Como um projeto real com crianças influenciou o filme Escola de Rock, com Jack Black

Álbuns produzidos por um professor de educação infantil na década de 1970 só ganharam fama duas décadas depois, inspirando roteirista de clássico longa-metragem

Ame ou odeie, “Escola de Rock” tornou-se um filme clássico para os fãs de rock em geral. Seja pela trilha sonora escolhida a dedo, seja pelas atuações – desde o ator e protagonista Jack Black até o grupo de crianças que o acompanha -, o longa lançado em 3 de outubro de 2003 é irresistível.

O que nem todo mundo sabe é que a ideia do filme surgiu a partir de um projeto real de crianças tocando clássicos do rock nos anos 1970. A iniciativa aconteceu em várias escolas do Canadá e ofereceu um novo panorama sobre educação musical no país.

Entre os anos de 1976 e 1977, o professor Hans Fenger foi uma espécie de Dewey Finn de um grupo de alunos do Distrito Escolar de Langley, na província canadense da Colúmbia Britânica. Insatisfeito com a música infantil da época, ele convocou alunos de várias escolas primárias da região para cantar em um coral cujo repertório teria músicas de Paul McCartney, Davie Bowie, Beach Boys e outros nomes do rock.

O projeto, que recebeu o nome The Langley Schools Music Project, acabou indo mais longe do que se esperava: foram lançados dois álbuns, ambos gravados no ginásio de uma das escolas da região. Os títulos dos discos traziam os nomes das escolas envolvidas e do próprio Fenger: “Lochiel, Glenwood, and South Carvolth Schools”, o primeiro, saiu em 1976; enquanto “Hans Fenger/Wix-Brown Elementary School” foi divulgado no ano seguinte.

Confira, a seguir, a lista de faixas de cada um dos álbuns:

“Lochiel, Glenwood, and South Carvolth Schools”

Gravado e lançado em 1976

  1. You’re So Good to Me (The Beach Boys)
  2. To Know Him Is To Love Him (The Teddy Bears)
  3. Help Me, Rhonda (The Beach Boys)
  4. Space Oddity (David Bowie)
  5. I’m Into Something Good (Herman’s Hermits)
  6. Band on the Run (Paul McCartney & Wings)
  7. Rhiannon (Fleetwood Mac)
  8. Little Deuce Coupe (The Beach Boys)
  9. Saturday Night (Bay City Rollers)

“Hans Fenger/Wix-Brown Elementary School”

Gravado e lançado em 1977

  1. Venus and Mars/Rock Show (Paul McCartney & Wings)
  2. You’re Sixteen (Johnny Burnette)
  3. Wildfire (Michael Martin Murphey)
  4. In My Room (The Beach Boys)
  5. I Get Around (The Beach Boys)
  6. The Long and Winding Road (The Beatles)
  7. Desperado (The Eagles)
  8. Good Vibrations (The Beach Boys)
  9. God Only Knows (The Beach Boys)
  10. Sweet Caroline (Neil Diamond)
  11. Mandy (Barry Manilow)
  12. Calling Occupants of Interplanetary Craft (Klaatu)

A fama tardia do Langley Schools Music Project

Como esperado, os dois álbuns lançados pelas crianças não foram um grande sucesso de vendas. Acabaram por passar despercebidos por um bom tempo.

A situação mudou mais de duas décadas depois. Em 2000, um colecionador de discos canadense teve acesso ao primeiro trabalho e se encantou com a música que ouviu ali, tendo encontrado o segundo volume algum tempo depois.

Impressionado, o fã mostrou o material ao jornalista e radialista Irwin Chusid, que também curtiu e começou a buscar gravadoras para relançar os álbuns. Depois de 10 negativas, finalmente a Bar/None Records concordou em lançar uma compilação dos dois discos em CD, intitulada “Innocence & Despair”, em 2001.

O título da compilação (“Inocência e Desespero”, em tradução livre) pode parecer forte demais para um álbum gravado por crianças. Por isso mesmo, o próprio Hans Fenger, idealizador do projeto, explicou no encarte as circunstâncias e a escolha por músicas mais adultas.

“Se os resultados foram bons ou ruins, afinados ou não, não era o problema: eles tinham vontade. Essa não era a forma como a música era tradicionalmente ensinada. Mas eu nunca gostei de ‘música infantil’ convencional, que é condescendente e ignora a realidade da vida das crianças, que pode ser obscura e assustadora. Essas crianças odiavam coisas ‘fofas’: elas curtiam canções que evocavam solidão e tristeza.”

Reconhecimento

O lançamento da coletânea “Innocence & Despair”, em 2001, fez com que as performances das crianças de Langley (obviamente, já adultas na época) finalmente ganhasse o devido reconhecimento.

Até mesmo alguns homenageados souberam da iniciativa: David Bowie, por exemplo, disse ter adorado a versão de “Space Oddity”, definindo-a como uma “obra de arte” que ele “não poderia ter concebido”.

Outros artistas como Fred Schneider (The B-52’s), Richard Carpenter (The Carpenters) e o escritor Neil Gaiman colocaram o álbum em suas listas de favoritos daquele ano.

O canal VH1 chegou a produzir, em 2002, um documentário sobre o projeto, reunindo Hans Fenger e alguns de seus antigos alunos.

Inspiração para Escola de Rock

A tardia chegada do projeto ao conhecimento público fez com que o roteirista Mike White descobrisse a iniciativa. Jack Black, protagonista do filme, confirmou a inspiração do roteirista em entrevista dada em 2003 a Jim DeRogatis.

“Ele (Mike White) me ligou e disse: ‘ei, estou pensando em um filme para você onde você seria um professor substituto e um roqueiro frustrado – um músico falido meio que procurando por seu nicho no mundo do rock –, daí você acaba ensinando para essas crianças sua música mágica’.

Ele estava baseando isso parcialmente no Langley School Project, aquele álbum cult de um professor nos anos 70 ensinando esses grandes clássicos do rock para crianças. Achei uma ideia incrível.”

A ideia realmente deu certo: “Escola de Rock”, lançado em 2003, com direção de Richard Linklater, fez enorme sucesso na época em que foi lançado, arrecadando mais US$ 131 milhões na bilheteria mundial. Além disso, concorreu a prêmios como Globo de Ouro, MTV Movie Awards e British Comedy Awards – vencendo os dois últimos.

Com o tempo, o longa virou um clássico cult entre os fãs de rock, servindo como porta de entrada para muitos jovens admiradores do estilo. Por fim, veja a lista de músicas tocadas em “Escola de Rock”.

  1. “For Those About to Rock (We Salute You)” – AC/DC (letra usada por Dewey Finn em um discurso)
  2. “Fight for Your Love” – No Vacancy (presente no álbum da trilha sonora)
  3. “Stay Free” – The Clash
  4. “Touch Me” – The Doors (Dewey canta para Lawrence / presente no álbum da trilha sonora)
  5. “Do You Remember Rock ‘n’ Roll Radio?” – cover de Ramones feito pelo Kiss
  6. “Sunshine of Your Love” – Cream (presente no álbum da trilha sonora)
  7. “Back in Black” – AC/DC
  8. Riffs tocados por Dewey para Zack: “Iron Man” – Black Sabbath; “Smoke on the Water” – Deep Purple; “Highway to Hell” – AC/DC
  9. “Substitute” – The Who (presente no álbum da trilha sonora)
  10. “Greatest Love of All” – George Benson (letra usada por Dewey Finn)
  11. “Roadrunner” – The Modern Lovers
  12. “My Brain Is Hanging Upside Down (Bonzo Goes to Bitburg)” – Ramones (presente no álbum da trilha sonora)
  13. “The Wait” – cover do Killing Joke feito pelo Metallica
  14. “In the Ancient Times” – Esocla de Rock
  15. “Sad Wings” – Brand New Sin
  16. “Mouthful of Love” – Young Heart Attack
  17. “Black Shuck” – The Darkness (na versão em CD da trilha sonora, essa música foi trocada por “Growing On Me”)
  18. “Immigrant Song” – Led Zeppelin (presente no álbum da trilha sonora)
  19. “Set You Free” – The Black Keys (presente no álbum da trilha sonora)
  20. “Edge of Seventeen” – Stevie Nicks (presente no álbum da trilha sonora)
  21. “Ballrooms of Mars” – T. Rex (presente no álbum da trilha sonora)
  22. “Moonage Daydream” – David Bowie
  23. “TV Eye” – The Stooges (presente no álbum da trilha sonora)
  24. “Ride into the Sun” – The Velvet Underground
  25. “Heal Me, I’m Heartsick” – No Vacancy (presente no álbum da trilha sonora)
  26. “School of Rock” – Escola de Rock (presente no álbum da trilha sonora)
  27. “It’s a Long Way to the Top (If You Wanna Rock ‘n’ Roll)” – cover do AC/DC feito por Escola de Rock (presente no álbum da trilha sonora)
  28. “Math Is a Wonderful Thing” – Jack Black e Mike White (presente no álbum da trilha sonora)

* Texto desenvolvido em parceria por André Luiz Fernandes e Igor Miranda. Pauta e edição geral por Igor Miranda; redação e apuração adicional por André Luiz Fernandes.

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