Entrevista: Gary Holt fala sobre “Persona Non Grata”, primeiro álbum do Exodus em 7 anos

Novo álbum do grupo acabou sendo beneficiado pela pandemia e traz homenagens a artistas falecidos, críticas à era das “fake news” e o thrash metal bem executado de sempre

O Exodus está de volta com “Persona Non Grata”, seu primeiro álbum em 7 anos. O material sucede um longo período em que o guitarrista Gary Holt esteve envolvido com o Slayer, banda que encerrou atividades recentemente.

Décimo-primeiro álbum de estúdio do Exodus. “Persona Non Grata” foi feito em circunstâncias totalmente diferentes de seu antecessor, “Blood In, Blood Out” (2014). Em entrevista coletiva para jornalistas da América Latina acompanhada por IgorMiranda.com.br, Holt detalhou esse caminho tortuoso que enfim chegou a um novo trabalho, que será disponibilizado na próxima sexta-feira (19) pela gravadora Nuclear Blast e ganhará edição física nacional pela Shinigami Records.

Leia outros trechos da entrevista:

Com o fim do Slayer em 2019, o guitarrista logo concentrou suas forças para dedicar-se inteiramente ao Exodus. Em sua visão, isso fez toda a diferença no novo trabalho na comparação com o antecessor.

“Adoro ‘Blood In, Blood Out’, mas ele foi feito em meio a dificuldades, a troca de vocalistas, a turnê com o Slayer, comunicação por telefone, e-mail ou texto… é muito difícil trabalhar em um álbum sem estar lá, então ‘Persona Non Grata’ foi muito mais confortável.”

Pandemia e câncer de Tom Hunting

Com a pandemia, toda banda no planeta precisou interromper suas atividades na estrada. Dese modo, o Exodus tivesse mais tempo para trabalhar nas novas músicas. O processo de composição foi iniciado por Gary Holt junto do baterista Tom Hunting, com o envolvimento posterior dos demais integrantes – o também guitarrista Lee Altus, o baixista Jack Gibson e o vocalista Steve “Zetro” Souza.

“Sempre tenho mil riffs, componho riffs dormindo. Quando Tom Hunting e eu nos juntamos no início de julho de 2020 para trabalhar nas músicas juntos, concluindo coisas que eu havia composto e criando coisas novas, fizemos da mesma forma de quando éramos garotos: Tom em uma bateria e eu num amplificador. Tocamos por horas a fio todos os dias. Foi incrivelmente old school.”

Veio de Hunting, infelizmente, o maior desafio do processo: o baterista foi diagnosticado em outubro de 2020 com um câncer no estômago, que tem uma taxa de mortalidade bastante alta. A doença só foi descoberta mesmo após os trabalhos relacionados a “Persona Non Grata”, mas Holt sabia que havia algo errado com a saúde do amigo.

“Ele ainda não sabia que estava com câncer, mas sabia que algo estava acontecendo, porque ele estava sofrendo uma perda de peso inexplicável. Tom é um cara gigante, quase 15 centímetros mais alto que eu, e eu estava pesando mais do que ele. Mas ele se sentia bem.”

O batera venceu a batalha contra o câncer, mas precisou se afastar de algumas apresentações nesta volta à estrada, onde foi substituído por John Tempesta. O retorno do músico aos palcos ocorreu durante o festival Aftershock, no último mês de outubro.

Destaques de “Persona Non Grata”

Os três singles de “Persona Non Grata” divulgados até agora são alguns de seus grandes destaques. A primeira faixa liberada como prévia foi a pesadíssima “The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)”, lançada em agosto, que trata sobre temas de abuso policial.

No entanto, ao longo da coletiva, os outros dois singles foram os mais comentados por Gary Holt: “Clickbait” e “The Years of Death and Dying”, ambas com letras repletas de significado.

Sobre a primeira, Gary Holt afirma que o tema não tem exatamente a ver com política, mas com fake news de um modo geral e à prática midiática de gerar acessos em sites de notícia a qualquer custo. De modo conciliador, o guitarrista colocou na balança as diferentes visões que as pessoas têm sobre determinados assuntos.

“Sempre há fake news, mas minhas fake news são reais para outras pessoas, e minhas notícias reais são fake para outro cara. Quem sabe? Penso da seguinte forma: ‘consigo entender o que é verdade e o que não é’. Mas então percebo que o outro cara também acha isso dele. Ainda assim, acho que tudo o que ele lê é mentira e tudo o que eu leio é verdade, então…”

Ao dar um exemplo de um típico caso de fake news, Holt aproveitou para elogiar o Metallica, que traz um ex-integrante do Exodus na formação: o guitarrista Kirk Hammett.

“Se eu desse uma entrevista falando que o Metallica é a maior banda de metal de todos os tempos (o que acho que é) e ‘Master of Puppets’ é o melhor álbum de todos os tempos (o que acho que é), mas ‘Lulu’ é uma porcaria, mas manchete diz ‘Gary Holt diz que Metallica é uma porcaria’… esqueceram de todo o restante da fala e pegaram essa pequena coisa. É isso que te fazem ler. Todo mundo olha pra aquilo e diz: ‘mas não foi isso que ele disse’. Isso é ‘Clickbait’.”

Por sua vez, “The Years of Death and Dying” chama atenção por citar diversos artistas já falecidos em sua letra, composta por Tom Hunting. Há referências a Riley Gale (Power Trip), Tom Petty, Johnny Cash, Bon Scott (AC/DC), David Bowie, Glenn Frey (Eagles), Prince, Freddie Mercury (Queen), Neil Peart (Rush), Jeff Hannemann (Slayer) e Eddie Van Halen (Van Halen).

A respeito do último, Gary Holt relembrou o impacto que sentiu ao saber da morte do ídolo. A referência a Eddie, no verso “I ended the ‘Eruption’”, foi ideia do próprio guitarrista e entrou na composição no dia em que o astro do Van Halen morreu.

“Eddie teve grande importância para mim. Minha guitarra branca na contracapa do álbum ‘Bonded By Blood’ (1985), quando a comprei, deixei-a parecida com a Frankenstrat de Eddie Van Halen, com faixas vermelhas. Ficaram lá por um ou dois dias, mas depois tirei as fitas, porque você não pode copiar a guitarra de Eddie. Ele é um dos meus heróis e sempre será.”

Participações e turnê com ex-membros

Gary Holt, guitarrista do Exodus

Parte do bate-papo com Gary Holt envolveu participações, tanto no álbum do Exodus como fora dele.

Em “Persona Non Grata”, a faixa “Lunatic-Liar-Lord” traz colaborações de dois guitarristas ligados ao Exodus. Um deles é Rick Hunolt, que integrou o grupo em vários momentos e gravou todos os álbuns entre o primeiro e “Tempo of the Damned” (2004). O outro é Kragen Lum, que substituiu Holt durante seu período junto ao Slayer.

“Lee Altus é o guitarrista do Exodus, mas Rick é parte da nossa família, sempre bem-vindo para vir tocar. Tínhamos um espaço na música ‘Lunatic-Liar-Lord’ com dois solos bem longos. Sugeri: ‘por que não os cortamos e Rick faz um solo e o outro fica com Kragem? Ele ficou no meu lugar durante todos esses anos em que estive no Slayer. Criamos essa grande jam de 4 guitarras no Exodus.”

Aproveitando o gancho dos ex-integrantes, Gary destacou que gostaria de fazer uma turnê no futuro com todos os membros do passado que estiverem interessados em participar.

“Gostaria de, no futuro, fazer uma turnê especial com todos os ex-membros sobreviventes que vocês quiserem – apesar de que alguns podem não querer fazer isso. Fizemos isso há alguns anos em dois shows em San Francisco, com Paul Bostaph (baterista) e Rob Dukes (vocalista). Nos divertimos tanto que ficamos pensando: ‘temos que fazer uma turnê assim’.”

Em outro momento, o guitarrista do Exodus falou sobre sua participação em outro projeto: o Me and That Man, idealizado por Adam “Nergal” Darski, vocalista do Behemoth. O terceiro álbum da banda, “New Man, New Songs, Same Shit, Vol. 2”, será lançado no mesmo dia de “Persona Non Grata” e traz um solo de Holt em “All Hope Has Gone”, música que também traz o vocalista Blaze Bayley (ex-Iron Maiden) e o guitarrista Jeff “Mantas” Dunn (ex-Venom).

“Nergal me pediu para fazer um solo para o disco e foi fácil para mim, porque eu estava gravando o álbum do Exodus, então já estava preparado. Não precisei fazer nada além de ouvir a música e tentar um solo. Saiu ótimo. Não sei como ficou no final, pois não ouvi a música pronta, mas fiz um solo bastante melódico e energético, ao estilo Gary Moore. Estou muito orgulhoso.”

Exodus – “Persona Non Grata”

Lançamento em 19 de novembro de 2021, pela Nuclear Blast. Edição em CD nacional pela Shinigami Records.

  1. Persona Non Grata
  2. R.E.M.F.
  3. Slipping Into Madness
  4. Elitist
  5. Prescribing Horror
  6. The Beatings Will Continue (Until Morale Improves)
  7. The Years of Death and Dying
  8. Clickbait
  9. Cosa Del Pantano
  10. Lunatic-Liar-Lord
  11. The Fires of Division
  12. Antiseed

Formação

  • Steve “Zetro” Souza (vocal)
  • Gary Holt (guitarra)
  • Lee Altus (guitarra)
  • Jack Gibson (baixo)
  • Tom Hunting (bateria)

Músicos adicionais

  • Rick Hunolt (guitarra em “Lunatic-Liar-Lord”)
  • Kragen Lum (guitarra em “Lunatic-Liar-Lord”)
  • Cody Souza (backing vocals)
  • Nick Souza (backing vocals)

Leia outros trechos da entrevista:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posts Relacionados
Total
12
Share