival. Desta vez, Mike e Ben — que, pitadas alternativas à parte, fazem um som pesado e majoritariamente ancorado nos riffs de um baixo tão distorcido a ponto de se dispensar guitarras — fazem apenas apresentações solo, como atrações principais, em divulgação ao álbum “Back to the Water Below” (2023). Será uma oportunidade para sentir como se porta, isoladamente, o público local do Royal Blood.

“A intenção é sempre a mesma com um show, independente do local. Apenas estamos tentando fazer o melhor que podemos. O que mais adoro em tocar ao vivo é o fato de que você não pode prever o que vai acontecer. É o que torna tudo tão divertido. Nesta parte do mundo, há uma espécie de garantia secreta de que será divertido, com base nas minhas experiências anteriores. Aí, as pessoas sabem como se divertir.”

Se dá para esperar peso e energia, não dá para tentar decifrar o repertório. Mike garantiu que o setlist é definido sempre antes de cada show. Benefícios de se tocar em uma banda com apenas dois integrantes, não é mesmo? Há, contudo, alguns padrões seguidos: o duo prioriza bastante as canções do já mencionado álbum de estreia e de “Back to the Water Below”, seu disco mais recente.

De volta para a água e ao modus operandi

Embora já esteja disponível há seis meses, “Back to the Water Below” ainda não oferece grandes reflexões a Mike Kerr. O vocalista e baixista acredita que levará mais tempo até que ele possa compreender qual posição o quarto álbum do duo ocupa em sua discografia.

Apesar disso, há uma diferença essencial entre o novo trabalho e “Typhoons” (2021). Enquanto o anterior foi desenvolvido em parte durante a pandemia (quando nenhum artista no mundo podia se apresentar ao vivo para uma plateia presencial), o mais recente tem “cheiro de estrada”, já que suas composições e gravações se desenvolveram logo após uma turnê — algumas delas até em intervalos entre shows. O músico concorda que isso pode ter exercido influência no resultado final, um pouco mais simples e direto em termos de sonoridade.

“Penso que sim. Poder tocar ao vivo de novo pode ser um lembrete incrível de quem você é e do que você faz. Quando se passa muito tempo longe desse ambiente, você pode se esquecer disso. Ter essa empolgação de voltar ao que importa, definitivamente, alimentou algumas das coisas que estávamos compondo. E também deu um pouco de simplicidade. Sempre que toco ao vivo, lembro de como as coisas simples são realmente as melhores.”

Outro ponto, desta vez uma distinção em relação a todos os discos anteriores, é “Back to the Water Below” ter sido o primeiro a ser totalmente autoproduzido. Os outros álbuns também trazem a assinatura de Kerr e Thatcher na produção, mas sempre de outro profissional. Não é o caso deste. Mike explica:

“Sinceramente, o processo foi a mesma coisa de sempre. Acho que tínhamos uma visão bastante clara em relação ao álbum. Seria estranho trazer um produtor quando sabíamos o que e como queríamos fazer.”

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Como curiosidade, Kerr apontou que “The Firing Line” é sua música favorita do novo álbum. Por outro lado, a faixa não tem sido tocada nos shows — algo que pode mudar no Brasil.

Tudo muito rápido — até a retrospectiva

A ascensão do Royal Blood, ao menos sob o ponto de vista do público, foi bastante rápida. O duo foi formado em 2011 e antes mesmo de seu primeiro álbum, homônimo, sair em 2014, eles estavam tocando em grandes eventos.

Para se ter ideia: abriram shows do Arctic Monkeys no Finsbury Park, em Londres, e emendaram apresentações nos festivais South by Southwest (EUA), Liverpool Sound City (Inglaterra), BBC Radio 1’s Big Weekend (Escócia), Download Festival (Inglaterra), Glastonbury Festival (Inglaterra), Reading Festival (Inglaterra), Rock Werchter (Bélgica) e T in The Park (Escócia). Todos gigantes. E todos antes de agosto de 2014, quando o disco de estreia foi disponibilizado e logo chegou ao topo da parada inglesa — tal qual seus sucessores.

Até mesmo no Brasil, a estreia se deu no maior palco possível: o já mencionado Rock in Rio. Sempre foi assim para o Royal Blood. Mike Kerr diz não saber o motivo.

“Não tenho certeza do porquê de ter acontecido dessa forma com a gente. Sei que tocar ao vivo é meio que o objetivo desta banda. Somos uma banda de shows. Sempre foi a coisa que mais amamos fazer e é aquilo que dedicamos mais tempo. É ótimo saber que as pessoas meio que nos conheceram através dos shows.”

Se é tudo rápido para o duo, não poderia ser diferente com as celebrações de seu legado. Enquanto outros artistas esperam pelo menos duas décadas para revisitar suas principais obras, os ingleses vão comemorar, já, o 10º aniversário da estreia com um relançamento em LP e CD (que incluirá lados B, mixagens diferentes e gravações ao vivo) e dois shows especiais na O2 Brixton Academy, em Londres, nos dias 18 e 19 de junho — na segunda data, Mike também festeja seus 34 anos.

O vocalista e baixista, aliás, não se fez de bobo ao comentar sobre o disco de 2014, responsável por apresentar hits como “Out of the Black”, “Come On Over”, “Little Monster” e “Figure It Out”. Reconheceu que o material está presente em todos os shows do duo, logo, não chega a ser uma “revisitação”.

“Odeio esse álbum. É terrível. [Risos] Estou brincando. Esse álbum não é algo que estamos tirando a poeira e trazendo para os holofotes de novo. É um álbum que ainda vivemos e respiramos todos vez que tocamos ao vivo. Essas músicas meio que se desenvolveram conosco: elas evoluíram no show ao vivo. Esse álbum ainda parece mais relevante do que nunca para nós.”

Kerr também reforça que nem tudo foi rápido ou fácil para o Royal Blood. A chegada ao topo não se deu de forma tão imediata. A banda foi formada três anos antes do álbum de estreia ser lançado — e surgiu das cinzas de outro projeto, Flavour Country, onde o frontman tocava junto de Ben Thatcher em meados de 2005.

“Pode parecer que chegamos rapidamente ao som desejado, mas as pessoas não veem o processo todo, com todos os tropeços, quando fomos em direções erradas ou andamos em círculos. Acho que havia algo afortunado em relação a mim e Ben termos voltado a tocar juntos e formarmos a banda apenas nós dois, com um tipo de foco e concentração diferentes. Mas eu não sei. É como se eu não quisesse entender, pois não é algo que precisa ser entendido.”

Sobre as cinco faixas adicionais — desconsideradas gravações ao vivo e remixes — que estarão presentes no relançamento de “Royal Blood”, Mike também não adotou discurso contemplativo. O músico destacou que a maior parte delas faz parte dos shows, mesmo que não tenham sido incluídas no álbum original. O público as conhece, pois várias delas acabaram aproveitadas como lado B de singles e outros formatos promocionais. A saber: “One Trick Pony”, “You Want Me”, “Love and Leave It Alone”, “Sleeptalker” e “Hole”.

“Estranhamente, são músicas que tocamos ao vivo. Não são lados B, especialmente daquele disco. Não são músicas constrangedoras que acabaram não sendo usadas. São músicas que ainda amamos e acho que nossos fãs adoram quando tocamos ao vivo. De uma forma estranha, os lados B se parecem tanto parte do álbum quanto as músicas que estão realmente no álbum. São parte da história e igualmente importantes.”

*O Royal Blood se apresenta em São Paulo (Audio, 13/04) e Rio de Janeiro (Circo Voador, 16/04). Ingressos podem ser adquiridos no site Livepass.

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Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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