Sepultura privilegia fase Derrick Green em despedida do Rock in Rio

Setlist dedicado aos discos pós-1998 teve recepção prejudicada pelo mau-tempo

A primeira vez foi em 1991. Desde então, o Sepultura vem marcando presença no Rock in Rio — tanto nas edições realizadas no Rio de Janeiro propriamente dito quanto nas versões internacionais do festival — e, ao longo dessas décadas, consolidou-se como o maior nome ligado ao metal já exportado pelo Brasil. No sábado (5), o grupo sobe ao Palco Mundo pela nona vez na história do evento, em uma circunstância que transforma mais uma participação em capítulo final de uma relação iniciada há 35 anos.

Só que a bandeira agora flutua a meio mastro: o Sepultura está com os dias contados. Por livre e espontânea vontade, a banda sairá de cena ao término da turnê apropriadamente denominada Celebrating Life Through Death. O giro, iniciado em 2024, levará ao encerramento definitivo de uma trajetória de mais de quatro décadas — com o último show marcado para 7 de novembro, em São Paulo. Não se trata, portanto, de uma despedida protocolar ou de uma pausa estratégica: o fim está efetivamente programado.

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Ao assistir ao show que abriu os trabalhos do Palco Mundo neste sábado (5), fica evidente que não se trata de “os caras não dão mais conta”. Se tomarmos como parâmetro também o mais recente lançamento da discografia, “The Cloud of Unknowing”, a tese do esgotamento criativo tampouco se sustenta. O EP, último registro gravado pelo grupo, traz quatro músicas que apontam em direções distintas e inclui até uma power ballad de vocais limpos e clima contemplativo — parafraseando um cronista musical de outrora, tão esquisita quanto seria ouvir Barry White cantando sobre cobras e bebês mortos.

Foto: Thaís Barros @speccula

Em circunstâncias normais, o quarteto formado por Derrick Green (voz), Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo) e Greyson Nekrutman (bateria) teria uma hora para condensar mais de quatro décadas de história. A missão, a princípio ingrata, torna-se um pouco menos complicada quando o mote passa a ser a celebração de 28 dos 42 anos de carreira discográfica — precisamente a fase Derrick, iniciada em “Against” (1998), nas palavras de Andreas, “esse cara foda”. Ou seja: nada de “Refuse/Resist”, “Roots Bloody Roots” ou “Territory”. Em contrapartida, valorizando o capítulo mais recente dessa trajetória, as quatro faixas do supracitado The Cloud of Unknowing tiveram vez no repertório, incluindo “Beyond the Dream”, a balada que abriga, na avaliação deste que vos escreve, o melhor solo já composto por Andreas, e “Sacred Book”, apresentada ao vivo pela primeira vez.

Seria, porém, no mínimo leviano não reconhecer que o mau tempo teve implicações diretas sobre o comportamento do público. Quem acha que chuva na praia é o pior dos mundos é porque nunca esteve em um festival a céu aberto em um dia chuvoso. Ainda assim, viam-se aqui e acolá os esperados mosh pits — alguns deles, ornamentados por sinalizadores. A energia daquela fração da plateia, entretanto, não foi suficiente para contagiar uma maioria já mal-humorada, espremida em desconfortáveis capas de chuva e com os pés ensopados. Mesmo a pedido de Andreas — “essa é pra unir todas as rodas”, solicitou antes de “Corrupted” —, o máximo que se viu foram mosh pits um pouco mais amplos do que os que vinham se formando até então.

Fins de ciclo têm razões que a própria razão desconhece. O que se pode constatar, no caso do Sepultura, é que a despedida acontece quando a banda ainda parece capaz de entregar shows à altura de sua história — e justamente por isso a decisão se torna mais difícil de compreender e, talvez, mais digna de respeito. Afinal, não faltam exemplos de grupos que praticaram a própria autoeutanásia apenas para, alguns anos depois, ressuscitarem por razões poucas vezes mais nobres do que o vil metal. Se o Sepultura realmente cumprir a promessa de não voltar, ao menos terá feito algo cada vez mais raro no rock: escolher o momento de parar antes que a necessidade de continuar se torne maior do que a vontade.

Setlist Sepultura

  1. Against
  2. Choke
  3. All Souls Rising
  4. Kairos
  5. Means to an End
  6. The Place
  7. Phantom Self
  8. Convicted in Life
  9. Sacred Books
  10. Mind War
  11. Corrupted
  12. Beyond the Dream
  13. Sepulnation

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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