A história do capítulo esquecido do Mötley Crüe em 1994

Banda ícone do hard rock explorou novas sonoridades junto ao vocalista John Corabi; único disco da parceria vendeu mal e turnê foi fracasso de bilheteria

No ano de 1994, o Mötley Crüe lançava seu primeiro álbum desde a saída do vocalista original, Vince Neil. Com John Corabi nos vocais, a banda explorou novos caminhos tanto na composição quanto no som.

“Na época em que Vince deixou a banda, sabíamos que, se havia algo que tínhamos feito no passado, não estávamos dispostos a reviver”, disse o baixista Nikki Sixx. “Gravamos um ótimo trabalho com John, e tínhamos certeza de que venderia milhões de cópias”.

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Ele não poderia estar mais equivocado.

Esta é a história de “Motley Crue”, disco quase homônimo do Mötley Crüe — não fosse pela ausência de tremas —, lançado em 1994.

“Ele diz que foi demitido, eu digo que ele se demitiu”

12 de fevereiro de 1992. Uma reunião foi convocada na casa de Nikki Sixx. Vince Neil não havia sido convidado.

Naquela quarta-feira pela manhã, o empresário Doug Thaler, o tour manager Chuck Shapiro e o advogado David Rudich tentaram dissuadir Sixx, o guitarrista Mick Mars e o baterista Tommy Lee de se livrarem de Vince. Em jogo estava um contrato de US$ 25 milhões com a Elektra Records; e o selo poderia muito bem rescindi-lo se o vocalista saísse, o que arruinaria a carreira do Mötley Crüe.

Mas Tommy e Nikki insistiram: eles estavam de saco cheio. Uma votação foi realizada e o resultado foi unânime: Vince estava fora.

Segundo Mick, como consta no Santo Graal das biografias de rock “The Dirt” (ReganBooks, 2001), o clima estava ruim e a tensão vinha se acumulando há anos. Mas o guitarrista reconhece que pode ter havido algum exagero pela gota d’água ter sido a falta de Vince a um ensaio:

“Cada pessoa no mundo tem qualidades e defeitos. E acho que começamos a cometer o erro de focar nos defeitos de cada pessoa em vez de olhar para qual era o melhor atributo dela e com o que contribuía para a banda (…) Embora eu não estivesse feliz com a postura de Vince, não importava se ele estava no ensaio ou não. Eu estava trabalhando na música, e você precisa terminar a música antes de pensar em adicionar os vocais.”

Na visão de Sixx, talvez se Neil tivesse entrado e se desculpado, tudo teria ficado bem.

“Exceto por Mick, estávamos todos saindo dos trilhos, mas Vince era o único que estava deixando isso afetar seu trabalho, atrasando o tempo todo e mentindo constantemente sobre isso (…) ‘Sabe de uma coisa?’ eu lhe disse. ‘Estamos pensando em trocar de vocalista’.”

Discussões sobre o material que estava sendo escrito culminaram no vocalista, insatisfeito, finalmente gritando com seus colegas que estava fora e saindo em direção à porta. Nikki comenta:

“Ele diz que foi demitido, eu digo que ele se demitiu. De qualquer forma, sua cabeça estava a prêmio e ele nos deu uma boa desculpa para baixar o machado.”

Olhando retrospectivamente, no entanto, o baixista reconhece: Vince não era o problema, ele foi apenas o bode expiatório.

“Estávamos exaustos. Tínhamos feito turnês sem parar, e depois fomos jogados de volta ao estúdio sem um único intervalo (…) Estávamos sendo pressionados demais. Alguém deveria simplesmente ter intervindo, percebido que estávamos sob muita pressão e nos dado um mês para relaxar sob o sol nas Bahamas.”

“Você está olhando para o novo vocalista do Mötley Crüe”

John Corabi não era o que se pode chamar de fã do Mötley Crüe. Ele não possuía nenhum álbum na coleção e não tinha assistido a nenhum show. Ainda assim, quis telefonar para Nikki Sixx e agradecê-lo por mencionar sua banda, The Scream, e o primeiro disco dela, “Let It Scream”, durante uma entrevista na revista Spin. Como quem não quer nada, também aproveitaria para ver se o baixista topava escrever algumas músicas com ele para o próximo álbum do grupo.

Corabi ligou para o escritório de Doug Thaler, se apresentou e disse que queria agradecer a Sixx pela menção. A secretária anotou seu número e assegurou que o baixista receberia a mensagem. Desligou sem esperar que Nikki retornasse a ligação; o que aconteceu muito rapidamente conforme se lembra em “The Dirt”:

“O telefone tocou (…) ‘E aí, cara, é o Nikki Sixx.’ ‘E o Tommy, cara!’ ‘Hum, e aí, beleza?’, perguntei, sem ter certeza se era um trote ou não. Conversamos um pouco sobre a entrevista da Spin, e então Nikki me cortou. ‘O negócio é o seguinte. Você tem que prometer não contar isso a ninguém porque ainda não fizemos um anúncio, mas o Vince está fora da banda. Então, o Tommy e eu estávamos pensando se você gostaria de vir e tocar conosco um dia.’ ‘Você quer dizer fazer um teste para vocês?’ ‘Sim, um teste. Que seja.’ ‘Ok, cara. Claro. Sem problema. Hum, obrigado.’ Liguei para meu empresário e perguntei o que eu deveria fazer. Ele disse para manter tudo em segredo até segunda ordem.”

Três dias depois, veio o teste. Quando Corabi entrou no estúdio em Burbank, lá estavam Nikki, Tommy e Mick, tocando “Angel”, de Jimi Hendrix.

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“Soava alto, sujo e incrível. Eles eram uma banda entrosada. E tinham tanto equipamento na sala que parecia o Guitar Center (…) Eu gostei desses caras. Não conhecia suas músicas, mas já tinha estado em mais de cinquenta bandas cover, então conhecia todos os covers que eles faziam. Começamos com ‘Helter Skelter’ [dos Beatles]. Peguei o microfone, comecei a cantar, e após o primeiro verso eles pararam de tocar de repente. Engoli em seco. ‘Cara, é simplesmente insano’, disse Tommy antes de rir incrédulo. Ele gostou do que ouviu.”

Embora Tommy não conseguisse esconder a empolgação, Nikki e Mick ficaram em silêncio. Por fim, lhe disseram que um novo teste seria feito no dia seguinte.

Quando Corabi retornou o segundo teste, Doug Thaler, Chuck Shapiro e David Rudich estavam presente. Ao final do que mais pareceu um ensaio, John, que também tocava guitarra, e Mick já tinham escrito a base da música “Hammered” e a parte acústica de “Misunderstood” — que contaria com backing vocals de ninguém menos que Glenn Hughes no corte final. Não havia dúvidas.

“Tommy se levantou e me disse. ‘Não precisa ser um cientista para entender isso. Você é o cara!’ ‘Mas você não pode contar para ninguém ainda’, acrescentou Nikki. ‘Porque vai haver muita coisa legal para resolver.’ ‘Posso contar para minha esposa?’ perguntei a eles. Eles sorriram. ‘Sim, claro que pode contar para sua esposa.’ Em casa, contei a Valerie. ‘Trago boas notícias e más notícias. As boas são que fiz o teste e foi legal. As más são que você está olhando para o novo vocalista do Mötley Crüe.’”

“Achamos que tínhamos feito um álbum inteligente”

Entrevistado por Alan K. Stout, Nikki Sixx afirmou que, com John Corabi a bordo, o lado sombrio da banda emergiu maior do que nunca.

“Com Vince na banda, há esse elemento ‘Jekyll and Hyde’ onde fazemos coisas divertidas e coisas sombrias. Vince é o lado mais leve; a festa, as garotas, o ‘vocalista de rock ‘n’ roll supremo’. Quando ele saiu, permitiu que o lado mais sombrio viesse à tona (…) Pensamos que, se íamos ter um elemento diferente na banda, poderíamos muito bem explorá-lo.”

Corabi acrescenta que todos estavam “em novo território criativo e se divertindo de maneira estúpida e ofensiva”.

“Mick nunca havia trabalhado com um segundo guitarrista, Nikki nunca havia trabalhado om um segundo letrista, e a banda nunca havia composto músicas apenas improvisando.”

Sobre os tais improvisos, assim falou Tommy ao MTV News:

“Quando John veio para o teste, estávamos procurando um vocalista. Ele entrou e pegou uma guitarra. Ficamos tipo: ‘Uau, o que está acontecendo?’. Começamos a improvisar e ele disse: ‘Ei, saquem só esse riff’. Foi muito natural para nós nos juntarmos ao riff como banda e todos improvisarmos juntos e de repente o som ficou duas vezes mais poderoso. E todas essas coisas começaram naturalmente, então fluiu e aconteceu e fez seu próprio caminho.”

Pronto para começar a gravar o novo álbum, o Mötley Crüe trouxe o produtor Bob Rock para Los Angeles para começar a discutir ideias. Quando ele deu as caras, segundo Corabi, “seus olhos saltaram para fora da cabeça de horror”.

“Da última vez que ele tinha visto Nikki e Tommy, eles estavam sóbrios, mas agora fediam a bebida, seus narizes estavam em carne viva de tanto cheirar e mal conseguiam formar uma frase (…) Rock jogou as mãos para o céu: de jeito nenhum que ele produziria esse álbum, a menos que a banda se emendasse.”

Foi o que Nikki e Tommy fizeram. Ambos se comprometeram com a sobriedade para tentar repetir o sucesso de “Dr. Feelgood” (1989). Não só álcool e drogas estavam proibidos, mas também carne vermelha, cigarros e café. Vitaminas eram ingeridas durante todo o dia, e eles malhavam de manhã com um personal trainer.

As gravações começaram nos estúdios A&M em L.A. e nos Little Mountain Studios de Bob, em Vancouver, Canadá. Após cinco meses de trabalho, mais dinheiro do que o gasto em todos os álbuns anteriores do Mötley juntos havia sido investido. Quatorze meses e US$ 2 milhões depois, o álbum finalmente estava pronto e a banda mal podia esperar para que os fãs ouvissem o que tinha feito. Corabi admite:

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“Achamos que realmente tínhamos feito um álbum inteligente do Mötley Crüe, com muitos comentários sobre as coisas malucas acontecendo no mundo, desde os tumultos de Rodney King em Los Angeles [‘Droppin’ Like Flies’] até as últimas da censura musical [‘Power to the Music’].”

“Os fãs não esperavam mudança tão drástica”

Lançado em 15 de março de 1994, com duas versões diferentes da capa — uma apresentando o nome da banda em vermelho e a outra em amarelo —, “Motley Crue” estreou em 7º lugar na Billboard 200. Na semana seguinte, no entanto, despencou para a vigésima oitava posição. Embora tenha recebido disco de ouro pela em 3 de maio daquele ano, acabou não vendendo tão bem quanto os álbuns anteriores do Mötley.

As resenhas foram divergentes. Todos os críticos observaram como a banda adaptou seu som característico às novas tendências do grunge e do metal alternativo. Contudo, se dividiram entre considerar essa mudança de estilo como um equívoco ou como essa mudança de foco para um estilo menos extravagante era mais adequada e atraente.

Para piorar, shows em arenas foram realocados para anfiteatros. Embora vinte mil pessoas tenham lotado o Palacio de los Deportes na Cidade do México em 15 de junho, a turnê estava indo mal.

Recusando-se a aceitar a derrota, Nikki e Tommy assinaram cheques de US$ 75 mil para manter a banda na estrada e Corabi abriu mão do seu salário semanal de US$ 10 mil pelo restante das datas. Os esforços foram inúteis: bastaram mais alguns shows mais vazios do que cheios até a turnê ser finalmente cancelada.

Sixx diz que, em retrospecto, manter o nome da banda e intitular o álbum “Motley Crue” foi o maior erro.

“Foi um álbum realmente empolgante e eu gosto muito dele. Contribuímos em muitos níveis. Acho que o que aconteceu foi que, com o nome ‘Motley Crue’ nele, isso confundiu as pessoas (…) A reação imediata veio dos fãs que não esperavam mudança tão drástica e sob o nome do Mötley Crüe. A coisa mais inteligente que poderíamos ter feito seria mudar o nome da banda. Isso nos permitiria ter aceitação ou negação completa e total com base na música, não com base no nome.”

Falando em erros, em novembro de 2022, a Rolling Stone classificou a demissão de Neil e a gravação do álbum como a 22ª pior decisão da história da música, afirmando que, em 1994, o grunge já estava em declínio. “Eles [Mötley Crüe] pareciam visitantes de outra era, e a turnê em apoio ao álbum se deu para oceanos de assentos vazios”.

No fim das contas, o próprio Corabi, na esperança de ser mantido como segundo guitarrista, sugeriu que a banda trouxesse Vince de volta. Mas a reunião da formação original teve não outra consequência que sua demissão em 1996. Ele, que chegou a ser retratado por um personagem sem qualquer fala e com pouquíssimos minutos de tela na adaptação cinematográfica de “The Dirt”, assegura:

“Se eu pudesse voltar atrás e reviver todas as minhas experiências com o Mötley Crüe, não mudaria nada sobre a primeira metade: conhecê-los, gravar o álbum em Vancouver, percorrer o país na nossa turnê promocional. Mas na segunda metade, provavelmente faria algumas coisas de maneira diferente…”

Mötley Crüe — “Motley Crue”

  • Lançado em 15 de março de 1994 pela Elektra
  • Produzido por Bob Rock

Faixas:

  1. Power to the Music
  2. Uncle Jack
  3. Hooligan’s Holiday
  4. Misunderstood
  5. Loveshine
  6. Poison Apples
  7. Hammered
  8. Til Death Do Us Part
  9. Welcome to the Numb
  10. Smoke the Sky
  11. Droppin’ Like Flies
  12. Driftaway

Músicos:

  • John Corabi (vocais, violão, guitarra rítmica, baixo de seis cordas)
  • Mick Mars (guitarra solo, baixo de seis cordas, sitar, bandolim, backing vocals)
  • Nikki Sixx (baixo, piano, backing vocals)
  • Tommy Lee (bateria, piano, backing vocals)

Músicos adicionais:

  • Scott Humphrey (programação e sintetizadores)
  • Glenn Hughes (backing vocals na faixa 4)
  • Marc Lafrance, Dave Steele – backing vocals
  • Hook Herrera (gaita)
  • Sammy Sanchez (bandolim)
  • Membros da Orquestra Sinfônica de Vancouver e da Orquestra de Ópera de Vancouver
  • Akira Nagai (concertino)

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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