Os melhores discos de 2022 na opinião de Pedro Hollanda

Colaborador do site e indie residente selecionou seus destaques do ano em top 10 e lista complementar de menções honrosas

Dezembro chegou e como o ano da música na realidade só tem 11 meses, é a hora de eleger os melhores discos de 2022 em minha opinião.

É necessário estabelecer aquela máxima de que a lista abaixo é pessoal. Sou bem consciente do meu gosto não necessariamente refletir parte do público do site. Se for pra reclamar, importunem o Igor por me dar palanque.

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Começo pelas menções honrosas, com uma frase curta sobre cada um dos álbuns. Em seguida, partimos para o top 10.

Menções honrosas

Fontaines D.C. – “Skinty Fia” (Indie Rock): O quinteto irlandês abraçou elementos mais shoegaze na sonoridade, mas retendo a visceralidade das letras e melodias. 

Vince Staples – “Ramona Park Broke My Heart” (Rap): Após experimentar com produção techno e minimalismo em discos anteriores, um dos rappers mais carismáticos faz um trabalho quase nostálgico, tanto em seu olhar para o passado do artista quanto na sonoridade west coast dos anos 90 e 2000.

Arctic Monkeys – “The Car” (Indie Rock): Ícones do indie deixam seu passado para trás em definitivo, adotando um som dramático e orquestral, ainda retendo os elementos de composição responsáveis por fazer da banda uma das mais importantes a sair do Reino Unido nos últimos 20 anos.

SAULT – “Air”, “11”, “X”, “Aiir”, “Earth”, “Today & Tomorrow”, “Untitled (God)” (Nem sei por onde começar a descrever o gênero porque são sete lançamentos): O coletivo de R&B liderado pelo super produtor britânico Inflo – famoso por seu trabalho com artistas como Michael Kiwanuka, Little Simz, Jungle e, recentemente, Adele – teve SETE lançamentos em 2022, abrangendo desde soul, eletrônica, hip hop, gospel e até música clássica. A prolificidade foi tamanha a ponto de não poder escolher um só.

Spoon – “Lucifer on the Sofa” (Rock): A banda mais consistente do rock americano continua lançando discos ótimos após 20 anos, construindo canções sem firulas que na realidade são cheias delas.

Baco Exú do Blues – QVVJFA? (Rap): Após o desbunde quase humorístico de “Não tem Bacanal na Quarentena”, um dos maiores nomes do rap nacional lançou um álbum que confere a relacionamentos entre homens e mulheres o mesmo nível de cuidado e paixão da obra prima “Bluesman”. Os defeitos inerentes às noções tradicionais de masculinidade, as diferenças fundamentais entre experiências de vida de pessoas não-brancas e como isso afeta relações. O disco mais romântico do ano, por mais bagunçado e problemático que esse romance seja.

Yeah Yeah Yeahs – “Cool It Down” (Indie Rock): O trio liderado por Karen O retorna após nove anos com talvez o melhor disco da carreira. Seja examinando um mundo à beira do colapso sob a ótica de alguém determinada a brigar pela humanidade até o fim ou explorando a tradição experimental do rock nova-iorquino, o Yeah Yeah Yeahs continua uma baita banda. 

Tomberlin – “i don’t know who needs to hear this…” (Folk): Sarah Beth Tomberlin compõe canções dotadas de uma inteligência emocional singular, capazes de cortar através das barreiras estabelecidas pelo ouvinte, quase como se fosse uma amiga de longa data. Não quer dizer necessariamente que ela saiba mais sobre o mundo, mas ela certamente faz quem está do outro lado da caixa de som se sentir menos sozinho.

Spiritualized – “Everything Was Beautiful (Rock Psicodélico): Jason Pierce quase morreu mais de uma vez, e carrega essas experiências traumáticas na voz. Suas canções são enormes, influenciadas por blues, gospel e psych rock, porém frágeis, e é nessa tensão que uma beleza avassaladora surge.

Fernando Catatau – Fernando Catatau (Rock Psicodélico): Um dos maiores guitarristas brasileiros vivos deixa solos e licks de lado em favor de clima numa exploração maior de música eletrônica e brega. A canção é o senhor desse disco, e os resultados são extremamente positivos.

Beyoncé – “Renaissance” (R&B): A cantora mais poderosa do planeta resgata as origens da house music, de festas eletrônicas organizadas por negros e pessoas LGBTQ procurando escapar de um mundo os oprimindo. É música pra fazer qualquer um se sentir invencível.

Os 10 melhores discos de 2022 para Pedro Hollanda

Vamos agora ao Top 10.

10. Makaya McCraven – “In These Times” (Jazz)

O baterista e bandleader já havia construído um currículo capaz de posicioná-lo como um dos principais nomes do jazz americano pelos próximos anos, começando com uma releitura espetacular de Gil Scott-Heron no disco “We’re New Again: A Reimagining by Makaya McCraven”, mas em “In These Times” ele constrói um caso para ser considerado um dos principais nomes do hip-hop e R&B também. 

McCraven bebe com vontade da fonte de ritmos quebrados popularizados pelo finado produtor americano J Dilla, e incorpora elementos de sampling durante sua própria performance criando algo que soa como o lo-fi hip-hop em voga, mas pela parte do ouvinte impossível de engajar de maneira passiva. É tanta coisa interessante acontecendo a ponto de ser impossível ficar relegada ao fundo.

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9. Wet Leg – “Wet Leg” (Indie Rock)

Rhian Teasdale e Hester Chambers eram duas amigas nascidas na Ilha de Wight que haviam aparecido aqui e ali na cena musical britânica, mas sem muito sucesso. Foi só se juntar e começaram a lançar algumas das melhores canções indies dos últimos 10 anos do nada.

O que diferencia o Wet Leg de muitas bandas indies inglesas é a capacidade das duas principais integrantes fazerem o ouvinte rir. E não é rir no sentido das canções serem piadas. Algumas são, outras não. Mas existe uma corrente de bom humor passando por todos os momentos, seja falando sobre machismo, amizades frustrantes, abuso online ou até tentativas canastronas de flerte. Ajuda também o fato da música ser uma destilação dos melhores elementos do gênero.

8. Jake Blount – “The New Faith” (Folk)

Jake Blount é um músico e pesquisador sobre as origens da música folclórica americana. Em “The New Faith”, ele pega canções da tradição folk, blues, bluegrass e as recontextualiza numa narrativa sobre uma sociedade afrofuturista pós-apocalipse climático.

É impressionante o quão bem o material se aplica, dada a ênfase nos aspectos mais apocalípticos da Bíblia presente não só na tradição musical americana, mas na abordagem do protestantismo praticado no país. Sejam influenciadas pelo livro das Revelações ou o Dilúvio, as canções escolhidas Blount acabam tendo relevado o coração batendo em seu âmago.

São músicas apelando para o bem latente em todo ser humano, palavras de conforto e encorajamento para perseverança.

7. Ty Segall – ““Hello, Hi”” (Rock)

Ty Segall nos últimos anos estava modulando entre discos beirando o heavy metal e obras influenciadas pelo pós-punk beirando o no wave, movimento avant garde de onde saiu o Sonic Youth.

Em ““Hello, Hi””, o músico retorna ao garage rock influenciado por glam que o conseguiu notoriedade no início da carreira. Segall é capaz de alternar momentos acústicos plácidos e riffs encharcados de fuzz com maestria. 

Sua banda de apoio, formada pelo baixista Mikal Cronin, o tecladista Ben Boye e o baterista Charlie Moothart, é capaz de acompanhá-lo nessas mudanças, criando um trabalho extremamente coeso usando elementos do passado para criar algo que aponta ao futuro do rock.

6. Kendrick Lamar – “Mr. Morale & The Big Steppers” (Rap)

O maior rapper vivo foi pra terapia em grande parte por não saber lidar com seu status de maior rapper vivo. O resultado foi um disco tematicamente rico, seja pela exploração contínua de Kendrick das relações raciais nos EUA, mas também em seu reconhecimento de muitas falhas de caráter e como isso afetou suas relações.

O álbum não é perfeito, com momentos onde as intenções são excelentes, mas que o rapper ainda escorrega em questões de transfobia. Mas como se trata de uma narrativa sobre o processo de alguém reconhecendo suas imperfeições em meio a muita gente atestando sua perfeição sem o conhecer pessoalmente, ele está no caminho certo.

É quase irônico que, ao afirmar sua falibilidade e como não deveria ser visto como exemplo, Kendrick se mostra alguém cuja deixa deveríamos seguir. Se você está lendo isso e tem vergonha de pedir ajuda para sua saúde mental, saiba que vale a pena. 

5. Alvvays – “Blue Rev” (Indie Rock)

O Alvvays passou por um número de perrengues para poder lançar “Blue Rev”. Enchentes que destruíram o equipamento da banda, demos roubadas, a pandemia. Contudo, tudo isso pode ter contribuído para a qualidade final do disco.

Todas as canções de “Blue Rev” mostram pessoas em estado de fluxo, colocadas em encruzilhadas da vida. Seja influenciada diretamente pela obra do escritor Haruki Murakami ou traçando seus próprios perfis de pessoas à beira de decisões importantes, Molly Rankin canaliza a expectativa em torno do Alvvays, numa posição antes do lançamento do álbum de estar prestes a se tornar um dos principais grupos indies da América do Norte.

O resultado é um disco cheio de guitarras extremamente barulhentas e melodias açucaradas, rimas complexas e emoções mais ainda. O Alvvays atendeu às expectativas.

4. NewJeans – “NewJeans EP” (K-Pop)

A melhor estreia da história do K-Pop. Quatro canções que qualquer outro grupo e/ou artista, independente de nacionalidade, daria um pulmão para gravar. A integrante mais velha tem 18 anos, e duas outras ganharam crédito de composição, algo raríssimo para idols em seu debut.

Quanto às canções de fato, pegam tudo do melhor do R&B da virada do milênio, aquele que crescemos vendo no TVZ e toca até hoje em qualquer lugar, criando uma base para a exploração do amor sob uma ótica adolescente, porém surpreendentemente madura e tecnologicamente sábia.

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“Dragging words out, one by one, from your fingers is no fun” (Arrancar palavras uma de cada vez de seus dedos não tem graça), de “Hurt”, é um dos versos mais eloquentes sobre a realidade de relacionamentos na era digital. “Hype Boy” poderia aparecer num disco do Frank Ocean. “Attention” resume de maneira esperta o início de qualquer crush à necessidade nossa que a outra pessoa nos note.

A média de idade desse grupo é 16,6 anos. O futuro está aqui, e sofre de amor.

3. Panda Bear & Sonic Boom – “Reset” (Pop experimental)

Noah Lennox e Peter Kember são dois nomes muito famosos em círculos experimentais. O primeiro criou uma carreira premiada como integrante de um dos maiores grupos hipsters de todos os tempos, o Animal Collective, e através de seus lançamentos solos sob a alcunha Panda Bear. O segundo era o cérebro por trás do Spacemen 3, banda inglesa responsável por combinar garage rock com psicodelia e eletrônica nos anos 80, sendo um dos precursores da sonoridade popularizada pelos Stone Roses, Primal Scream e Spiritualized.

Os dois haviam se juntado quando Kember, que atende pela alcunha Sonic Boom desde os tempos do Spacemen 3, produziu um disco anterior de Lennox, “Panda Bear Meets The Grim Reaper”. 

A colaboração para “Reset” surgiu através de uma brincadeira. Kember é obcecado por introduções instrumentais dos anos 50 e 60, as recortando e criando bases formadas apenas por essas. Ele as enviou para Lennox, que começou a compor canções em cima dessas. Os lançamentos do Panda Bear sempre foram influenciados por Brian Wilson, devido à qualidade naïf das melodias do Beach Boy.

Em “Reset”, Panda Bear tem o melhor lançamento de sua carreira desde “Person Pitch”, obra prima de 2007. As introduções são reconhecíveis a princípio, mas adquirem uma nova cara através da repetição contínua e as melodias criadas por Lennox e Kember.

2. The Smile – “A Light For Attracting Attention” (Rock)

O acontecimento mais surpreendente durante o auge da pandemia foi o show surpresa durante o livestream especial feito pelos organizadores do festival de Glastonbury de um grupo novo formado por Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead, com Tom Skinner, um dos percussionistas do finado grupo de afro-jazz inglês Sons of Kemet.

Em sua apresentação para o mundo, Yorke descreveu o nome do grupo não ser o sorriso de felicidade, e sim o sorriso daquele que mente para você o tempo inteiro. E a música do grupo reflete isso.

Enquanto o lançamento mais recente do Radiohead, “A Moon Shaped Pool”, é melancólico, “A Light For Attracting Attention” salta dos alto falantes com a mesma urgência de alguns dos melhores momentos da carreira do grupo do qual Yorke e Greenwood também fazem parte. 

Seja na roqueira “You Will Never Work In Television Again”, a angular “Thin Thing” ou o groove acachapante de “The Smoke”, o The Smile brilha com a mesma intensidade do Radiohead. Mas é em “Free In The Knowledge” que eles entregam um ode à transitoriedade da vida, lembrando ao ouvinte de estarmos num momento ruim, mas temos a capacidade de superar qualquer coisa.

Uma rosa por qualquer outro nome continua uma rosa? Não sei, mas um Radiohead por outro nome continua tão bom.

1. Big Thief – “Dragon New Warm Mountain I Believe in You” (Folk Rock)

Ambição é algo que nunca faltou ao Big Thief. Por mais descompromissada seja a sonoridade do grupo, o simples ato de chamar sua estreia “Masterpiece” demonstra uma confiança enorme no próprio taco. Nesse quinto álbum, o quarteto liderado pela compositora Adrianne Lenker encara um dos maiores desafios e clichês do rock clássico, o disco duplo. E tem um sucesso absurdo.

Tudo começa e termina na qualidade das canções. “Dragon New Warm Mountain I Believe in You” tem 20 faixas, todas no mínimo boas, e 80 minutos que passam voando. É preciso muita confiança para lançar oito músicas antes do lançamento do disco. Mas o Big Thief sempre esbanjou essa característica.

Seja no rock magnífico de “Little Things”, cujo instrumental sempre parece estar mudando entre si, ou o experimentalismo de “Time Escaping”, a beleza de “Simulation Swarm” e “No Reason” até a irreverência de canções como “Spud Infinity” – que conta com um berimbau de boca tocado pelo irmão de Adrianne Lenker, Noah – e “Red Moon”, cujo clímax da canção é a cantora exclamando “That’s my grandma!” (Essa é a minha avó!), “Dragon New Warm Mountain I Believe in You” é carregado com um senso de comunidade.

É um disco feito por pessoas extremamente próximas buscando estabelecer conexões com outros. Um álbum para tocar em família, uma trilha sonora para todos os momentos comunais. Uma obra-prima.

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Pedro Hollanda
Pedro Hollanda
Pedro Hollanda é jornalista formado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso e cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Apaixonado por música, já editou blogs de resenhas musicais e contribuiu para sites como Rock'n'Beats e Scream & Yell.

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