A saga completa por trás do disco de estreia do Rush

Gravado com o baterista original John Rutsey e recusado por gravadoras, álbum teve vendas expressivas que abriram as portas dos EUA para a banda

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A segunda metade dos anos 1960 viu Cream e Jimi Hendrix Experience popularizarem o power trio. Composto por guitarra, baixo e bateria, o formato tem alguns pré-requisitos, como competência técnica para que não pareça que está faltando algo. E soar como uma combinação perfeita, apesar de enxuta, foi desde os tempos mais primórdios o objetivo do Rush.

Vestido com reluzentes roupas de cetim ornadas com lantejoulas e pedrarias, o power trio composto pelo baixista e vocalista Geddy Lee, o guitarrista Alex Lifeson e o baterista original John Rutsey tinha o visual de uma banda de rock, mas, acima de tudo, soava como uma.

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Alguns fãs podem até argumentar que o Rush só se tornou o Rush quando Neil Peart substituiu Rutsey em julho de 1974. Contudo, antes de se tornarem arranjadores musicais complexos e arautos das novas tecnologias, eles eram o que Gene Simmons, do Kiss, chamou de “Led Zeppelin Júnior”.

Seu disco de estreia, lançado há 50 anos, é o testemunho dessa era. Conheça a história.

De Willowdale para o mundo

Em uma amizade que remonta à infância, Lifeson (nascido Aleksandar Živojinović) e Rutsey uniram forças com o baixista e vocalista Jeff Jones para criar o Rush no bairro de Willowdale, em Toronto, Canadá, no mês de agosto de 1968.

Devido a dificuldades logísticas, Jones sugeriu que Gary Lee Weinrib, colega de escola de Lifeson, o substituísse. Sob o nome artístico Geddy Lee, Weinrib prontamente assumiu o baixo e o microfone no Rush.

Em um depoimento reproduzido no livreto da coletânea dupla “Chronicles” (1990), Geddy contou:

“Alex e eu éramos praticamente vizinhos de bairro. Nos conhecemos no oitavo ano. Alex costumava pegar emprestado meu amplificador o tempo todo. Tocávamos em cafés em troca de refeições. Na época, eu trabalhava na loja de ferragens da minha mãe. Alex, em um posto de gasolina.”

Em 1969, o Rush começou a se apresentar mais profissionalmente. No repertório, covers de artistas como John Mayall e Cream. “Alex fingia que era Eric Clapton, eu fingia que era Jack Bruce, e tocávamos ‘Spoonful’ por vinte minutos”, lembra Lee.

Logo após tornar-se um quarteto com a adição de Lindy Young nos teclados, a SRO Productions, liderada por Ray Danniels e Vic Wilson, entrou em cena. Por razões desconhecidas, Danniels considerou Lee inadequado e o expulsou da banda. Na autobiografia “My Effin’ Life” (Belas Letras, 2023), o baixista relembra:

“A forma como todos agiram foi enganosa e francamente terrível. Fiquei chocado e magoado. Mesmo assim, não queria ficar sentado sentindo pena de mim mesmo, então disse: ‘Que se danem eles’ e decidi começar minha própria banda.”

Quase cinquenta anos depois, Lee soube que sua demissão foi ideia de um Rutsey ansioso para reinventar a imagem da banda com “alguém mais descolado”. Passado um único show desastroso com Joe Perna, John convidou Geddy de volta.

Em 1971, ano em que a idade legal para consumo de álcool no Canadá caiu para 18 anos, o Rush, de novo um trio, abandonou os teclados e focou em músicas autorais. Com seis anos de palco nas costas, eles sabiam exatamente qual era o próximo passo para alcançar o sucesso.

Gravações noturnas e decisão questionável de single

Mesmo que isso significasse fazer alguns sacrifícios financeiros, o Rush começou a declinar de alguns shows menores para poder se dedicar à gravação de seu álbum de estreia. Vic e Ray garantiram o financiamento necessário para que a banda entrasse em estúdio em abril de 1973.

Oito horas depois da primeira sessão no Eastern Sound, em Toronto, metade do disco já estava pronta. “Gravamos todas as faixas-guia na primeira noite”, recorda-se Geddy.

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Como não ficaram satisfeitos com o resultado, mudaram de estúdio e de produtor. Com as fitas originais em mãos, os músicos chegaram ao Toronto Sound de Terry Brown — conhecido por seu trabalho junto a April Wine e Procol Harum —, regravaram parte do material e remixaram o restante. Três dias depois, tinham seu álbum. Eram oito faixas, algumas com até sete minutos; todas compostas por Lee e Lifeson, exceto uma, “In the Mood” — sem relação com o clássico de Glenn Miller —, de autoria somente de Lee, que conta:

“Nossos empresários bancaram a gravação do álbum. Por isso, tivemos que fazer de forma econômica, gravando tarde da noite, depois do expediente. O problema é que nosso produtor, David Stock, não era tão bom assim. Então tivemos que gravar aquele álbum duas vezes.”

Apesar de a qualidade da gravação com Stock claramente ter deixado a desejar, Danniels não se abalou e lançou a versão do trio para “Not Fade Away”, dos Rolling Stones, num compacto independente com a autoral “You Can’t Fight It” no lado B. “Era uma música que as pessoas conheciam”, explica Lifeson em entrevista à Classic Rock.

“A ideia dos empresários era: vamos lançar algo que as pessoas encarem como uma introdução. Acho que foi uma decisão ruim. Tocar essa música ao vivo era ótimo. Tocávamos de forma bem pesada. Soava muito bem. Mas a versão gravada ficou terrível.”

Por nunca ter sido reeditado em nenhum formato, o compacto, que atingiu a 88ª posição no Canadá, é considerado uma raridade e revendido a valores astronômicos.

Entre rejeições e autonomia

Embora o Rush tenha construído uma reputação como uma das melhores bandas de Toronto e se tornado uma sensação no underground, a indústria fonográfica canadense simplesmente não valorizava a prata da casa. Talentos como Joni Mitchell, Neil Young e o Steppenwolf precisaram ir para o sul da fronteira para obterem o reconhecimento que tanto mereciam. 

Ciente dessa barreira, Vic e Ray saíram em busca de um lar para o disco do Rush pedindo praticamente nada de adiantamento e uma quantia mínima a ser investida em divulgação. Ainda assim, os empresários não tiveram sucesso na empreitada. “Fomos rejeitados por todas as gravadoras do Canadá”, relembra Lee. “Entendíamos que não éramos comerciais. As gravadoras estavam buscando hits, e nós não éramos uma banda de hits”.

Em entrevista à Eye Magazine em março de 1974, o baixista expressou sua insatisfação dizendo:

“As gravadoras canadenses estão interessadas apenas em dinheiro na mão e hits. Tentam moldar você em uma banda comercial e têm medo de investir em uma banda a longo prazo.”

Tendo investido pesadamente no produto, Vic e Ray decidiram, então, estabelecer sua própria gravadora, a Moon Records, e lançaram o álbum por conta própria, com distribuição da London Records e uma quantidade insignificante de propaganda. A previsão inicial era lançar “Rush” em dezembro de 1973, mas, devido à escassez de matéria-prima e outras complicações típicas da indústria fonográfica, a chegada às lojas foi adiada para 18 de março de 1974.

“Desculpe, mas já ouvimos tudo isso antes”

“Para melhores resultados, ouça no volume máximo”, instruía a contracapa de “Rush”.

Representação eficaz e rudimentar do som da banda na época, o disco traz desde a banda operando em modo zeppeliano na abertura “Finding My Way” — qualquer semelhança com “Celebration Day”, do Led, é mera coincidência — a “Working Man”, uma quase jam que antecipa o quão empolgante o Rush podia ser ao vivo.

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“Working Man” também se notabiliza por ser a única da era Rutsey mantida no repertório pela maior parte dos quarenta anos de carreira do Rush, que geralmente a tocava para encerrar o show. Em “My Effin’ Life”, Geddy conta que escreveu a versão final da letra na véspera da gravação e explica seu significado:

“Eu estava cantando sobre qualquer pessoa que realmente dava duro, qualquer um que tentava ganhar a vida mesmo sem ter muita perspectiva. A música fala de querer mais da vida do que só isso (…) Você tem que exigir mais da vida.”

Na mídia, prevaleceram as resenhas negativas. A Circus chamou o álbum de “involuntariamente engraçado”. A edição de outubro de 1974 da Good Times acusou Lee de ser “outro garoto com complexo de Robert Plant”. Comparações com o Led também definem a crítica da Melody Maker de fevereiro de 1975: “Uma cópia (…) desculpe, rapazes, mas já ouvimos tudo isso antes”. No mês seguinte, a publicação mudaria o tom: “Um álbum de estreia mais do que promissor”.

Tanto Lee quanto Lifeson comungam do pensamento de que sua estreia em disco foi decepcionante. “Fiquei envergonhado com o resultado”, diz o baixista. “Era tão… simplório.” O guitarrista reitera:

“Simplesmente não parecia nós. Éramos uma banda de rock pesado. Tínhamos algumas músicas poderosas, como ‘Working Man’, ‘What You’re Doing’. Mas aquele disco soava muito manso.”

Rush em solo americano

“Manso” ou não, o álbum “Rush” começou a fazer burburinho nos Estados Unidos. Em Cleveland, com a ajuda de Donna Halper, uma radialista local, o LP, importado do Canadá, se tornou um best-seller em números que hoje ultrapassam a casa das 500 mil cópias vendidas.

O boca a boca não passou batido pela Mercury Records. Sediada em Chicago e que tinha o New York Dolls e o Bachman-Turner Overdrive na linha de frente de seu crescente rol de bandas de rock, a gravadora assinou um contrato de cinco álbuns com o Rush cerca de 24 horas após ouvi-lo pela primeira vez.

Na mesma época, Danniels e Wilson fecharam um acordo com Ira Blacker, poderoso vice-presidente executivo da ATI, uma importante agência de reserva americana. Com o disco nas prateleiras e uma turnê agendada, o Rush estava pronto para invadir os Estados Unidos. O giro por casas cuidadosamente selecionadas incluiria shows com Uriah Heep, Blue Öyster Cult, Premiata Forneria Marconi e Rory Gallagher.

No entanto, antes disso se materializar, Rutsey, que era diabético, foi tirado da banda. Comunicados à imprensa falavam sobre “diferenças musicais”, mas a verdade é que seus amigos de longa data temiam que sua saúde o impediria de encarar a vida na estrada.

O substituto viria na figura de um canadense chamado Neil, que depois de anos radicado no Reino Unido tentando a sorte na carreira musical, voltaria para casa decidido a tomar parte nos negócios da família. O resto é história.

Rush — “Rush”

  • Lançado em 18 de março de 1974 pela Moon Records
  • Produzido pelo Rush

Faixas:

  1. Finding My Way
  2. Need Some Love
  3. Take a Friend
  4. Here Again
  5. What You’re Doing
  6. In the Mood
  7. Before and After
  8. Working Man

Músicos:

  • Geddy Lee (voz, baixo)
  • Alex Lifeson (guitarra, backing vocals)
  • John Rutsey (bateria, percussão, backing vocals)

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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