“Holy Land”, a obra-prima definitiva do Angra

Angra – “Holy Land”
Lançado em 23 de março de 1996

Avalio os dois primeiros álbuns do Angra de forma bem peculiar. “Angels Cry” (1993), disco de estreia, é o meu favorito por trazer uma série de clássicos, mas não dá para negar que “Holy Land” (1996) é, por diversos motivos, melhor que o debut.

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A diferenciação está no contexto de cada obra. O primeiro  tem mais músicas que funcionam individualmente, em shows ou em audições mais casuais. Já o segundo move-se devidamente como álbum, como obra fechada, tendo início, meio e fim.

Parte disso se dá por “Holy Land” ser uma obra conceitual. As letras versam sobre o descobrimento do Brasil pelos portugueses, que consideravam aquele local a “terra sagrada” – daí o título do álbum. Embora as composições não sigam uma ordem cronológica, tudo é muito bem amarrado dentro do conceito original.

A ideia melhor estabelecida por trás do disco também permitiu que toda a construção musical, seja melódica ou rítmica, carregasse influências diversas. “Holy Land” evolui a proposta de incluir referências da música tradicional brasileira ao heavy/power metal do grupo, permitindo, ainda, o acréscimo de sonoridades de origens latinas e africanas.

É, sobretudo, um trabalho rico, que demorou a ser concluído, mas que definiu toda uma era para a música pesada brasileira – ao lado de “Roots”, álbum lançado pelo Sepultura também em 1996. O vocalista Andre Matos, os guitarristas Rafael Bittencourt e Kiko Loureiro, o baixista Luis Mariutti e o baterista Ricardo Confessori estavam, realmente, inspirados.

Composição e gravação

As composições de “Holy Land” começaram, ainda em 1995, em um sítio no interior de São Paulo. Os músicos ficaram isolados durante quatro meses para criar todas as músicas – além das presentes na tracklist final, foram concebidas canções como “Eyes of Christ” e “Live and Learn”, que só saíram depois com Edu Falaschi no vocal, e “Freedom Call”, presente no EP “Freedom Call” (1996).

As gravações foram realizadas na Alemanha, novamente com produção de Charlie Bauerfeind e Sascha Paeth, que ocuparam a função em “Angels Cry”. A banda, claro, é detentora de maior parte dos méritos desses discos, mas o trabalho desses dois produtores foi decisivo para o bom resultado obtido por eles logo em seus trabalhos iniciais.

Um problema nas cordas vocais de Andre Matos atrasou o processo de gravação. Em entrevista à Roadie Crew, o saudoso vocalista, falecido em 2019, explicou que sofreu de uma estafa, diagnosticada apenas no Brasil, após ser consultado por três médicos na Alemanha que não encontraram solução para o problema.

Andre, aliás, foi o ponto chave para a composição de “Holy Land”. O cantor dizia que, diferentemente do que se vê em “Angels Cry”, todos os integrantes estavam mais envolvidos com a composição desse álbum. Contudo, é perceptível que o segundo disco do Angra apresenta diversos elementos de sua genialidade.

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Não à toa, quatro das 10 faixas do trabalho foram compostas exclusivamente por ele, tanto voz quanto melodia: “Silence and Distance”, “The Shaman”, “Deep Blue” e a faixa-título. Rafael Bittencourt, como de costume, também exerce papel importante na composição, mas mesmo as suas criações tiveram colaboração de algum outro integrante.

Faixa a faixa

A abertura de “Holy Land” fica a cargo da vinheta instrumental “Crossing”, que reproduz uma missa do italiano Giovanni Pierluigi da Palestrina. Em seguida, entra “Nothing to Say”, que rapidamente se tornou um dos grandes clássicos da banda – com justiça, pois apresenta riffs fortes, performance vocal sólida e um groove sensacional desenvolvido pela cozinha de Luis Mariutti e Ricardo Confessori.

A balada “Silence and Distance” surge na sequência como um anticlímax que, de início, pode não ser bem digerido. Por que colocar uma balada com abertura guiada no piano logo no começo da tracklist e após uma faixa tão pesada? A interpretação sensacional de Andre em meio ao andamento musical intrincado da canção busca reduzir esse impacto.

A próxima música é, certamente, um dos destaques do álbum: “Carolina IV”, com seus imponentes 10 minutos de duração. A mistura entre heavy/power metal, ritmos afro-brasileiros e música clássica é tão bem colocada que nem dá para chamar de “ousada”, pois os caras sabiam o que estavam fazendo.

A faixa-título “Holy Land” aprofunda a “miscigenação melódica” que todo o álbum propõe. Os músicos conseguem agregar influências da música nativa brasileira, europeia (erudita) e africana/nordestina já na introdução, de modo sutil, apenas com piano, voz, percussão e instrumentos de sopro. A dinâmica cresce nos minutos seguintes e a canção segue envolvente sem precisar recorrer ao power metal. Um retrato, em especial, da genialidade de Andre Matos.

“The Shaman” adota ares mais densos, colocando em destaque o groove típico da música de matriz africana. Há pianos e instrumentos de sopro ao fundo que dão uma dinâmica bem distinta à canção.

Não à toa lançada como single, “Make Believe” é uma das músicas que caem mais facilmente no gosto do ouvinte. Tem uma melodia bem cativante e uma formatação mais clara, especialmente pelo refrão. O final, que cruza gritos de Andre Matos com um solo de guitarra cortante de Kiko Loureiro, é arrasador.

“Z.I.T.O.” é dona de uma das teorias da conspiração mais peculiares da história do metal brasileiro. Afinal, o que diabos significa essa sigla? Há quem cite explicações relacionadas ao conceito do álbum, há quem diga que seja simplesmente o nome do filho do caseiro do sítio de Ricardo Confessori, que um dia teria sido flagrado se masturbando.

Fato é que a boa canção, ao menos musicalmente, parece deslocada em meio a um álbum tão denso. Por toda sua construção, soa mais próxima do power/heavy de “Angels Cry” do que de “Holy Land”. Ainda assim, não é nem um pouco descartável – só não tem o diferencial das anteriores.

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Outra quebra de clima vem em seguida, com a melancólica balada “Deep Blue”. Bem construída sob a influência da música clássica, a faixa de andamento arrastado coloca a performance de Andre Matos na linha de frente, tanto no vocal quanto no piano.

O encerramento fica a cargo da climática “Lullaby for Lucifer”, conduzida por violão de nylon, voz e barulhos de água corrente. Típica composição de Rafael Bittencourt, a “canção de ninar para Lúcifer” traz um arranjo aconchegante que surpreende com uma aparente dissonância em seus segundos finais.

Sucesso

Certamente, os músicos do Angra sentiram um frio na barriga quando fizeram de “Holy Land” um trabalho tão complexo. O motivo é evidente: nem sempre as obras mais “carregadas” são devidamente compreendidas, seja em curto ou longo prazo.

Ainda bem que não foi assim. “Holy Land” repetiu o sucesso de “Angels Cry”, especialmente no Japão, onde a banda é idolatrada e onde voltou a conquistar disco de ouro, após 100 mil cópias vendidas.

Além da terra do Sol nascente, o quinteto excursionou por Brasil (inclusive abrindo um show para o AC/DC em 1996), Argentina e Europa, com várias apresentações pela França (onde eles também tinham uma sólida base de fãs) e Alemanha.

O Angra caminhava a passos largos para se tornar uma banda ainda mais conhecida. O som dos caras era diferenciado. “Holy Land” é a prova de que dá para fazer metal, mesmo power metal, de seu jeito próprio, sem obedecer a fórmulas.

Pena que a relação entre os músicos acabou azedando neste período. Andre Matos deixou a banda logo após a turnê de “Holy Land”, entre 1997 e 1998, quando já seria substituído por Edu Falaschi. Acabou convencido a voltar e gravou o álbum “Fireworks” (1998), saindo de vez após a tour de divulgação.

Junto de Andre, saíram o baixista Luis Mariutti e o baterista Ricardo Confessori, que formaram o Shaman com o guitarrista Hugo Mariutti, irmão de Luis. Por sua vez, o Angra seguiu em frente com Falaschi, o baterista Aquiles Priester e o baixista Felipe Andreoli.

Ainda que os fãs possam preferir outros itens da discografia do Angra, não dá para contestar: “Holy Land” é o álbum mais rico e completo da carreira do grupo. Traz um nível de musicalidade tão alto que nunca mais foi repetido por seus músicos, juntos ou separados.

Angra – “Holy Land”, a obra-prima definitiva do Angra

1. Crossing
2. Nothing to Say
3. Silence and Distance
4. Carolina IV
5. Holy Land
6. The Shaman
7. Make Believe
8. Z.I.T.O.
9. Deep Blue
10. Lullaby for Lucifer

Formação:

  • Andre Matos – vocal, piano, teclados, arranjos orquestrais, órgão
  • Kiko Loureiro – guitarra, vocais de apoio, percussão
  • Rafael Bittencourt – guitarra, vocais de apoio, percussão
  • Luis Mariutti – baixo
  • Ricardo Confessori – bateria, percussão
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Igor Miranda
Igor Miranda
Igor Miranda é jornalista formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pós-graduação em Jornalismo Digital. Escreve sobre música desde 2007. Além de editar este site, é colaborador da Rolling Stone Brasil. Trabalhou para veículos como Whiplash.Net, portal Cifras, revista Guitarload, jornal Correio de Uberlândia, entre outros. Instagram, Twitter e Facebook: @igormirandasite.

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