Karaokê coletivo: público canta por Paul Di’Anno em show no Rio de Janeiro

Sexta noite da presente turnê teve caráter celebratório e de agradecimento; show contou com filho de Carlinhos Brown na guitarra e estreia de “Iron Maiden” no repertório

Dez anos atrás, quando o Agyto Lapa ainda se chamava Teatro Odisseia, Paul Di’Anno, que estava em turnê de despedida, fez um show pontuado por acessos de tosse e pedidos de desculpa. O que se viu na noite da última quinta-feira (2), no sexto show da extensa turnê “The Beast is Back”, foi um artista ainda mais debilitado, mas num esforço hercúleo para entregar aos fãs que lotaram a casa uma noite memorável.

Da mesma forma que a necessidade faz o sapo pular, ter comido o pão que o diabo amassou nos últimos anos obrigou o vocalista, famoso por ter gravado os dois primeiros álbuns do Iron Maiden — “Iron Maiden” (1980) e “Killers” (1981) — a voltar à estrada atrás de grana para custear suas despesas médicas. Daí o porquê do itinerário aparentemente suicida de 31 datas somente no Brasil.

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A promessa desde o rabisco era de que Paul interpretaria os supracitados discos na íntegra, mas desde a tempestade ocorrida no desastroso show em Fortaleza, que inaugurou o giro, a ideia foi posta de lado. O enxuto repertório passou a prever, então, 14 músicas. E no Rio, pela primeira vez na tour, essas 14 foram executadas.

*Fotos de Paty Sigiliano / @paty_sigilianophotos

Atrações de abertura

O esquenta, além do Electric Gypsy, que misturou músicas próprias e covers de Van Halen (“Hot for Teacher”), Guns N’ Roses (“Welcome to the Jungle”) e AC/DC (“Shoot to Thrill”), contou com o Noturnall, do cantor Thiago Bianchi, divulgando o ainda quentinho das prensas “Reset the Game” (2022). Mas o ponto alto da curta performance foi a releitura de “O Tempo Não Pára”, de Cazuza, cujo verso “eu vejo um museu de grandes novidades” parece definir com perfeição o trabalho autoral dos caras.

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Electric Gypsy:

Noturnall:

Karaokê coletivo

Este jornalista acompanhou o exato momento da chegada de Paul Di’Anno ao local do show, sob aplausos dos que tinham acabado de curtir a abertura dos mineiros do Electric Gypsy. Mas ao invés de comentários acerca da condição de cadeirante ou da circunferência abdominal, reconhecimento ao guerreiro cuja obra quarentona foi tão marcante e é tão importante para cada um dos presentes.

Sendo assim, o público fez as vezes de vocal principal durante a uma hora e pouquinho que durou a apresentação de Paul. Rouco pra caramba e com o vocal suprimido na mix da casa, ele cantou quase que num esquema de chamada-e-resposta, jogando para a galera nos momentos em que o fôlego da juventude e o alcance de outrora fazem falta.

Ninguém se queixou de fazer parte do grandissíssimo karaokê coletivo que músicas como “Purgatory”, “Sanctuary” e “Killers” se transformaram. Tampouco houve corpo mole quando “Murders in the Rue Morgue” e a instrumental “Genghis Khan” foram acompanhadas de um misto de roda de pogo com dança tribal.

Assista a vídeo de “Killers” gravado por João Marcello Calil:

Peça que faltava e convidado especial

À banda, composta por integrantes do Noturnall e do já mencionado Electric Gypsy, juntou-se um terceiro guitarrista: Chico Brown, filho de Carlinhos Brown. Sua técnica impressionou ainda na passagem de som, quando esmerilhou “Rising Force”, de Yngwie Malmsteen. No palco ele tentou pôr uma máscara de Eddie, mascote do Iron Maiden, que não ficou na cara nem por um compasso inteiro de “Running Free”.

Falando na banda: a rapaziada, aparentemente, está numa crescente, azeitando a máquina a cada compromisso. Houve erros, mas nada digno de menção ou crítica. A “solucionática” revelou-se eficaz sobretudo em “Remember Tomorrow” e “Phantom of the Opera”, as duas mais intrincadas do setlist.

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Mais que isso: o grau de confiança de Paul nos músicos de apoio vem aumentando. Prova disso foi que, contra todas as expectativas, encerrada “Prowler”, que todos esperavam ser a última da noite, ele anuncia: “Não estava nos meus planos tocar essa aqui, pois não faço mais parte da banda, mas, com vocês… ‘Iron Maiden’!” Presentaço para os cariocas que suavam em bicas no inferninho um dia apelidado de Teatro Odissauna e retribuíram de pronto bradando “Paul! Paul! Paul!”.

(Ah, e desta vez, ao contrário de 2013, teve “Drifter”. A dívida, ao menos comigo, foi paga, afinal.)

Assista a vídeo de “Iron Maiden” gravado por André Cruz:

*Fotos de Paty Sigiliano / @paty_sigilianophotos

Paul Di’Anno – ao vivo no Rio de Janeiro

  • Local: Agyto Lapa
  • Data: 2 de fevereiro de 2023
  • Turnê: The Beast is Back

Repertório – Paul Di’Anno:

  1.  The Ides of March (gravação)
  2.  Wrathchild
  3.  Purgatory
  4.  Sanctuary
  5.  Drifter
  6.  Murders in the Rue Morgue
  7.  Remember Tomorrow
  8.  Genghis Khan
  9.  Killers
  10.  Charlotte the Harlot
  11.  Transylvania
  12.  Phantom of the Opera
  13.  Running Free
  14.  Prowler
  15.  Iron Maiden

Repertório – Noturnall:

  1. Try Harder
  2. No Turn at All
  3. Fight the System
  4. Wake Up
  5. Thunderstruck (AC/DC cover)
  6. Reset the Game
  7. Scream for Me
  8. O Tempo Não Para (Cazuza cover)
  9. Nocturnal Human Side

Repertório – Electric Gypsy:

  1. Hit and Run
  2. Nine Lives
  3. More Than Meets the Eye
  4. Hot for Teacher (Van Halen cover)
  5. Heads or Tails
  6. The Devil Made Me Do It
  7. Shoot ’em Down
  8. Welcome to the Jungle (Guns N’ Roses cover)
  9. Shoot to Thrill (AC/DC cover)

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Marcelo Vieira
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Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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