Não é preciso mais do que um verso e um refrão de “All My Life” para Dave Grohl ficar banhado em suor — e estampando o sorriso de praxe ao ver a multidão cantar em peso o grande sucesso de “One by One” (2002).
Verdade seja dita: o Foo Fighters desembarca neste Rock in Rio em meio a uma fase de transição dolorosa, reformulação interna e uma busca obstinada por continuidade. O baque inicial veio com a perda repentina de Taylor Hawkins, em março de 2022. Mais do que o baterista da banda, ele era a alma gêmea e o contraponto perfeito de Dave no palco — uma lacuna impossível de preencher. Lançado em 2023, o disco “But Here We Are” expõe justamente essa dor, canalizando o luto por Hawkins e também por Virginia Grohl, mãe do vocalista, falecida no mesmo ano.
Somando-se às perdas trágicas, vieram os desdobramentos da vida pessoal de Grohl, arranhando a histórica reputação de “cara mais legal do rock”. O barulho midiático em torno de sua vida familiar em 2024 exigiu uma mudança de postura do grupo quanto à privacidade e ao ritmo de exposição. Essa nova fase redefiniu a dinâmica ao vivo, ainda que o roteiro do show continue se apoiando nas sequências consagradas de sempre.
E essa contenção ditou o tom do show de encerramento do Palco Mundo no dia de abertura do evento. Saíram de cena as jams intermináveis que dilatavam as canções e caiu por terra a necessidade de representar cada capítulo de seus 30 anos de discografia.
As escolhas tinham alvo certo: o público da velha guarda. “Quem aí é das antigas?”, questionou Dave a certa altura. Resgates como “Stacked Actors”, do “There Is Nothing Left to Lose” (1999), e até “Walk”, do bem mais recente “Wasting Light” (2011), serviram como um verdadeiro teste de vocalização — que só quem é fã de verdade acompanhou. “Se você não souber a letra, olhe para o cinquentão ao seu lado e imite”, brincou Grohl, tirando de letra o rótulo de dad rock colado à banda — e escancarado no visual de tiozão dos companheiros Nate Mendel e Chris Shiflett. Ali, só Pat Smear parece escapar da estética tiozão.
Pedradas como “The Pretender”, “Times Like These”, “My Hero” e “Learn to Fly” já haviam dado as caras quando, empunhando o violão, Grohl anunciou “Wheels” (inédita lançada na compilação “Greatest Hits”, de 2009) como um “respiro necessário”. O ápice emocional do show veio logo em seguida, voltado especialmente aos fãs de carteirinha do Nirvana, ele resgatou “Marigold”, antigo lado B da banda que o revelou. “A primeira vez que estive no Brasil foi com o Nirvana, em 1993. Essa música é mais antiga do que isso”, contou Grohl, lembrando que a compôs dois anos antes, quando morava com Kurt Cobain. “Eu a tocava bem baixinho para não acordá-lo.”
Do álbum novo na praça, o ainda pouco comentado “Your Favorite Toy”, apenas “Window” deu as caras. Mas a máxima de festival não falha, ainda mais no Rock in Rio: por melhor que a safra inédita seja — e esta é boa —, nada se compara aos hinos que atravessaram gerações e viraram patrimônio afetivo da multidão.
Setlist Foo Fighters
- “All My Life”
- “The Pretender”
- “Times Like These”
- “Rope”
- “Stacked Actors”
- “My Hero”
- “Learn to Fly”
- “These Days”
- “Walk”
- “Wheels”
- “Marigold” (Late! cover)
- “Monkey Wrench”
- “Breakout”
- “Window”
- “The Sky Is a Neighborhood”
- “Aurora” (dedicada a Taylor Hawkins)
- “Best of You”
- “Exhausted”
- “Everlong”
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