Kiss faz show incendiário e, sem querer, ofusca Deep Purple em Brasília

Excesso de solos e Ian Gillan na base do carisma empacam britânicos; Gene Simmons "inteirão" e Paul Stanley nadam de braçada perante público ávido por espetáculo

Kiss e Deep Purple estão no Brasil ao mesmo tempo para um total de nove apresentações — cinco dos americanos, quatro dos britânicos —, mas em apenas duas ocasiões eles irão dividir palco. A primeira foi em Brasília, na noite de quarta-feira (18), no Metrópoles Music. A segunda e última será no próximo sábado (22), na 7ª edição do tradicional festival Monsters of Rock, em São Paulo.

Na capital federal, o Kiss se sobressaiu no primeiro encontro entre os dois gigantes do hard rock. Não que se trate de um embate ou de quem é melhor ou pior, mas o show incendiário do quarteto mascarado foi o ápice da noite no estádio Mané Garrincha — a ponto de, sem querer, ofuscar o ato de abertura, dado o contexto.

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Foto: @pccavera

Comandado por Paul Stanley (voz e guitarra) e um Gene Simmons (voz e baixo) “inteirão”, sem o menor vestígio de quem sofreu com desidratação em Manaus, há uma semana, o grupo americano saiu de Brasília ainda mais ovacionado do que da primeira vez que se apresentou na cidade, em 2015.

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Os dois maestros de cerimônia do Kiss nadaram de braçada, mesmo sem maiores novidades em termos de setlist e performance nesta nova perna da “End of the Road”, turnê que promete, mais uma vez, ser a última da banda. Stanley e Simmons fizeram a alegria de um público ávido por hits e pelo espetáculo, para além da música.

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Deep Purple engrena só no fim

Se o Kiss esteve em Brasília pela segunda vez, o Deep Purple desembarcava na cidade para sua terceira apresentação, após passagens em 1997 e 2014. Com certeza, a banda encontrou pela frente um público bem maior do que nas anteriores, quando tocou no Minas Tênis Clube e no, à época, NET Live — ainda que desta vez muitos estivessem ali, principalmente, para ver o grupo novaiorquino.

A novidade foi a estreia em solo brasileiro do guitarrista Simon McBride. Em 2022, ele herdou a vaga de Steve Morse, que saiu para acompanhar de perto a esposa na luta contra um câncer. Apesar de o visual de Simon não indicar isso — e na verdade até contrastar um pouco com o dos demais integrantes —, seu estilo é bem mais afeito ao hard rock e heavy metal do que o de Morse, criticado por modificar trechos originais. Fãs mais saudosos de Ritchie Blackmore não têm do que reclamar, pois o novato executa com fidelidade as faixas clássicas dos primórdios da banda.

Previsto para 20h, o show do Purple foi de uma pontualidade quase britânica. Às 20h13, a intro “Mars, the Bringer of War” abriu caminho para o grupo subir ao palco executando “Highway Star” logo de cara. E também, logo de início, foi possível perceber que o show seria impecável no aspecto instrumental, mas errático quanto ao desempenho de Ian Gillan. Do alto de seus 77 anos, o vocalista, obviamente, não tem mais o fôlego e alcance de outrora; porém, ele tem precisado cada vez mais subtrair sílabas das palavras, algo que tenta compensar com seu carisma.

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“Pictures of Home” mantém o pique inicial, mas o mesmo não acontece com “No Need to Shout”, boa música do álbum “Whoosh!” (2020), mas que ao vivo não segura a onda. Para piorar, logo depois vem o solo de Simon McBride, o primeiro de vários momentos em que essas inserções instrumentais quebram o ritmo e ajudam a empacar o show. Longo e sem acrescentar algo realmente relevante, o momento de destaque individual do novo guitarrista mais atrapalha do que contribui.

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Isso se mostrou algo recorrente ao longo da apresentação. Um música que levantava o público (“Lazy”), seguida por alguma friamente recebida (“Anya”) e depois um novo solo, desta vez do tecladista Don Airey. E aqui vale ressaltar: embora o solo tenha chamado mais a atenção no momento em que Airey pausa para tomar uma taça de vinho, ao longo das músicas, digamos, comuns, o eterno “substituto” de Jon Lord manda muito bem e faz jus ao legado do saudoso membro original. Airey é peça fundamental no Deep Purple atual — que agora chegou à chamada formação “MK IX”.

O show engrena realmente apenas na reta final, com um desflie de clássicos incontestáveis: “Perfect Strangers”, “Space Truckin'”, “Smoke on the Water” e dois fósseis da discografia embrionária do Purple: o cover de “Hush” e “Black Night”, lançados quando a maioria dos presentes do Mané Garrincha sequer havia nascido.

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Sem Steve Morse e a obrigatoriedade de tocar músicas dos discos gravados por ele, o Purple poderia ter investido em peças “cult”, mas factíveis, como “Into the Fire” e “Hard Lovin’ Man” ou até mesmo “Woman from Tokyo”, que não é brilhante, mas sempre levanta a galera. Ninguém aqui está pedindo algo impossível, como “Child in Time”.

No geral, o álbum “Machine Head” (1972) foi bastante contemplado, com seis músicas, mas o igualmente aclamado “In Rock” (1970) acabou relegado a apenas uma canção: “Black Night”, que, na verdade, sequer consta no tracklist original — entrou na versão comemorativa dos 25 anos do disco.

Repertório – Deep Purple

  1. Highway Star
  2. Pictures of Home
  3. No Need to Shout
  4. Solo de guitarra (Simon McBride)
  5. Uncommon Man
  6. Lazy
  7. When a Blind Man Cries
  8. Anya
  9. Solo de teclado (Don Airey)
  10. Perfect Strangers
  11. Space Truckin’
  12. Smoke on the Water

Bis:

  1. Hush (cover de Joe South)
  2. Solo de baixo (Roger Glover)
  3. Black Night

O imbatível “pão e circo” do Kiss

O Kiss, por sua vez, empilhou hits praticamente do início ao fim. Por mais que também insira solos de guitarra, bateria e baixo, a banda o faz de forma mais sucinta, conectada com as músicas a seguir e com forte apelo imagético — como é o caso de Gene Simmons puxando “God of Thunder”.

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Por falar nessa música e nessa parte do show, com Simmons cuspindo sangue e vociferando como um verdadeiro “demon”, vale o parênteses: eles, por si só, explicam completamente o motivo de o Kiss ser apontado como grande ou principal influência para oito a cada 10 bandas de metal extremo, do death ao black metal; do Death, de Chuck Schuldiner, ao Venom, de Cronos e cia.

Mas voltemos ao rock’n roll festivo, que atendeu plenamente aos anseios do público de Brasília. O Kiss subiu ao palco às 22h45, 45 minutos depois do previsto e com mais de uma hora de intervalo após o show do Deep Purple. Algo que se justifica pela complexa montagem de palco da banda — e nada que não tenha se dissipado logo nos primeiros acordes de “Detroit Rock City”.

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À exceção da troca de “Tears Are Falling” por “Makin’ Love”, o extenso repertório – quase duas horas de apresentação – foi basicamente o mesmo que a banda apresentou no Brasil em 2022, no que era para ser a última vez dos caras por aqui. Para surpresa de zero pessoas, não foi. Mas, certamente, ninguém se importou.

Impressiona como músicas pueris e até bestas, como “War Machine”, “Do You Love Me” e “Heaven’s On Fire”, se transformam ao vivo, assumindo a forma de canções implacáveis, em que pouco ou nada importa o refinamento da composição ou o que diz a letra. Rock também pode ser só diversão, como Paul Stanley não cansa de repetir: “Brasííííília, are you having a good time?” (“Vocês estão se divertindo?”).

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“Shout it Out Loud” e “Black Diamond” foram alguns dos momentos de resposta mais efetiva, assim como a dobradinha entre “Love Gun” e a dançante “I Was Made for Lovin’ You”, quando Stanley, tradicionalmente, pega a “tirolesa” e vai para o elevado no meio do público. A old school “Cold Gin”, raiz demais para muitos ali, e a já citada “Makin’ Love” foram os pontos mornos do show.

Nem mesmo as críticas de que a banda usa playback ou bases pré-gravadas em diversas passagens pareceram tirar o sorriso dos rostos presentes, muitos deles maquiados à carater. No bis, a balada “Beth” incute um pouco de sensibilidade até no maior dos cafajestes, e “Rock and Roll All Nite” fecha o placar de um jogo ganho desde o primeiro minuto. Mais uma noite difícil para os detratores do Kiss.

Repertório – Kiss

  1. Detroit Rock City
  2. Shout It Out Loud
  3. Deuce
  4. War Machine
  5. Heaven’s on Fire
  6. I Love It Loud
  7. Say Yeah
  8. Cold Gin
  9. Solo de guitarra (Tommy Thayer)
  10. Lick It Up
  11. Makin’ Love
  12. Calling Dr. Love
  13. Psycho Circus
  14. Solo de bateria (Eric Singer)
  15. 100,000 Years (trecho)
  16. Solo de baixo (Gene Simmons)
  17. God of Thunder
  18. Love Gun
  19. I Was Made for Lovin’ You
  20. Black Diamond

Bis:

  1. Beth
  2. Do You Love Me
  3. Rock and Roll All Nite

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Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves
Guilherme Gonçalves é jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG). É repórter do Globo Esporte e atua no jornalismo esportivo desde 2008. Colecionador de discos e melômano, também escreve sobre música e já colaborou para veículos como Collectors Room e Rock Brigade. Atualmente revisa livros da editora Estética Torta e é editor do Morbus Zine, dedicado ao death metal e grindcore.

7 COMENTÁRIOS

  1. Engraçado como podem existir pessoas com opiniões completamente diferentes sobre um mesmo show rsrs até a qualidade do som no Deep Purple estava melhor… enfim… segue o jogo!

  2. O único quesito que o kiss poderia ofuscar o DP seria nas maquiagens (ridículas como sempre). Aliás, quem foi o retardado que colocou duas bandas tão diferentes no msm palco? O kids sempre foi uma banda comercial produtinho de mídia pra metaleiro criado com vó. Já o DP mostrou ao mundo um mundo de criatividade num momento que dezenas de ótimas bandas mudavam o rock. Desculpe mas a chance do kids fazer algo melhor que o DP ficou só na imaginação do repórter.

    • “O kids (Leia-se: Kiss) sempre foi uma banda comercial produtinho de mídia pra metaleiro criado com vó.”

      Marcius, se vc acha isso de uma das maiores instituições da música mundial, eu só tenho que agradecer a minha avozinha por ter me dado uma excelente educação…kkkkkkkkkkkkkkkkkkk!

      É melhor ler isso do que ser cego…kkkkkkkkkkkkkkkk
      Aff…Essa geração MiMiMi é foda mesmo.

      KiSS ARMY FOREVER!!!

  3. Discordo sobre o show do Deep Purple ter sido “morno”, eu achei fantástico do inicio ao fim, temos que relevar que Ian Gillan tem 77 anos, ele cantava um trecho e logo em seguida saia do palco pra descansar, mas sua voz estava ótima, cantando muito bem, a banda inteira muito afiada, o problema é que a maioria do público foi apenas para ver o Kiss. Em relação ao Kiss, não tem o que dizer, foi um espetáculo, o ponto baixo foi o brasileiro fazendo coisa de brasileiro, no final do show ao invés de usarem os balões para jogar pro alto, os espertos seguraram para levar pra casa, atrapalhando um dos momentos mais legais do show. Pra mim foi uma noite inesquecível, vi duas bandas lendárias ao vivo e aproveitei cada minuto. Até minha esposa que não escuta essas bandas e reclamou por 3 meses de ter que ir nesse show, saiu de lá encantada com as performances de ambas.

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