Em 20 de janeiro de 1991, o Maracanã fervia com uma multidão colossal — algo entre 140 mil e 175 mil pessoas reunidas para ver o Guns N’ Roses encabeçar a segunda edição do Rock in Rio.
Quem esperava o grito clássico de Axl Rose — “You know where the f*ck you are?” — abrindo alas para a selvageria de “Welcome to the Jungle” levou um susto. Com uma jaqueta de couro branco e bermudas coladas, cobertas pelas estrelas e listras da bandeira americana, ele começou a entoar versos sobre uma dominatrix de Los Angeles: “Well crack the whip / ‘Cause that b*tch is just insane” (“Então estale o chicote / Porque essa v*dia é simplesmente louca”), dizia um dos trechos passíveis de cancelamento hoje em dia.
Era “Pretty Tied Up”, criação de Izzy Stradlin que o público ouvia pela primeira vez na vida. A noite marcou a estreia ao vivo não só dela, mas de uma verdadeira safra de novidades: “Double Talkin’ Jive”, “You Could Be Mine”, “Dead Horse” e “Estranged” (com “Bad Apples” entrando na roda três dias depois).
Ninguém na plateia tinha como adivinhar, mas o material que eles estavam tirando do forno só chegaria às lojas quase oito meses mais tarde.
Só que, para entender essa bagunça linda, a gente precisa voltar um pouco mais no tempo — bem antes de eles sequer sonharem que lançariam dois discos duplos chamados “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II”.
A batida de um novo tempo
Mais do que testar sons novos, as apresentações do Guns N’ Roses no Rio de Janeiro funcionaram como o laboratório de uma criatura em mutação, com Matt Sorum assumindo as baquetas e Dizzy Reed, os teclados.
Reed tinha entrado no barco no começo de 1990 puxado a unha por Axl Rose. Vindo da bacia das almas de Los Angeles e velho conhecido de Izzy Stradlin, o tecladista estava na penúria total quando o empresário Alan Niven ligou com a proposta. “Eles me tiraram da m*rda, literalmente”, definiu ele à Rolling Stone, sem meias palavras.
Na bateria, a situação era um filme de terror em câmera lenta. Steven Adler já vinha na corda bamba por causa do vício debilitante em heroína. O fundo do poço bateu em dezembro de 1989, durante as sessões da canção “Civil War”. Duff McKagan e o produtor Mike Clink tiveram que suar sangue para costurar uma trilha de bateria aceitável a partir de dezenas de takes imprestáveis do músico.
O pé na bunda oficial veio em 11 de julho de 1990. Para o lugar dele, Slash lembrou de Sorum, que tinha visto tocar no The Cult e trazia na bagagem uma escola que passava pelo pop e pela new wave.
O impacto dessa troca apareceu com a releitura de “Knockin’ on Heaven’s Door”, gravada para o filme “Dias de Trovão”. Slash reconhece o salto em sua autobiografia (2007):
“Ficou ótimo. Mas havia uma diferença clara na sonoridade geral do novo Guns em relação ao antigo. Tínhamos perdido um pouco daquela confusão e do punk rock — aquela sensação crua, caótica e espontânea. Em vez disso, soávamos mais épicos, sólidos e grandiosos.”
Com quase seis minutos de estúdio, aquela versão de Bob Dylan já escancarava a nova obsessão da banda por grandiosidade, deixando para trás o rock “sujo” e elementar de “Appetite for Destruction” (1987).
Garimpando antigas ideias
Quando chegou a hora de parir o sucessor de “Appetite”, em vez de encarar uma folha em branco, o grupo vasculhou os cofres. Várias faixas eram fósseis vivos dos primórdios: esboços de “The Garden”, “Don’t Cry”, “Bad Obsession”, “Back Off Bitch” e “Yesterdays” datavam de 1985 e 1986, relíquias que acabaram vazando no famoso bootleg japonês “Rumbo Tapes” (1991).
Nenhuma, porém, vinha de tão longe quanto “November Rain”. Axl já cutucava aquelas teclas no piano desde o início da década de 1980. Uma gravação embrionária de 1986, feita em sessões supervisionadas por Manny Charlton (Nazareth), tinha inacreditáveis dezoito minutos, segundo o próprio Slash relatou anos depois.
Mas a máquina começou a girar de verdade em 1989, quando Slash, Duff e Steven se radicaram temporariamente em Chicago para desenhar o futuro. A ausência constante de Axl irritava, mas a trupe de cordas e baquetas aproveitou para adiantar o serviço. Duff lembra bem em “It’s So Easy: And Other Lies” (2012): “Terminamos ‘Civil War’ e compusemos ‘Get in the Ring’ e ‘Pretty Tied Up’, para citar algumas.”
De volta a Los Angeles, o dilúvio criativo desabou. Slash guarda a cena na memória: todo mundo na sala da casa dele, dedilhando violões, e cuspindo mais da metade do material dos vindouros “Use Your Illusion” em duas noites seguidas.
Foi aí que “Estranged”, maturada por Axl ao piano por anos, ganhou carne. Slash entrou com as ideias que virariam “Bad Apples”, “Coma” e “Locomotive”, enquanto Duff trouxe “So Fine”. O problema é que a pilha de canções explodiu. Eram trinta e seis faixas prontas ou semi. Slash queria catar as doze melhores e polir até brilharem. Axl bateu o pé: queria tudo gravado, na mesa, em formato de álbum duplo. Prevaleceu o desejo do vocalista.
Enquanto isso, o recém-chegado Matt Sorum se viu com a corda no pescoço: teve que decorar as trinta e seis músicas na marra, antes mesmo de saber direito o nome dos caras da banda.
36 dias de fúria (e um cadáver no quintal)
Quando montaram acampamento no estúdio A&M, em Hollywood, com Mike Clink pilotando a mesa de som, a gravação das bases voou. “Trinta e seis músicas em trinta e seis dias”, cravou Slash.
A regra ali era suar junto na mesma sala, como se estivessem num show, deixando os overdubs para depois. A explicação do guitarrista é pura sinceridade: ninguém ali tinha paciência para focar em uma coisa só por muito tempo.
Aliás, foi nessa mesma época que a realidade resolveu imitar o thriller mais sombrio: atrás do estúdio, a polícia encontrou restos humanos em uma caçamba de lixo. Izzy transformou o episódio em inspiração para “Double Talkin’ Jive”.
As bases subiram rápido, mas quando chegou a hora de Slash gravar as guitarras e, pior, de Axl assumir o controle, o ritmo mudou de figura.
O vocalista virou dono do estúdio, mergulhado em sintetizadores, teclados e paredes de arranjos. “Parecia uma criança numa loja de doces”, detonou o guitarrista. Na releitura de “Live and Let Die”, os naipes de metais eram sintetizados; o mesmo vale para os oceanos de cordas em “November Rain”.
Na verdade, a banda quase não chamou estranhos para tocar naqueles discos: vieram as vozes gospel para “Knockin’”, Michael Monroe (Hanoi Rocks) soprando gaita em “Bad Obsession” e Shannon Hoon — cantor do Blind Melon e conterrâneo de Axl e Izzy de Lafayette, Indiana — trazido para colar seus vocais agudos, quase infantis, em “The Garden” e “Don’t Cry”.
Também em “The Garden”, Alice Cooper entrou na jogada. O patrono do shock rock contou à Classic Rock como a coisa rolou:
“Axl me ligou às duas da manhã perguntando: ‘Você pode vir ao estúdio?’. Respondi que sim, mas que não podia passar três dias enfiado lá. Lembro claramente da cena quando cheguei. Axl estava lá, talvez Slash ou Duff, tudo pronto. A letra já existia. Ouvi a música três vezes e disse: ‘Sem problemas’. Axl nem precisou explicar o que era ‘The Garden’. Sendo letrista, saquei na hora para onde eles estavam indo. Para mim, ‘o jardim’ era o lugar onde você vai buscar a sua droga.”
Misturando tintas
A maratona da mixagem caiu nas mãos de Bill Price — veterano que já tinha dado liga no primeiro disco do Pretenders (1980) e em “Never Mind the Bollocks” (1977), dos Sex Pistols. Mas em maio de 1991 a bagunça parecia não ter fim. O resultado foi kafkiano: o Guns N’ Roses teve que cair na estrada. Era uma inversão total de lógica — rodar o mundo divulgando dois álbuns fantasmas, que nem data de nascimento oficial tinham.
Como se a corda já não estivesse esticada o suficiente, Axl Rose aproveitou o caos daquele mês para passar o cerol no empresário Alan Niven, colocando o então segurança Doug Goldstein para segurar o rojão.
Paralelo a tudo isso, a cabeça de Axl voava quilômetros à frente, obcecada pela identidade visual do monstro. Ele cismou com uma releitura cartunesca de “A Escola de Atenas”, do renascentista Rafael Sanzio, encomendada ao artista Mark Kostabi. Na imagem escolhida para estampar a capa, um garoto rabisca um caderno sob o olhar severo de um filósofo da Antiguidade.
Axl também tinha planos faraônicos para uma série de videoclipes. Três deles, em particular, teriam produção com qualidade cinematográfica e conectariam as músicas em uma trilogia de baladas sobre as circunstâncias dolorosas da vida do cantor: “Don’t Cry”, “November Rain” e “Estranged”.
Só que, antes de a ópera estrear de fato, o tanque de guerra do cinema comercial atropelou tudo com “You Could Be Mine”.
Lançado como single em julho de 1991, o som virou o cartão de visitas de “O Exterminador do Futuro 2 — O Julgamento Final”, colando a imagem da maior banda de rock do planeta direto no blockbuster estrelado por Arnold Schwarzenegger. E o próprio Ciborgue T-800 ainda deu as caras no videoclipe.
O preço da grandiosidade
Quando “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II” finalmente bateram nas prateleiras dos Estados Unidos 17 de setembro de 1991, a cena se repetiu de ponta a ponta do país: filas dobrando quarteirões em frente às lojas de discos.
As resenhas impressas nas revistas já tinham circulado, e dizer que a crítica ficou dividida seria generoso da parte deste escriba. Uns enxergavam ali pura megalomania, excesso de gordura e delírio de grandeza; outros viam exatamente nesses exageros a coragem de uma banda que se recusava a bater na mesma bem-sucedida tecla de “Appetite”.
Pouco importava o que os jornalistas achavam. “Use Your Illusion II” abriu direto em primeiro lugar na Billboard 200, com o irmão colado logo atrás, na segunda posição. O Guns N’ Roses cravava um feito inédito na história da parada americana, dominando os dois lugares mais altos do pódio com álbuns separados.
Mas o que prometia ser a coroação definitiva funcionou, na real, como o começo do fim.
Em outubro, Steven Adler — ainda digerindo o pé na bunda que levara — processou os antigos colegas. No mês seguinte, em novembro, quem pulou fora do barco foi Izzy Stradlin.
A partir dali, a caravana dos “Use Your Illusion” se transformou em uma odisseia épica — anos de estrada, trocas de integrantes, tretas homéricas e uma escala que pouquíssimos monstros do rock na história conseguiram sustentar. Ao fim de tantas etapas e continentes cruzados, cerca de sete milhões de pessoas pagaram para ver o circo pegar fogo ao vivo.
Duff McKagan resumiu o calvário com uma frase cirúrgica e brutal:
“Não me lembro de um dia de paz de 1990 a 1994.”
Nenhuma estatística de vendas traduz melhor aqueles anos do que essa lembrança.
Guns N’ Roses – “Use Your Illusion I” e “Use Your Illusion II”


- Lançados pela Geffen Records em 17 de setembro de 1991
- Produzidos por Mike Clink e Guns N’ Roses
Faixas (“Use Your Illusion I”):
- Right Next Door to Hell
- Dust N’ Bones
- Live and Let Die
- Don’t Cry (Original Version)
- Perfect Crime
- You Ain’t the First
- Bad Obsession
- Back Off Bitch
- Double Talkin’ Jive
- November Rain
- The Garden
- Garden of Eden
- Don’t Damn Me
- Bad Apples
- Dead Horse
- Coma
Faixas (“Use Your Illusion II”):
- Civil War
- 14 Years
- Yesterdays
- Knockin’ on Heaven’s Door
- Get in the Ring
- Shotgun Blues
- Breakdown
- Pretty Tied Up (The Perils of Rock N’ Roll Decadence)
- Locomotive (Complicity)
- So Fine
- Estranged
- You Could Be Mine
- Don’t Cry (Alternative Lyrics)
- My World
Músicos:
W. Axl Rose — vocais, piano, coro, sintetizadores, programação, efeitos sonoros, bateria eletrônica
Slash — guitarra solo, base, slide, violão, Dobro, talkbox, banjo, baixo de seis cordas
Izzy Stradlin — guitarra base, violão, sitar elétrica, guitarra solo, backing vocals, vocais principais em “Dust N’ Bones”, “You Ain’t the First”, “Double Talkin’ Jive” e “14 Years”, percussão em “Bad Obsession”
Duff McKagan — baixo, backing vocals, violão, percussão, vocais principais em “So Fine” e “Get in the Ring”
Matt Sorum — bateria, percussão, backing vocals
Dizzy Reed — teclados, sintetizadores, percussão e backing vocals
Músicos adicionais:
Steven Adler — bateria em “Civil War”
Shannon Hoon — vocais em “Don’t Cry”, backing vocals
Alice Cooper — vocais em “The Garden”
Michael Monroe — gaita e backing vocals em “Bad Obsession”
West Arkeen — violão em “The Garden”
Johann Langlie — bateria, teclados e efeitos sonoros em “My World”
Howard Teman — piano em “So Fine”
Tim Doyle — pandeiro em “You Ain’t the First”
Bruce Foster — efeitos sonoros em “Coma”
Reba Shaw e Stuart Bailey — backing vocals em “November Rain”
Jon Thautwein, Matthew McKagan, Rachel West e Robert Clark — naipes de sopro em “Live and Let Die”
Isabella e Carmela Lento — backing vocals em “Knockin’ on Heaven’s Door”
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