Já passava de uma hora de show do Helloween quando Michael Kiske e Andi Deris ocuparam o palco da Suhai Music Hall, em São Paulo, sozinhos. Os dois vocalistas, que desde 2017 excursionam com a banda em uma formação reunida de septeto, sentaram-se em banquinhos. Kiske, munido de violão, brinca ao cantar e tocar “Suspicious Minds” (Elvis Presley) e “Yesterday” (Beatles) antes de transferir o instrumento para Deris, seu novo BFF, e começar “A Tale That Wasn’t Right”.
Esse tipo de momento retrata, de modo fiel, o que se tornou o Helloween após os retornos de Kiske e do guitarrista/vocalista Kai Hansen, dez anos atrás: uma celebração. Uma banda que no passado deixou de crescer e passou por tantas mudanças de formação provocadas por ego e brigas, agora, desfruta de paz. Não à toa, a configuração septeto caminha para se tornar a mais duradoura da história do grupo. Em agosto de 2028, irá superar o longevo lineup estabelecido entre 2005 e 2016, quando o baterista Dani Löble se juntou a Deris, Michael Weikath (guitarra), Sascha Gerstner (guitarra) e Markus Grosskopf (baixo).

O clima de celebração foi, mais uma vez, transmitido ao público que lotou a Suhai, na noite do último sábado (19), no segundo e último compromisso da turnê brasileira — três dias antes, a banda alemã de power metal tocou em Porto Alegre. Décima quarta visita ao país; 57º show por aqui. Nem precisava de tanto para o fã local festejar ao som dos caras, já que a relação vem de longa data. Mesmo assim, eles entregaram muito além do mínimo.
A começar pelo tempo de show: duas horas e 15 minutos, com pouco mais de 20 músicas. A primeira, “March of Time”, é um dos lados B mais cultuados pelos fãs — e antes da atual turnê, ganhou raras execuções ao vivo. Tê-la de volta ao repertório, ainda mais como abertura da noite, soa como um presente. Aqui, Kiske justifica sua posição como um dos maiores vocalistas da história do heavy metal. Brilha como poucos. Outra celebrada e raramente tocada em show, a épica “The King for a 1000 Years” faz justiça à fase Deris, também cantando uma barbaridade desde que passou a dividir o microfone com o colega.

A partir daí, o setlist equilibra clássicos com canções menos bem-sucedidas e faixas do novo álbum, o apenas razoável “Giants & Monsters” (2025). São elas: a enfadonha “This is Tokyo”, a balada “Into the Sun”, a progressiva “Universe (Gravity for Hearts)” e a divertida “A Little is a Little Too Much”. Se o “Septetoween” ainda não pegou a manha em estúdio — já que as composições mais recentes claramente não empolgaram e sequer restou alguma música do disco anterior, de 2021, no repertório atual —, ao vivo o bicho pega. Mesmo.
A montagem do set, aliás, chamou atenção. “Future World”, tendo Kai Hansen assumindo vocais de um ou outro verso, entra logo na terceira posição, enquanto “I Want Out”, geralmente presente no final, foi levada para o meio, levando ao delírio uma plateia já emocionada por praticamente tudo que havia rolado antes. O bis traz nada menos que “Eagle Fly Free” — com direito a Michael se perdendo após o primeiro refrão e até parando de cantar —, “Power” e “Dr. Stein”. Em outros tempos, clássicos assim ficavam mais distribuídos.

Para além das citadas “March of Time” e “The King for a 1000 Years”, houve resgates como a paulada “We Burn”, a tipicamente power “Twilight of the Gods” e a quase pop rock “Hey Lord!”. Algumas dessas canções não entravam nos shows desde a época de seus lançamentos. Decisão ousada, pois, para tal, tiveram de abrir mão de clássicos como “If I Could Fly”, “How Many Tears” e “Forever and One (Neverland)”. A fase Deris acaba sendo a mais prejudicada nesse sentido, pois há boas canções que estão fora ou receberam poucas oportunidades desde o retorno de Kiske, a exemplo de “Steel Tormentor” e “Sole Survivor”.

Neste show, o último do ano, houve espaço até para resgate de um clássico: “I’m Alive”, tocada ao vivo pela primeira vez nesta turnê. Para sua entrada, o grupo abdicou de “Hell Was Made in Heaven” e do trecho acústico de “In the Middle of a Heartbeat”. Dada a reação enérgica do público à faixa do álbum “Keeper of the Seven Keys Part I” (1987), não dá para contestar a escolha. Por outro lado, a plateia estava pirando com quase tudo. Era jogo ganho desde a reprodução de “Let Me Entertain You”, de Robbie Williams, que abriu a noite.
Como habitual, o quinteto instrumental operou com a mesma competência que a dupla (ou trio) vocal. Kai Hansen, Michael Weikath e Sascha Gerstner dividem os holofotes de modo coeso, com Hansen assumindo solos em canções que gravou originalmente e Gerstner a cargo do que veio depois. Weikath brilha, em especial, ao solar na versão acústica da citada “A Tale That Wasn’t Right”. Markus Grosskopf e Daniel Löble, som genérico de bateria à parte, também têm seus momentos.

Mas são as vozes que protagonizam o espetáculo. É lindo de se ver a interação amistosa e natural entre Michael Kiske e Andi Deris. Cantam juntos boa parte do repertório. Surpreende, em especial, ouvir Kiske em “The King for a 1000 Years”, enquanto Deris consegue agregar ainda mais qualidade a canções como “Future World” e “I Want Out”. Eles só se separam em parte do miolo do set, com interpretações individuais de “We Burn” (Andi), “Twilight of the Gods” (Michael), “Ride the Sky” (Kai Hansen), “I’m Alive” (Michael), “Hey Lord!” (Andi) e “Universe” (Michael). Faz até falta vê-los juntinhos nessa etapa.

A se lamentar de verdade, apenas a qualidade do som, que, embora tenha melhorado um pouco, esteve embolado e estridente ao longo de quase toda a noite, ao menos em pontos específicos das pistas premium e comum. Não combinou com a produção visual de palco, talvez uma das mais caprichadas do metal na atualidade, seja pelas belas artes de telão, os curiosos interlúdios narrados pelo “Keeper” ou jogo de iluminação climático a depender da canção
De resto, tudo nos trinques. Helloween, cada vez mais com cara de banda em vez de mera “turnê de reunião”, segue como uma das bandas de metal mais divertidas e honestas para se assistir ao vivo. Quando resolvem caprichar nas escolhas de setlist, mantendo o altíssimo nível instrumental, é ainda mais legal de se conferir.

Helloween — ao vivo em São Paulo
- Local: Suhai Music Hall
- Data: 19 de setembro de 2026
- Turnê: 40 Years Anniversary
- Produção: Mercury Concerts
Repertório:
- March of Time
- The King for a 1000 Years
- Future World
- This is Tokyo
- We Burn
- Twilight of the Gods
- Ride the Sky
- Into the Sun
- I’m Alive (primeira vez nesta turnê)
- Hey Lord!
- Universe (Gravity for Hearts)
- Solo de bateria
- I Want Out
- A Tale That Wasn’t Right (com trechos de “Suspicious Minds”, de Elvis Presley, e “Yesterday”, dos Beatles; início acústico com Michael Kiske e Andi Deris; banda entra depois)
- A Little Is a Little Too Much
- Heavy Metal (Is the Law)
- Halloween
Bis: - Invitation + Eagle Fly Free
- Power
- Dr. Stein (com “outro” de “Keeper of the Seven Keys”)

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