Foto: Alysse Gafkjen / divulgação

Greta Van Fleet soa grandioso, mas pouco convincente em “The Battle at Garden’s Gate”

Grupo se distancia das comparações com o Led Zeppelin; por outro lado, oscila entre momentos bons e esquecíveis ao longo do trabalho

O novo álbum do Greta Van Fleet está entre nós. “The Battle at Garden’s Gate”, segundo full-length dos jovens músicos americanos, chega a público por meio da Lava / Republic Records.

Com produção de Greg Kurstin (Foo Fighters, Adele), “The Battle at Garden’s Gate” começou a ser feito ainda em 2019. Há registros de que algumas músicas, como “Heat Above”, foram compostas na época do material dos primeiros EPs do grupo, “Black Smoke Rising” e “From the Fires”, ambos de 2017.

Ouça “The Battle at Garden’s Gate” a seguir, via Spotify:

Busca por originalidade e grandiosidade

Em entrevistas, Josh Kiszka (voz), Jake Kiszka (guitarra), Sam Kiszka (baixo e teclados) e Danny Wagner (bateria) têm adiantado que “The Battle at Garden’s Gate” seria diferente de seus outros lançamentos. Ao ouvir o trabalho, dá para concluir que eles estão certos. Para o bem e para o mal.

Até hoje, o Greta Van Fleet lida com as comparações, nem sempre justas, com o Led Zeppelin. Algumas músicas deles realmente soam como um tipo de Zeppelin do século 21, especialmente em “From the Fires”, mas mencionar isso a todo momento é limitar a curta, porém efetiva obra do quarteto.

Diante disso, os músicos começaram a mudar sua sonoridade no trabalho anterior, “Anthem of the Peaceful Army” (2018), que mesclava a pegada tipicamente “hard Led” com algumas faixas de proposta diferente. “The Battle at Garden’s Gate” abdica ainda mais da influência do Zeppelin e caminha para um som próprio, mas ainda em evidente processo de maturação.

O grupo optou, curiosamente, pelo mesmo caminho de seus ídolos com o desenrolar da década de 1970: produções grandiosas e detalhistas. Há mais teclados e menos guitarras neste trabalho, que flerta com o soft rock retrô em diversos momentos. Tudo ficou bem “gigantão”, com aparições frequentes de piano, instrumentos de corda de orquestra e até backing vocals.

Embora careçam de apontamentos mais aprofundados – afinal de contas, são moleques de 20 e poucos anos -, as letras estão melhor escritas e trazem reflexões conscientes sobre o mundo de hoje. “Tears of Rain”, nesse sentido, é o grande destaque, já que elucida sobre a pobreza no mundo – e foi criada após os músicos do grupo se impressionarem com uma favela no Rio de Janeiro durante turnê pelo Brasil em 2019.

Faixa a faixa

Heat Above“, faixa de abertura que já era conhecida dos fãs, mostra logo de cara a ambição do Greta Van Fleet com relação a seu presente – e futuro. Tipicamente soft rock, a música é carregada de camadas, seja pelos teclados bem presentes, pelo cruzamento de violões com guitarras ou pelos arranjos de orquestra aparecendo vez ou outra. Muito boa.

My Way, Soon“, primeiro single divulgado, traz a banda em uma “dupla aposta”. A parte rítmica e o riff tipicamente Jimmy Page remetem ao som do EP “From the Fires”, mas a construção de arranjos e especialmente as linhas vocais de Josh apontam um caminho mais próprio, ainda que fortemente calcado no retrô. Ainda melhor que a faixa anterior.

Seria cedo demais para uma longa balada? Para uma banda que está buscando uma ruptura, não – e é por isso que “Broken Bells” entra como a terceira faixa. O arranjo é genuinamente belo, mas o refrão com vocais estridentes soa deslocado.

O sopro mais próximo do que conhecemos do Greta “antigo” vem com “Built By Nations“, música que traz a sonoridade do álbum anterior, “Anthem of the Peaceful Army”. É, talvez, a primeira faixa em que o instrumental conta com um brilho maior, potencializado pelas boas linhas de bateria de Danny Wagner.

Em pegada similar, porém mais cadenciada, há “Age of Machine“, com uma veia quase progressiva que, infelizmente, provoca bocejos. A música se arrasta e só convence no refrão, que poderia funcionar nos shows se não levasse tanto tempo para chegar nele.

Tears of Rain” é a tão comentada música composta após os integrantes do Greta se impressionarem com uma favela do Rio de Janeiro. É conduzida por belos arranjos de violão e traz o piano na linha de frente em alguns momentos, mas falta aquele refrão, aquele gancho melódico que te pega – justamente, o único elemento que a faixa anterior tem de convincente.

Stardust Chords“, por sua vez, até começa promissora, porém cai em um andamento chato e perde a oportunidade de crescer no refrão. Nem a proposta mais grandiosa de instrumental a partir da segunda metade, com quarteto de cordas e backing vocals, foi capaz de salvá-la.

A situação começa a melhorar em “Light My Love“, um típico soft rock com atenções divididas entre guitarra, violão e piano em meio a ganchos melódicos aconchegantes. Enfim, algum destaque positivo – assim como “Caravel“, que volta a colocar Jake Kiszka na linha de frente, apresenta vocais impressionantes de Josh e traz até um flerte com a sobriedade do grunge em seu andamento.

The Barbarians“, por sua vez, é pura psicodelia. A guitarra segue em destaque por aqui e em tempos onde baterias programadas dominam a produção musical, o timbre real da performance de Danny Wagner é um chamariz e tanto.

Outra faixa que até poderia estar em “Anthem of the Peaceful Army”, mas também reflete a evolução da banda, é “Trip the Light Fantastic“. O andamento da canção surpreende em alguns quesitos, especialmente em sua segunda metade, quando os backing vocals fazem tudo crescer em qualidade.

O encerramento com “The Weight of Dreams“, apresentando quase 9 minutos de duração, tem contornos épicos. Em meio a um álbum de proposta tão grandiosa, não poderia ser diferente. Sua primeira etapa é a música em si, enquanto a segunda descarrega um imenso e incrível solo de guitarra, compensando a ausência do exibicionismo de Jake em outras faixas.

Feito para os críticos?

O grande mérito de “From the Fires” e dos tempos iniciais do Greta Van Fleet é pegar o ouvinte logo de começo e causar uma reação – geralmente boa, apesar dos detratores puristas. “The Battle at Garden’s Gate”, por sua vez, é aquele tipo de álbum que precisa ser ouvido várias vezes para a devida compreensão.

Isso, na maioria das vezes, não costuma ser um bom sinal. Aconteceu comigo com “Anthem of the Peaceful Army” e o passar do tempo fez com que esse disco perdesse pontos em meu gosto pessoal. Foram raras as vezes que peguei para ouvi-lo após o período de lançamento.

Temo que “The Battle at Garden’s Gate” tenha esse mesmo destino, ainda que dê para sentir o capricho na produção e o ganho de maturidade por parte da banda. Há, claro, boas músicas por aqui, com destaque a “Heat Above”, “My Way, Soon”, “Light My Love”, “Caravel” e “Trip the Light Fantastic”, mas outras, especialmente no miolo da tracklist, não causam impressão alguma. São apenas regulares.

Tal concepção me faz entrar na principal conclusão deixada por esse álbum: parece ter sido feito para os críticos, não para os fãs ou para os próprios músicos. Claro: não é que o Greta Van Fleet precisasse imitar o Led Zeppelin pelo resto da vida (e eles já não estão mais fazendo isso), mas talvez fosse cedo demais para um disco tão ambicioso.

O grande ponto é que os integrantes ainda não parecem “cascudos” o suficiente para ousar. Eles mesmos tinham medo disso e já admitiram, em entrevistas, que “Anthem of the Peaceful Army” não soou da forma como eles queriam por ter sido, conscientemente, um trabalho de (acelerada) transição.

Todo esse desencontro faz de “The Battle at Garden’s Gate” apenas um bom álbum, com momentos isolados interessantes, mas sem funcionar tão bem no todo. A audição ainda é recomendada e o futuro do Greta segue muito promissor, mas é uma pena que o novo trabalho não seja tão arrebatador como “From the Fires”.

Greta Van Fleet – The Battle at Garden’s Gate

01. Heat Above
02. My Way, Soon
03. Broken Bells
04. Built by Nations
05. Age of Machine
06. Tears of Rain
07. Stardust Chords
08. Light My Love
09. Caravel
10. The Barbarians
11. Trip the Light Fantastic
12. The Weight of Dreams

O álbum está em minha playlist de lançamentos, atualizada semanalmente. Siga e dê o play:

* Foto da matéria: Alysse Gafkjen / divulgação

6 comentários
  1. Nossa Igor, você é a primeira pessoa que acompanho e respeito que tô vendo o comentário sobre o álbum e não poderia discordar mais haha! Faço parte do grupo que não curtia a banda, achava/acho o som um pasteurizado grande com músicas que tinham partes que pareciam até chupadas mesmo de trechos do Led Zeppelin. Com “contornos de voz” e frases de Josh em que claramente se tinha um cara que queria ser Robert Plant ali. Admito a qualidade da banda, mas acho os outros cds tediosos por esse motivo. Já esse aqui eu simplesmente apaixonei.

    Achei incrível e tem pelo menos umas quatro músicas grandiosas. Me surpreendi por Age of Machine lhe causar “bocejos”, porque eu achei incrível a ponto de me emocionar kkkk. No geral vejo um cd em sua maior parte com uma pegada de baladas setentistas, mas achei sim grandioso e convincente. Enquanto antes eu via praticamente um cover, esse cd aqui é uma bela homenagem ao rock setentista, hard rock, southern de uma forma geral.

    1. Oi, Jéssica. A discordância é natural e espero que não tenha perdido o respeito por mim devido a uma opinião. 🙂

      Eu também queria ver o Greta Van Fleet indo além, fugindo das referências ao Led Zeppelin. Definitivamente não sou “viúva” daquele som, hehe.

      Mas senti que, nesse caso, foi feito de uma forma apressada. Acho que eles ainda vão aprimorar essa dinâmica, a melhorando nos próximos álbuns, mas nesse disco eu não curti tanto. E, como habitual, entendo perfeitamente quem gostou, até porque não é um álbum ruim – muito longe disso!

      No mais, obrigado por seu comentário, que, certamente, oferece um acréscimo de ótimo nível ao meu texto. Abs!

  2. Boa resenha. E a beleza da vida está em admirar as diferenças. O curioso é que viciei em Broken Bells desde o primeiro play (uma das músicas menos elogiadas por ti) em compensação forcei, mas odiei My way, soon.

  3. Soa grandioso porque é grandioso. Puta som dos muleques. Sonzão de gente grande. A banda convenceu desde o primeiro álbum. Fiquei fanzaço assim q ouvi, pois, se de início simpatizei com eles devido à influência do Led Zeppelin, não precisou ouvir mais do que 3 músicas pra sacar q não tem nada de imitação e que o Greta tem sim sua própria vibe original. Já é um clássico, assim como outros grandes heróis do rock tornaram-se clássicos logo de cara. A banda é nova. É normal os críticos cobrarem uma postura de provação, coisa com a qual a banda não parece estar preocupada. Vamos curtindo o som do Greta como fans q somos e não como críticos q não somos. As músicas do Greta serão o plano de fundo de nossas tenras noites de semana em casa e a trilha sonora dos momentos dourados que marcarão a memória. Daqui 20 anos não haverá hierarquia entre Greta van Fleet e Led Zeppelin. A personalidade musical da banda tá na cara, é muito latente. Tem que ser muito tapado musicalmente pra achar que as pessoas estão curtindo Greta van Fleet por saudosismo do Led. O vocalista canta pra caralhuuuu!!! Com certeza tem 10 mil anos de curso de canto… não é possível…. rsrsrsrss O guitarrista encontrou uma vibe e um timbre clássico da dar inveja… têm a química q toda grande banda precisa pra compor e arranjar. São moleques e, verdade, ainda nem amadureceram musicalmente. Imagina quando chegarem lá. Curto de montão o Greta van Fleet, Sou fã. Esse é o melhor disco deles até agora. Também eu espero pelos próximos…. Greta van Fleet – Puta banda do som massa pra karalhu….. Led quem?

  4. Eu gosto do som da banda, mas, esse vocal me dá um negócio que me faz trocar de musica, ainda mais quando ele vem com aqueles ‘oh mama’, urgh, eu tentei muito gostar da banda, mas, com esse vocal não desce.

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