Parece roteiro de comédia romântica, mas não é: uma garota e um cara, ambos na casa dos vinte e poucos anos, dão match no Tinder e marcam um encontro em um bar no boêmio Northern Quarter, em Manchester. A conversa flui rapidamente. Entre um pints e petiscos, ela, promotora de shows, e ele, técnico de iluminação, descobrem interesses em comum e logo se dão conta de que é impossível ficar longe um do outro. Passados quatro anos, porém, concluem que a relação não vai mais funcionar e decidem permanecer amigos. O “problema” é que, na reta final do relacionamento, provavelmente já cientes de que o fim estava próximo, os dois começaram a compor juntos — e compunham bem juntos. “Músicas tristes com melodias pra cima”, ou, como a própria banda define, “uma celebração daquilo que é real”. “Is there a secret to saying goodbye?”, questiona o refrão de uma. “Let’s set the gaff on fire and start again”, propõe o verso de outra.
Dez anos depois daquele primeiro encontro, a garota, Hannah “Han” Mee, e o cara, Jim Shaw, são a carne, o osso e as duas vozes que conduzem o Hot Milk, uma das coisas mais legais que Manchester produziu desde que Liam Gallagher chamou o irmão mais velho, Noel, para quebrar um galho em sua banda. Flanqueados por Tom Paton (baixo) e Harry Deller (bateria), trouxeram seu power pop de contornos emo e consideráveis cestos de roupa suja a serem lavados para o Palco Sunset do Rock in Rio.
Mas nem só de atritos conjugais se sustenta o caráter lírico do grupo: questões sociais e políticas também são abordadas com a perícia de jovens que nunca deixam de se importar com a fome do outro só porque seu próprio prato está cheio. Essa perspicácia fica evidente no fundo do palco, com imagens de bombardeios e atentados alternando-se à mensagem que diz “não desvie o olhar”.
Ninguém desviou nem olhos nem ouvidos. Só que faltando menos de cinco minutos para os ingleses entrarem em cena, pareciam ter sido escolhidos para hora do xixi, do lanche ou da caça, àquela altura infrutífera, por brindes dos patrocinadores do evento… Até começarem a tocar. Poucas vezes este escriba viu um público tomar forma quase que num passe de mágica; e tão instantaneamente obedecer a comandos que iam de pulem alto, batam palmas e até abram um moshpit aí no meio. Nessa última talvez tenha faltado um pouco de perícia por parte da rapaziada; de certo, pouco habituada ao código de conduta de um show de rock.
Visualmente, Han remete a Joan Jett, mas parece ter esculpido sua persona vocal em torno de referências mais contemporâneas, como Lzzy Hale e Taylor Momsen. Já Jim porta-se como um Johnny Marr que ouviu Papa Roach demais. As vozes se complementam, se entrelaçam e, em incontáveis momentos, dialogam num esquema de chamada-e-resposta. O som vai do dançante ao emotivo com passagens que são o peso pelo peso e até etéreas demais. Gritos de “Hot Wheels” podem ser ouvidos de meia dúzia de gaiatos que, apesar da zoação, deram exemplo de dedicação ao serem os primeiros a puxar aplausos entre uma música e outra. Merecidissimos, aliás. Grata surpresa que, ao vivo, deixa até a última gota de suor no palco e, caso haja justiça neste plano e não lhes falte a sabedoria necessária, promete alçar voos altíssimos.
Setlist do Hot Milk
- Swallow This
- Horror Show
- I Just Wanna Know What Happens When I’m Dead
- Sunburn from Your Bible
- 90 Seconds to Midnight
- Bad Influence
- Candy Coated Lie$
- Wide Awake
- Breathing Underwater
- Bloodstream
- Zoned Out
- Over Your Dead Body
- Glass Spiders
- Party on My Deathbed
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