Foo Fighters aposta na nostalgia para emocionar o Rock in Rio 2026

Apresentação de encerramento do Palco Mundo trocou os excessos habituais por afago na velha guarda, lembranças de Kurt Cobain e um arsenal de hits à prova de falhas

Não é preciso mais do que um verso e um refrão de “All My Life” para Dave Grohl ficar banhado em suor — e estampando o sorriso de praxe ao ver a multidão cantar em peso o grande sucesso de “One by One” (2002).

Verdade seja dita: o Foo Fighters desembarca neste Rock in Rio em meio a uma fase de transição dolorosa, reformulação interna e uma busca obstinada por continuidade. O baque inicial veio com a perda repentina de Taylor Hawkins, em março de 2022. Mais do que o baterista da banda, ele era a alma gêmea e o contraponto perfeito de Dave no palco — uma lacuna impossível de preencher. Lançado em 2023, o disco “But Here We Are” expõe justamente essa dor, canalizando o luto por Hawkins e também por Virginia Grohl, mãe do vocalista, falecida no mesmo ano.

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Somando-se às perdas trágicas, vieram os desdobramentos da vida pessoal de Grohl, arranhando a histórica reputação de “cara mais legal do rock”. O barulho midiático em torno de sua vida familiar em 2024 exigiu uma mudança de postura do grupo quanto à privacidade e ao ritmo de exposição. Essa nova fase redefiniu a dinâmica ao vivo, ainda que o roteiro do show continue se apoiando nas sequências consagradas de sempre.

E essa contenção ditou o tom do show de encerramento do Palco Mundo no dia de abertura do evento. Saíram de cena as jams intermináveis que dilatavam as canções e caiu por terra a necessidade de representar cada capítulo de seus 30 anos de discografia.

As escolhas tinham alvo certo: o público da velha guarda. “Quem aí é das antigas?”, questionou Dave a certa altura. Resgates como “Stacked Actors”, do “There Is Nothing Left to Lose” (1999), e até “Walk”, do bem mais recente “Wasting Light” (2011), serviram como um verdadeiro teste de vocalização — que só quem é fã de verdade acompanhou. “Se você não souber a letra, olhe para o cinquentão ao seu lado e imite”, brincou Grohl, tirando de letra o rótulo de dad rock colado à banda — e escancarado no visual de tiozão dos companheiros Nate Mendel e Chris Shiflett. Ali, só Pat Smear parece escapar da estética tiozão.

Pedradas como “The Pretender”, “Times Like These”, “My Hero” e “Learn to Fly” já haviam dado as caras quando, empunhando o violão, Grohl anunciou “Wheels” (inédita lançada na compilação “Greatest Hits”, de 2009) como um “respiro necessário”. O ápice emocional do show veio logo em seguida, voltado especialmente aos fãs de carteirinha do Nirvana, ele resgatou “Marigold”, antigo lado B da banda que o revelou. “A primeira vez que estive no Brasil foi com o Nirvana, em 1993. Essa música é mais antiga do que isso”, contou Grohl, lembrando que a compôs dois anos antes, quando morava com Kurt Cobain. “Eu a tocava bem baixinho para não acordá-lo.”

Do álbum novo na praça, o ainda pouco comentado “Your Favorite Toy”, apenas “Window” deu as caras. Mas a máxima de festival não falha, ainda mais no Rock in Rio: por melhor que a safra inédita seja — e esta é boa —, nada se compara aos hinos que atravessaram gerações e viraram patrimônio afetivo da multidão.

Setlist Foo Fighters

  1. “All My Life”
  2. “The Pretender”
  3. “Times Like These”
  4. “Rope”
  5. “Stacked Actors”
  6. “My Hero”
  7. “Learn to Fly”
  8. “These Days”
  9. “Walk”
  10. “Wheels”
  11. “Marigold” (Late! cover)
  12. “Monkey Wrench”
  13. “Breakout”
  14. “Window”
  15. “The Sky Is a Neighborhood”
  16. “Aurora” (dedicada a Taylor Hawkins)
  17. “Best of You”
  18. “Exhausted”
  19. “Everlong”

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Marcelo Vieira
Marcelo Vieirahttp://www.marcelovieiramusic.com.br
Marcelo Vieira é jornalista graduado pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), com especialização em Produção Editorial pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Há mais de dez anos atua no mercado editorial como editor de livros e tradutor freelancer. Escreve sobre música desde 2006, com passagens por veículos como Collector's Room, Metal Na Lata e Rock Brigade Magazine, para os quais realizou entrevistas com artistas nacionais e internacionais, cobriu shows e festivais, e resenhou centenas de álbuns, tanto clássicos como lançamentos, do rock e do metal.

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