Garotas no palco e no front: Bikini Kill põe público para pular e cantar em São Paulo

Com mudanças pontuais no setlist, icônico grupo punk feminista encheu 2ª noite na Audio, com Weedra, Punho de Mahin e Mercenárias abrindo

“Nos divertimos tanto que tivemos que voltar”. Com essas palavras, Kathleen Hanna subiu ao palco para a segunda apresentação do Bikini Kill em São Paulo, numa Audio com pista abarrotada, mas sem esgotar os ingressos. E vieram a batida e o riff de “Double Dare Ya” para começar o show de forma um pouco diferente. O desejo pela “Revolution Girl-Style Now” foi o mesmo.

Após uma apresentação sold out de estreia na capital paulista, nove dias antes, na mesma casa de shows, o icônico grupo punk feminista retornou para encerrar sua primeira turnê latino-americana. Em evento organizado pela Associação Cultural Cecília, respeitado local de shows do underground paulistano, desta vez a banda esteve ao lado de Weedra, Punho de Mahin e Mercenárias.

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Parte da arrecadação dos ingressos de ambas as apresentações será destinada à instituição Girls Rock Camp Brasil, que empodera meninas, mulheres e dissidências por meio da música. Os alimentos entregues na compra da meia entrada social — disponível para todos — serão doados para as aldeias Tekoa Pindo Mirim & Tekoa Itakupé, da terra indígena Jaraguá em São Paulo.

Legado punk feminista

Com legado que transcende a música, as integrantes do Bikini Kill, originalmente de Olympia, no estado norte-americano de Washington, também foram cofundadoras do movimento riot grrrl, que trouxe o feminismo à pauta nos anos 90.

Formado no início daquela década pela vocalista Kathleen Hanna, a baterista Tobi Vail e a baixista Kathi Wilcox, acompanhadas pelo guitarrista Billy Karren, o Bikini Kill conquistou certa repercussão com suas canções vigorosas, abrasivas e cativantes trazendo temas do universo feminino ao mundo predominante masculino e violento do punk rock.

A identificação com as mulheres da cena trouxe diversidade aos seus show e “girls to the front” “garotas à frente do palco” — virou a frase de ordem para tornar mais acolhedor o ambiente de seus shows às mulheres, constantes vítimas de todo o tipo de violência nas pistas dos shows punk.

Para a apresentação da Audio desta quinta-feira (14), havia cartazes espalhados pela casa pedindo a conscientização dos homens na pista e a forma de denúncia para situações de assédio. Como não estamos mais nos anos 1990, a abordagem contemplou também as interseccionalidades abrangidas pelo movimento feminista nos anos recentes.

Utilizando suas canções como manifestação política e avessas ao carreirismo musical, a banda se mudou da cena da costa noroeste do Oceano Pacífico, nos Estados Unidos, no momento que as bandas de Seattle explodiam. Kathleen Hanna, então uma das mais próximas amigas de Kurt Cobain, foi quem pichou em um muro a frase “Kurt smells like ‘teen spirit’”, referência a um perfume da época que se tornaria o maior hit do Nirvana.

O destino do Bikini Kill foi Washington D.C. A banda via a capital dos Estados Unidos mais condizente aos seus interesses revolucionários e se integrou ao Positive Force, movimento ativista dos membros da cena musical independente local, que tinha como maior ícone o Fugazi.

A pressão por ser um ícone político feminista acabaria também por implodir a banda na segunda metade dos anos 1990, após apenas dois discos, entre outros lançamentos de menor duração. As expectativas quase irrealizáveis de quem as tinha como um modelo a ser seguido se opunham a uma interminável perseguição pelos incomodados com o espaço ocupado pelas garotas.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

As integrantes seguiram com suas carreiras musicais. Hanna foi quem teve maior repercussão com Le Tigre. O grupo, mais afeito ao pop eletrônico, encerrou suas atividades em 2007 devido às complicações de uma então ainda não diagnosticada doença de Lyme sofrida pela vocalista.

Com Hanna já recuperada da doença, o trio feminino do Bikini Kill se reuniu inicialmente como uma homenagem à banda britânica The Raincoats em 2017. O Bikini Kill voltou de fato à ativa em 2019 com a guitarrista Erica Dawn Lyle, companheira de um dos projetos de Tobi Vail, no lugar de Billy Karren.

Desde 2022, Sara Landeau, parceira de Hanna na banda The Julie Ruin, é a responsável pelas seis cordas ao vivo. Foi ela quem acompanhou o grupo nesta primeira passagem pela América Latina, que incluiu shows no México, Chile, Argentina e Peru.

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Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Weedra aquece e Punhos de Sahin incendeia

A abertura da noite ficou por conta do trio paulista Weedra, que também anunciou ser seu show de despedida para uma Audio ainda esvaziada. A banda queer formada da junção dos grupos Wee e Hidra — ambos com músicas representadas no repertório desta noite, que ainda incluiu um cover do Hats como homenagem à falecida Cherry Taketani — iniciou a noite de forma mais lenta e introspectiva, com as guitarristas Carol Fernandes e Patricia Saltara revezando-se nos vocais. O tom mais intimista de suas músicas serviu mais como um aquecimento do corpo e dos ouvidos para as atrações seguintes.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Abrindo seus trinta minutos de palco de cara com a introdução imponente e a pancadaria da faixa “Xingó”, o Punho de Mahin mudou totalmente os ânimos da noite com um hardcore mais rápido e pesado e as letras de cunho político acentuado. O quarteto batizado em homenagem a uma das líderes da Revolta dos Malês (1835) focou seu repertório nas faixas do disco “Embate e Ancestralidade” (2022).

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Algumas das faixas executadas mostraram interessante uso de percussão modulando a agressividade e velocidade dos arranjos. Já as interações nos vocais entre a cantora Natalia Matos, o baixista Dú Costa e a guitarrista Camila Araújo funcionaram para dar mais versatilidade a sua vigorosa apresentação. Não faltou uma justa homenagem a Marielle Franco no dia em que se completaram seis anos de seu assassinato.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Audio enche para as Mercenárias

As últimas a se apresentarem antes da atração principal foram as Mercenárias, histórico grupo oitentista paulistano de pós-punk. Com apenas Sandra Coutinho da formação clássica e participação especial de Paula Rebellato, da cultuada banda Rakta, ajudando nos vocais e adicionando ruídos às faixas do grupo, os trinta minutos no palco começaram com o clássico “Dá Dó”, de sua demo de 1983.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

O público, que já preenchia bem a pista da Audio, vibrou com a bandeira da Palestina estendida sobre os monitores de Coutinho pouco antes da banda subir ao palco e manteve-se animado durante toda a apresentação. Os momentos mais marcantes ocorreram quando eram executadas músicas mais celebradas de seus discos “Cadê As Armas?” (1986) e “Trashland” (1987), como “Ação na Cidade”, “Há dez anos passados” e, na reta final do show, a dupla “Polícia” e “Santa Igreja”, com Rebellato assumindo a maior parte dos vocais.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Repertório — Mercenárias (provavelmente incompleto):

  1. Dá Dó
  2. Inimigo
  3. Meus Pais Já Não Me Mandam Mais
  4. Há Dez Anos Passados
  5. Ação na Cidade
  6. Eu Não Consigo Mais Dormir
  7. Danação
  8. Linha do Tempo Continua
  9. Homem Bicho
  10. Me Perco
  11. Trashland
  12. Polícia
  13. Santa Igreja

Ouse fazer o que quer, ouse ser quem você deseja ser

Trazendo um repertório ordenado com diferenças em relação à primeira apresentação em São Paulo nove dias antes, o Bikini Kill subiu ao palco após espera de quase uma hora desde a última atração. Logo de cara, tocou a representativa “Double Dare Ya”, de sua primeira demo “Revolution Girl Style Now” (1991), lançada depois de forma independente em vinil e faixa de abertura de seu primeiro EP homônimo de 1992.

Hanna, gritando no auge dos seus tons altos, já dava o recado: “Dare ya to do what you want, Dare ya to be who you will, Dare ya to cry right outloud” (“Te desafio a fazer o que você quiser, Te desafio a ser quem você quer ser, Te desafio a gritar muito alto”). O público já estava em suas mãos e seguiu assim em “Carnival”, outra faixa presente nos dois trabalhos citados.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Logo na terceira música, “New Radio” — single gravado com participação de Joan Jett em 1993 —, a vocalista se sentia à vontade para interromper sua execução no meio porque o público, pulando e cantando de forma alucinada, acompanhou “errado” a melodia. As integrantes começaram de novo e a galera na pista continuou gritando como queria. Afinal, é show de punk rock.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Carismática, Hanna corria pelo palco em “Jigsaw Youth”, do split “Yeah Yeah Yeah Yeah” (1992) lançado em conjunto com o Huggy Bear, e dançava imponente pela climática e catártica “Feels Blind”, dos citados dois primeiros trabalhos do grupo. Kathi Wilcox tocava seu baixo ao fundo do palco ao lado da bateria de tempo marcado de Tobi Vail, enquanto Sara Landeau era só um detalhe, recebendo quase nenhuma iluminação ao lado direito do palco.

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Instrumentos trocados

Uma das características do show do Bikini Kill é a troca de instrumentos entre as musicistas quando Tobi Vail toma a frente do palco como vocalista. Na primeira das três vezes em que isso aconteceu, Sara Landeau assumiu as baquetas e Kathi Wilcox ficou com as seis cordas, deixando Kathleen Hanna sempre no baixo. A baterista, de voz menos agressiva, cantou a cadenciada “I Hate Danger” e a veloz “In Accordance to Natural Law”, ambas lançadas em singles em 1995.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Com cada uma de volta aos seus respectivos instrumentos, o show teve sequência com a radiofônica “Demi Rep”, lado B do single “New Radio” (1993), e o refrão fácil de “Reject All American”, faixa-título do último trabalho do Bikini Kill, de 1996. A agitada “Alien She”, primeira da noite do clássico “Pussy Whipped” (1993), deixou a pista da Audio alucinada, que se manteve assim para “No Backrub”, outra do já citado disco final.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Na tensa “Sugar”, de “Pussy Whipped”, Hanna alternou seus gritados vocais agudos com alguns tons quase guturais e se jogou no chão, contagiada por sua letra sexual, antes de Vail tomar a frente do palco de novo. Dessa vez, Landeau se manteve nas guitarras e a bateria ficou com Wilcox para a cadenciada “Hamster Baby” e a introspectiva “Tell Me So”, ambas do mesmo disco de 1993.

Mudanças em relação a 1º show e fim apoteótico

Desfeita a troca dos instrumentos, os ânimos se elevaram para a cativante “This is Not a Test” com Kathleen Hanna de volta aos vocais e mantiveram-se assim para a rápida “Capri Pants”, de “Reject All American”, primeira faixa diferente das executadas na primeira apresentação em São Paulo.

A outra inovação do repertório viria apenas depois de “I Like Fucking” e “Rah! Rah! Replica”, faixas extraídas de singles lançados em 1995 e que trariam maior peso emocional para a apresentação. Dedicada à equipe técnica do grupo, a bonita “For Tammy Rae” foi a faixa cuja execução desencadeou a reunião da banda em 2017 e não era tocada havia algum tempo, motivo pelo qual Hanna mostrou certa tensão ao anunciá-la.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Vail, então, retornou à linha de frente pela última vez na noite e manteve o tom introspectivo com “For Only”, mas logo a velocidade aumentou um pouco na cadenciada “Distinct Complicity”, ambas do último trabalho do Bikini Kill. De volta à linha de frente para a parte final do repertório, Hanna deu o recado em “Don’t Need You”, do split “Yeah Yeah Yeah Yeah”: “don’t need you to tell us we’re good, don’t need you to say we suck” (“não precisa que você nos diga que somos boas, não precisa que você diga que somos péssimas”).

“Suck My Left One” encerrou a apresentação com pouco mais de uma hora para um público que berrou o nome da música no refrão. A espera foi de poucos minutos e o bis foi curto, grosso e apoteótico. Bastou a introdução da bateria de “Rebel Girl” para a pista inteira sair pulando e cantando a letra em uníssono até o refrão contagiante colocar um ponto final na noite.

Após duas noites com ótimo público em São Paulo, fica a dúvida se um retorno do Bikini Kill à cidade continuará com a mesma demanda sem a banda lançar qualquer novo material. Não é um fator impeditivo, a julgar pelo que acontece com bandas veteranas, para quem apenas uma minoria se interessa pelas músicas novas. Enquanto a desigualdade e a violência de gênero persistirem, a banda seguirá atual e relevante mesmo com músicas compostas trinta anos atrás.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Para isso, como Hanna apontou ao longo da noite ao agradecer a massiva presença do público, as pessoas precisam sair de casa e comparecer a eventos que despertem tal conscientização — como o desta noite, na Audio.

Foto: Tamira Ferreira @tamira.ferreira

Bikini Kill — ao vivo em São Paulo

  • Local: Audio
  • Data: 14 de março de 2024

Repertório:

  1. Double Dare Ya
  2. Carnival
  3. New Radio
  4. Jigsaw Youth
  5. Feels Blind
  6. I Hate Danger
  7. In Accordance to Natural Law
  8. Demi Rep
  9. Reject All American
  10. Alien She
  11. No Backrub
  12. Sugar
  13. Hamster Baby
  14. Tell Me So
  15. This Is Not a Test
  16. Capri Pants
  17. I Like Fucking
  18. Rah! Rah! Replica
  19. For Tammy Rae
  20. For Only
  21. Distinct Complicity
  22. Don’t Need You
  23. Suck My Left One

Bis:

  1. Rebel Girl

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Thiago Zuma
Thiago Zuma
Formado em Direito na PUC-SP e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Thiago Zuma, 43, abandonou a vida de profissional liberal e a faculdade de História na USP para entrar no serviço público, mas nunca largou o heavy metal desde 1991, viajando o mundo para ver suas bandas favoritas, novas ou velhas, e ocasionalmente colaborando com sites de música.

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