Beyoncé reivindica lugar dos negros no country em “Cowboy Carter”

Com referências também ao rock, álbum repassa história musical dos EUA sem parecer palestra — porque, acima de tudo, soa divertido

Abordado por Beyoncé em “Cowboy Carter”, o country é música de branco. Apesar de haver algumas estrelas negras ao longo da história, o gênero sempre foi percebido e – mais importante – apresentado como predominantemente feito por caucasianos.

Entretanto, a região dos Estados Unidos na qual esse tipo de música reina é também lar da maior porcentagem de afrodescendentes no país. Ray Charles já havia abordado a influência do country em sua obra ao chamar seu álbum de 1962 “Modern Sounds in Country and Western Music” – que ironicamente, apesar do nome, muitos até hoje descrevem como soul.

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Beyoncé Knowles cresceu em Houston, no Texas. Integra a mencionada parcela da população que cresceu num ambiente saturado de country. Vários temas da sua obra possuem paralelos óbvios com estrelas do passado e presente – amor, sexo, libertação feminina, lealdade. Mas quando a cantora mais popular de sua geração se apresentou no Country Music Awards de 2016 junto às Dixie Chicks (hoje apenas The Chicks) cantando uma canção ostensivamente no estilo, o establishment conservador chiou.

Isso deixou uma marca na psique de Beyoncé. Agora, ela vai à forra. “Cowboy Carter”, seu oitavo álbum de estúdio – e segundo de uma trilogia iniciada com “Renaissance” (2022) –, pode ser interpretado de diversas maneiras. Generosos dirão ser uma exploração histórica do country e da contribuição negra ao gênero; cínicos apontarão uma jogada de marketing caça-níquel.

Entretanto, existe cuidado demais presente no álbum para ser um mero golpe.

Reivindicando lugar

As raízes country de Beyoncé vêm desde antes de 2016. Como mencionado, ela cresceu em meio ao country. Ia a rodeios com o avô. Em 2007, apresentou-se com o grupo Sugarland, tocando uma versão bluegrass de seu hit “Irreplaceable” no American Music Awards. A artista sempre fez questão de proclamar seu amor por esse tipo de música.

“Cowboy Carter” soa tanto como uma tentativa de reivindicar o lugar de negros na história do country quanto uma provocação a algumas das maiores estrelas do gênero atualmente. Na última década e meia, o gênero viu um aumento considerável de cantores que usufruem de elementos normalmente associados ao hip hop e trap nas suas produções. Negros que fazem algo semelhante são imediatamente excluídos de qualquer conversa relacionada ao estilo.

Ao longo do álbum, Beyoncé oferece o holofote para estrelas do passado e presente do country negro brilharem. Linda Martell, pioneira na indústria, recebe inúmeras homenagens. Brittney Spencer, Reyna Roberts, Tanner Addell e Tiera Kennedy – todas estrelas em ascensão – formam um coro poderoso durante o cover de Blackbird, dos Beatles. Originalmente escrita por Paul McCartney como um ode a mulheres negras que lutaram por direitos civis nos Estados Unidos, a versão presente em “Cowboy Carter” ressalta essa inspiração 56 anos depois, adicionando o elemento de estarem brigando por um direito como artistas.

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Rhiannon Giddens aparece em “Texas Hold ‘em” tocando talvez o instrumento mais associado ao caipira: o banjo. Entretanto, esforços da própria e de outros musicólogos como Jake Blount nos últimos anos têm elucidado o público sobre as origens africanas do instrumento e de boa parte das pedras fundamentais do country.

Ao reimaginar “Jolene”, clássico de Dolly Parton sobre uma mulher com medo de que outra mais bela roube seu marido, Beyoncé traça uma linha entre a canção original e seu álbum mais confessional, “Lemonade” (2016). O próprio ato de chamar o álbum de “Cowboy Carter” remete aos elementos mais tradicionais do country, pois Carter é seu sobrenome de casada. Tammy Wynette entrou para a história ao cantar “Stand By Your Man” – e tal ato se encaixa nesse costume.

Sem palestrinha ou marketing

O maior trunfo do disco, no entanto, é o fato de soar como uma viagem ao longo da história musical dos Estados Unidos sem soar como uma palestra ou dever de casa. “Texas Hold ‘em” nasceu clássico de quadrilha, “16 Carriages” é uma bela balada contando histórias de dificuldades enfrentadas por qualquer um e “Bodyguard” é simplesmente um deleite ao estilo Fleetwood Mac.

Por meio de seu clássico de 1975 “Landslide”, o Mac é até diretamente interpolado em “II Most Wanted”. Para o dueto com Miley Cyrus, Beyoncé ainda recrutou Adam Granduciel (The War on Drugs) e os produtores Shawn Everett e Jonathan Rado para dar ainda mais clima roqueiro à faixa.

Willie Nelson aparece como um guia gentil pela audição de “Cowboy Carter”. Suas intervenções vêm após uma viagem histórica pela evolução da música negra – do blues de Son House até Sister Rosetta Tharpe eletrificando o hino gospel “Down by the River Side”, passando por Roy Hamilton com “Don’t Let Go” e Chuck Berry com “Maybellene” – tudo na velocidade de um dial de rádio. 

Se fosse apenas uma jogada de marketing cínica, por que existe tanto de Beyoncé nesse álbum? Por que tantos temas discutidos pela cantora ao longo de sua carreira também estão presentes em inúmeros discos de country?

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Porque, para Beyoncé, se trata de uma parte importante da história dela, mesmo se o establishment do country nunca a aceitou. A mensagem de “Cowboy Carter” é simples: aceitem ou não, vocês não criaram isso sozinhos e não detêm o monopólio.

*Ouça “Cowboy Carter” a seguir, via Spotify, ou clique aqui para conferir em outras plataformas digitais.

Beyoncé — “Cowboy Carter”

Foto: Blair Caldwell
  1. Ameriican Requiem
  2. Blackbiird (original dos Beatles; com Brittney Spencer, Reyna Roberts, Tanner Adell and Tiera Kennedy)
  3. 16 Carriages
  4. Protector (com Rumi Carter)
  5. My Rose”
  6. Smoke Hour / Willie Nelson (com Willie Nelson)
  7. Texas Hold ‘Em
  8. Bodyguard
  9. Dolly P (com Dolly Parton)
  10. Jolene (original de Dolly Parton)
  11. Daughter
  12. Spaghettii (com Linda Martell e Shaboozey)
  13. Alliigator Tears
  14. Smoke Hour II (com Willie Nelson)
  15. Just for Fun (com Willie Jones)
  16. II Most Wanted (com Miley Cyrus)
  17. Levii’s Jeans (com Post Malone)
  18. Flamenco
  19. The Linda Martell Show (com Linda Martell)
  20. Ya Ya
  21. Oh Louisiana
  22. Desert Eagle
  23. Riiverdance
  24. II Hands II Heaven
  25. Tyrant (com Dolly Parton)
  26. Sweet / Honey / Buckiin’ (com Shaboozey)
  27. Amen

Samples e interpolações:

  • “Blackbiird” é um cover da música “Blackbird”, dos Beatles.
  • “Smoke Hour / Willie Nelson” traz trechos de “Grinnin’ in Your Face” de Son House, “Maybellene” de Chuck Berry, “Don’t Let Go” de Roy Hamilton e “Down by the River Side” de Rosetta Tharpe.
  • “Jolene” é um cover da música de Dolly Parton, com o mesmo nome, embora apresente mudanças significativas na letra.
  • “Daughter” interpola a ária “Caro Mio Ben”, escrita e composta por Tommaso Giordani.
  • “Spaghettii” traz falas de Linda Martell e uma sample da música “Aquecimento das Danadas”, do DJ brasileiro O Mandrake.
  • “II Most Wanted” interpola a música “Landslide” do Fleetwood Mac.
  • “Ya Ya” contém um sample de “These Boots Are Made for Walkin'”, escrita por Lee Hazelwood e originalmente interpretada por Nancy Sinatra; também interpola a música “Good Vibrations” dos Beach Boys.
  • “Oh Louisiana” contém sample da música de mesmo nome de Chuck Berry.
  • “II Hands II Heaven” contém uma amostra da música “Born Slippy Nuxx”, do Underworld.
  • “Sweet / Honey / Buckiin” interpola a música “I Fall to Pieces” de Patsy Cline.

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

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