Entrevista: Dennis Stratton relembra dias no Iron Maiden às vésperas de shows no Brasil

Guitarrista que gravou o álbum de estreia da banda estreia nos palcos daqui em breve; bate-papo abordou ainda parceria com Paul Di’Anno, Praying Mantis e NWOTHM

Considerando que o Brasil é o país que mais escuta Iron Maiden em todo o mundo, levou um tempo para que Dennis Stratton, o guitarrista do álbum de estreia da banda, marcasse shows por aqui. Quatro décadas, para falar a verdade.

“Eu tinha alguns planos no passado que não deram muito certo”, fala o guitarrista, diretamente do estúdio de Phil Campbell no Reino Unido, referindo-se à turnê originalmente planejada para 2020. “Tudo parecia ótimo até que veio a pandemia, e tudo desmoronou. Desde então, o mundo enlouqueceu e tem estado uma bagunça”.

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Infortúnios globais à parte, ele fará uma turnê de nove datas pelo Brasil, com shows em Florianópolis (01/12), Curitiba (02/12), São Paulo (03/12), Goiânia (05/12), Brasília (06/12), Belo Horizonte (07/12), Vitória (09/12) e Rio de Janeiro (10/12). Para mais informações sobre locais e ingressos, clique aqui.

A “família Maiden” no Brasil sendo enorme e apaixonada, Stratton está contando com todo o apoio possível. “Sempre demonstraram muito apoio online, nos incentivando a ir para o Brasil. Então, vamos torcer para que apareçam nos shows”, destaca.

Na entrevista que você está prestes a ler, Dennis:

  • comenta os bastidores do álbum mais importante que já gravou;
  • revela seu último desejo relativo à banda;
  • dá sua opinião sobre a chamada New Wave of Traditional Heavy Metal (NWOTHM), movimento revivalista do “heavy metal clássico”;
  • e desfaz um dos maiores mal-entendidos de sua carreira: a parceria com o vocalista Paul Di’Anno nos anos 1990 que não passou de uma fraude.

Confira!

Entre clássicos e surpresas

Nos oito shows previstos para o Brasil, Dennis Stratton vai tocar na íntegra o primeiro álbum do Iron Maiden, de 1980. Porém, como teve uma participação significativa nas músicas de “Killers” (1981), incluirá algumas faixas desse no setlist também.

“Mesmo antes do lançamento do primeiro álbum, a coleção de músicas que Steve [Harris, baixista] e a banda tinham era extensa. Tínhamos material suficiente para escolher músicas para um set de 45 minutos, como nas aberturas para o Judas Priest ou o Kiss, ou fazer um show principal de uma hora e meia. Steve escolheu as músicas para o primeiro álbum, mas as músicas para o segundo álbum já estavam escritas. Então, nesta turnê, vocês ouvirão algumas faixas do segundo álbum também.”

O guitarrista também promete algumas surpresas.

“Tocaremos músicas que não entraram nos álbuns, mas foram tocadas ao vivo [na época] — e algumas histórias. Será um show e tanto.”

Sobre as “histórias”, ele explica:

“Os fãs brasileiros adoram fazer perguntas. Eles adoram interagir. Então os convidei a vir [aos shows] e me perguntar qualquer coisa. Não tenham medo; estou lá para responder!”

Dennis ainda não conheceu pessoalmente os músicos que se juntarão a ele no palco, mas já trocou figurinhas com eles por meio das redes sociais.

“Eles não são novatos; conhecem bem as músicas do Iron Maiden. Têm ensaiado e tocado juntos por anos como Blood Brothers em vários festivais.”

A formação que o acompanhará é composta por Leandro Caçoilo (Viper / Caravellus) no vocal, Piggy (Blood Brothers Project) na bateria, Ricardo Lima (Tosco, Scars e Tailgunners) na guitarra, Lely Murray também na guitarra e Lennon Harris no baixo — os dois últimos excursionaram com Paul Di’Anno e Blaze Bayley, ex-vocalistas do Maiden, no passado.

Curiosamente, parte dele a menção ao fato de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, estar a caminho do Brasil para uma participação na CCXP23. Quando Stratton tocava no Maiden, Dickinson era Bruce Bruce, cantor do Samson, uma subliderança na New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM). “Se ele estiver pela área, quem sabe, talvez se junte a nós para uma ou duas músicas. Seria fantástico revê-lo”, diz.

Nos bastidores do épico

Quando Dennis Stratton entrou para o Iron Maiden, Steve Harris e o guitarrista Dave Murray conheciam seu histórico de tocar com o RDB e fazer turnês com o Status Quo. O guitarrista diz que sua experiência com grandes plateias o ajudou.

Refletindo sobre a criação do álbum de estreia, o guitarrista assegura que o Maiden não percebeu que estava fazendo história na época.

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“Sendo jovens, não compreendíamos completamente o quão icônico o álbum se tornaria. E a gravadora queria agilidade. Era gravar e voltar para a estrada para mais turnês — fosse o final da Metal for Muthas ou o início do giro com o Judas Priest.”

Na visão de Stratton, os cinco — ele, Steve, Dave, o vocalista Paul Di’Anno e o baterista Clive Burr — estavam bem-preparados quando entraram no estúdio por tocarem essas músicas ao vivo todas as noites. Ainda assim, algumas delas mostraram-se desafiadoras, como “Charlotte the Harlot”, com seu ritmo acelerado. Mas experimentar com o tempo, como desacelerar “The Ides of March”, era “interessante”. “Cada música tinha suas peculiaridades”, diz.

O diferencial da estreia

Dennis acha difícil apontar o que diferencia o álbum homônimo do Iron Maiden dos discos de estreia de outras bandas da época e da NWOBHM, como Saxon (“Saxon”) ou Def Leppard (“On Through the Night”). Contudo, lembra que a base de fãs substancial — resultado do boca a boca naquela época — resultou em uma pré-venda significativa, a ponto de o grupo antecipar uma alta posição nas paradas, mas não apenas isso:

“As músicas eram um pouco diferentes, especialmente com as mudanças de tempo, dando ao Iron Maiden uma vantagem única. Bandas como o Saxon permaneceram fortes, mas não atingiram o topo, enquanto o Def Leppard encontrou sucesso massivo somente na América. O Maiden tinha tudo a seu favor, desde uma gravadora forte como a EMI por trás até uma base de fãs dedicada. E eles continuaram a lançar álbuns de peso e a expandir ainda mais sua base de fãs. Então, o segredo pode estar nos fãs e na natureza envolvente de suas músicas.”

Falando sobre as faixas do álbum, o guitarrista escolhe suas favoritas:

“Certas músicas se destacam para mim, como ‘Phantom of the Opera’ devido às suas mudanças de tempo e métrica. Também amo ‘Remember Tomorrow’ e ‘Strange World’ por suas partes mais lentas e melódicas. Sempre gostei de guitarras em harmonia, algo que eu trouxe para o Maiden, e eles usam até hoje.”

Mas ele também admira canções de outros álbuns, como “Wasted Years”, “2 Minutes to Midnight” e “The Evil That Men Do”, que destaca por suas “melodias cativantes”.

O último desejo de Dennis Stratton

Ver os fãs do Iron Maiden nas redes sociais ainda elogiando e discutindo o primeiro álbum dá a Dennis Stratton uma sensação de bem-estar. O disco, ele garante, ocupa um lugar especial não apenas no coração dos fãs, mas também no dele:

“Ter feito parte de um álbum icônico que sobreviveu ao teste do tempo e agora está gravado na história é incrível. É um dos álbuns de estreia mais icônicos de todos os tempos, e tenho orgulho de ter feito parte disso.”

Como alguém que o gravou, chamar o primeiro álbum de o melhor do Maiden pode ser um pouco tendencioso, mas Dennis destaca o “prazer indescritível” que sente quando os fãs expressam que a formação de que fez parte foi a melhor. “Aquece meu coração quando dizem isso, porque não sou eu dizendo; são os fãs”.

Quanto a se juntar ao Maiden no palco para algumas músicas em uma hipotética turnê de despedida, ele diria “sim” sem pestanejar:

“Falo regularmente com o Steve sobre várias coisas, e ele tem sido solidário durante os momentos difíceis. Eu sempre disse que meu último desejo seria subir no palco [com eles] novamente e tocar uma música que fosse. Seria o máximo.”

Um tremendo infortúnio

“É um ponto delicado para mim”, resume Dennis Stratton ao ser questionado sobre “The Original Iron Men”, álbum resultado de uma suposta colaboração com Di’Anno lançado em 1995. O motivo? Ele conta: “Preciso esclarecer que não participei do lançamento deste disco”.

No início dos anos 1990, Stratton fazia parte do Praying Mantis quando um “amigo” — Lea Hart, conhecido por ter sido vocalista do Fastway — sugeriu a ele gravar algumas músicas com a ideia de um projeto solo. No entanto, sem que Dennis soubesse, as coisas tomaram um rumo diferente.

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“Gravamos essas faixas e, sem o meu conhecimento, ele pegou essas gravações, acrescentou alguns vocais do Paul e lançou como ‘The Original Iron Men’. Fiquei uma fera. Lea basicamente lançou o álbum visando seu próprio lucro, chegando até a chantagear a gravadora do Praying Mantis [na época] para retirá-lo do mercado.”

Mesmo com esse tremendo infortúnio, trabalhar, gravar ou se apresentar com Paul no futuro ainda é uma possibilidade que ele não descarta inteiramente.

“Stjepan Juras [empresário de Paul e autor da série de livros Biblioteca Iron Maiden] e eu nos encontramos recentemente em Milão e tivemos uma longa conversa. Eu o assegurei de que, embora nunca direi ‘nunca’ a uma colaboração ou reunião, no momento, meu foco é a turnê no Brasil. É essencial para mim honrar os acordos e compromissos que assumi, especialmente com as pessoas que trabalharam muito para me levar ao Brasil. No próximo ano ou depois, quem sabe o que pode acontecer. Mas atualmente, não é o momento certo.”

Dennis também compartilha reflexões sobre seus 15 anos no Praying Mantis. Ao ingressar na banda em 1990, ele admirava suas composições e harmonias. Só havia um problema.

“Achava que o som era um pouco leve e faltava o peso que as outras bandas [oriundas da NWOBHM] tinha. Durante meu tempo como guitarrista, trabalhamos para aprimorar as harmonias, ao mesmo tempo em que tornávamos o som mais encorpado e robusto.”

Apesar desse esforço, pode ter havido limitações na forma como eram vistos, remontando ao período em que abriram para o Iron Maiden durante a histórica turnê Metal for Muthas. Segundo o guitarrista, o som “leve e pop” do Mantis pode não ter ressoado tão fortemente em comparação com o estilo mais pesado do Maiden, o que afetou o crescimento e o alcance do grupo.

A terceira banda pela qual Stratton é mais conhecido é a única da qual ele ainda faz parte: o Lionheart — não confundir com o homônimo brasileiro. Não só isso. O próximo álbum do grupo, “The Grace of a Dragonfly”, será lançado em 23 de fevereiro do ano que vem.

A mediocridade da NWOTHM

Chegando à reta final do bate-papo, Dennis confessa que, na primeira vez que viu a sigla NWOTHM, de New Wave of Traditional Heavy Metal, não compreendeu imediatamente do que se tratava. Embora presumisse que eram bandas jovens tocando o metal de antigamente, ele não se aprofundou muito.

Até que foi convidado para participar como convidado em um festival de três dias, “em algum lugar próximo a Middlesbrough”.

“Como só iria tocar no último dia, tive a chance de dar uma volta depois de pegar meu passe. Conforme as bandas entravam, percebi que era um daqueles festivais associados à New Wave of British Heavy Metal. Pensei: ‘Isso vai ser interessante’.”

De local privilegiado, ele pôde observar as bandas que se sucediam no palco. Estava ansioso, mas logo se viu diante de uma “evidente mediocridade”.

“Apesar da grande entrada com luzes, fumaça e uma ótima trilha de abertura, a performance deixava muito a desejar. Não pude deixar de pensar: ‘Onde está a qualidade que esses jovens que lideram essa nova onda deveriam ter?’ Fiquei desapontado porque o produto musical era bastante decepcionante. Essa foi minha única experiência com essas bandas da nova onda. Não ouvi ou vi muitas delas, mas com base nessa experiência, não fiquei muito impressionado.”

Serviço — Dennis Stratton no Brasil

Dennis Stratton fará uma turnê de nove datas pelo Brasil, com shows em Florianópolis (01/12), Curitiba (02/12), São Paulo (03/12), Goiânia (05/12), Brasília (06/12), Belo Horizonte (07/12), Vitória (09/12) e Rio de Janeiro (10/12). Para mais informações sobre locais e ingressos, clique aqui.

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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