Quem aqui, como eu, tem a idade de Cristo quando morreu — com margem de erro de dois ou três anos para mais ou para menos — provavelmente se recorda dos “The” que brotaram quase simultaneamente na programação da extinta MTV Brasil, duas décadas e meia atrás. De Nova York, vinha o The Strokes, cujo principal argumento de venda por aqui, ao menos inicialmente, era a presença do brasileiro Fabrizio Moretti na bateria. Já o The Vines, de Sydney, Austrália, recebeu a conveniente alcunha de “filhos do Nirvana” justamente quando seus conterrâneos do Silverchair começavam a migrar rumo a recônditos mais sinfônicos. Completava a trinca o sueco The Hives, que, verdade seja dita, foi o que apresentou a trajetória mais consistente entre os três, tanto em frequência de lançamentos quanto na preservação de uma identidade sonora e visual — ambas inconfundíveis.
O show no Palco Mundo do Rock in Rio, nesta sexta-feira (4), marcou a estreia do The Hives no festival e a sexta passagem da banda pelo Brasil, quase 18 anos depois de sua primeira visita, em setembro de 2008. Cientes de que seu público reúne tanto os trintões que os conheceram por meio de “Hate to Say I Told You So” — incluída na trilha sonora de “Homem-Aranha“, de 2002 — quanto os filhos dessa geração, que embarcaram mais recentemente, via TikTok e outras redes, os suecos equilibram os dois extremos da carreira. O repertório percorre desde os primórdios até trabalhos recentes sem que as diferenças de época representem qualquer perda de energia ou de apelo.
Telões laterais exibiam um QR code que direcionava para um sorteio de bugigangas da banda — não sem antes exigir que o participante fornecesse toda sorte de dados pessoais. Ao fundo, balões infláveis com as letras H, I, V, E e S eram iluminados de modo intermitente, seguindo a batida da música. Metros e mais metros de cabos e roadies ninjas – literal e indumentariamente – com destreza o bastante para impedir nós e tropeços. Um deles mostrou-se ainda apto ao posto de músico de apoio ao agitar a pandeirola durante o “grande, grande hit” “Hate to Say I Told You So”.
Se “Hooray Hooray Hooray” traz um quê de “Blitzkrieg Bop”, do Ramones, muito do restante aponta para o AC/DC. Chamando o público de “meus amigos”, o vocalista Howlin’ Pelle Almqvist pede mais barulho, pede mais palmas, e repete: “Ótimo festival, ótimo público, ótimo banda”, feito mantra. “Os Foo Fighters estão de olho!”, justificou o vocalista. Simples em sua eficácia bem-humorada, “Come On!” – cuja letra consiste no título repetido 60 vezes em pouco mais de um minuto – fez abrir os primeiros moshpits da noite. Curiosamente, “Walk Idiot Walk” – com o ninja da pandeirola dando novamente as caras – não despertou o mesmo fascínio de “Tick Tick Boom”, estendida de modo a incluir as apresentações individuais dos músicos.
Aliás, vale um adendo: o lineup é o quase mesmo desde 1994, com Pelle acompanhado pelos guitarristas Nicholaus Arson e Vigilante Carlstroem e o batera Chris Dangerous. A exceção fica a cargo do baixista The Johan and Only, que substituiu o original, Dr. Matt Destruction, em 2013. Qual será o segredo? Arrisco: ótimos festivais, ótimos públicos e, sobretudo, ótimo banda. Como entoa Carly Simon na música-tema da saída do palco: “Nobody does it better”. Neste 4 de setembro, provavelmente ninguém o fará.
Setlist The Hives:
- Enough is Enough
- Main Offender
- Hooray Hooray Hooray
- Paint a Picture
- Bogus Operandi
- Hate to Say I Told You So
- Countdown to Shutdown
- Come On!
- Tick Tick Boom
- Legalize Living
- Walk Idiot Walk
- The Hives Forever Forever The Hive
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